Alimentação vegana para pets sem orientação pode resultar em problemas de saúde

Alimentação vegana para pets sem orientação pode resultar em problemas de saúde

Conforme explica Fabio Alves Teixeira, cães e gatos podem carecer de determinados nutrientes que são mais facilmente encontrados em alimentos de origem animal

O veganismo, estilo de vida que exclui o uso de qualquer produto de origem ou exploração animal, está crescendo no mundo e ganhando cada vez mais adeptos. Os motivos são vários: preocupação com a saúde, conscientização sobre o meio ambiente ou mesmo empatia com os animais. Nesse cenário, o veganismo não se restringe apenas aos humanos. Um estudo publicado pela revista Plos One constatou que 35% dos donos de cães e gatos consideram alimentar seus pets com comidas à base de vegetais. E, entre as pessoas que já seguem a dieta vegana, chega a quase 80% o número de tutores que consideram introduzir esse tipo de alimentação para seus animais.

Não é tão fácil

Fabio Alves Teixeira – Foto: Arquivo Pessoal

Fabio Alves Teixeira, pesquisador da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, avalia que, para o cão, é até possível seguir com a alimentação vegana, mas para o gato é muito difícil. Segundo ele, a proteína nem é a grande preocupação, porque os animais conseguem aproveitar bem a proteína vegetal, mas outros nutrientes são dificilmente supridos, como a vitamina B12 e a vitamina A: “A vitamina B12 está muito presente em produtos de origem animal. A vitamina A também, [está presente] nas carnes, no leite e no fígado”.

Ao contrário do senso comum, a cenoura não possui a vitamina A, e sim um betacaroteno, componente que vai ser transformado em vitamina A dentro do corpo. Esse é um impasse para os gatos, os quais não conseguem fazer essa conversão. “É como se ele tivesse uma deficiência desse nutriente. Já o cão consegue fazer isso. Esse é um exemplo de que, às vezes, a gente até consegue colocar o nutriente ali, mas ele pode não estar disponível, pode não estar ativo”, reflete Teixeira.

O veterinário também dá exemplo do ácido araquidônico, gordura presente apenas em ingredientes de origem animal: “Se a gente faz uma alimentação só com gorduras de origem vegetal é praticamente impossível colocar essa gordura na alimentação. O cão consegue pegar a gordura de origem vegetal e transformar em ácido araquidônico, o gato não consegue fazer isso”.

Possíveis alternativas e cuidados  

Acrescentar esses nutrientes de maneira sintética, com o auxílio de bactérias, pode reverter tal dificuldade. Outra alternativa é a suplementação. Segundo Teixeira, mesmo os animais que não seguem alimentações restritas precisam suplementar alguns nutrientes, mas ainda menos que os que recebem alimentos vegetarianos ou veganos, por exemplo: “Se a gente pegar uma ração normal, de boa qualidade, a gente vai ver que grande parte dos ingredientes que está ali são os suplementos de vitaminas e minerais. Por que eles [os animais] precisam de suplemento? Porque, na natureza, eles comem presas inteiras, eles estão comendo, por exemplo, os ossinhos, o cérebro, o olho, não só pedaços de carne”.

De acordo com o pesquisador, a alimentação que cães e gatos domésticos recebem hoje garante a eles maior expectativa de vida, porque os tutores conseguem fornecer uma alimentação completa através da ração.  Teixeira destaca que, caso um tutor deseje fornecer para seu pet uma alimentação caseira vegetariana ou vegana, o acompanhamento com um profissional é imprescindível para garantir que as necessidades nutricionais do animal sejam supridas e que ele não desenvolva problemas mais graves de saúde. Ele ainda reforça que não existe comprovação de que esse tipo de alimentação apresente benefícios para os pets.

“Alimentação caseira para cães e gatos, que a gente chama de alimentações alternativas, ditas como naturais, vegetarianas, veganas, todas essas são um risco nutricional”, informa o especialista. Ele completa: “As entidades da medicina veterinária recomendam que os animais sejam acompanhados por um profissional com muita experiência em formulação de alimentos para cães e gatos para garantir que eles não tenham problemas. Na rotina, a gente tem encontrado muitos pacientes com problemas nutricionais graves, às vezes com fraturas, convulsões, em que eles precisam de um acompanhamento muito próximo”.