A febre chikungunya é uma arbovirose transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. Ela foi registrada pela primeira vez no Brasil em 2014 e desde então se estabeleceu de forma constante, sendo considerada endêmica no território. Segundo o Painel de Monitoramento das Arboviroses, divulgado pelo Ministério da Saúde, no último ano o País registrou mais de 125 mil casos de chikungunya.
Atualmente as vacinas disponíveis para a doença são atenuadas, o que significa que são desenvolvidas a partir de uma versão enfraquecida do vírus. O sistema é parecido com a infecção natural e ajuda o corpo a criar uma resposta imunológica contra o germe causador da doença. O problema é que essas vacinas possuem uma pequena capacidade de causar doenças através da replicação do vírus vivo. Por esta razão, não são recomendadas para toda a população.
O mesmo não pode acontecer com a vacina proposta, porque o fragmento que causa a capacidade de infecção foi substituído. Ao contrário das vacinas vivas, a plataforma desenvolvida tem a capacidade de passar por uma única rodada de replicação do hospedeiro, o que significa que o vírus não consegue se espalhar.
O processo acontece quando o vírus modificado é colocado in vitro junto com a protease de TEV e passa por maturação em ambiente controlado. O objetivo da replicação é garantir uma resposta imune robusta e a presença de todas as proteínas virais. Isso é possível porque as partículas produzidas permanecem não infecciosas, servindo apenas como antígenos para estimular a produção de anticorpos.
“Ele [o vírus] sofre a maturação in vitro e infecta a célula uma vez. Mas é preciso lembrar que no genoma não tem mais a sequência da furina, então tudo que é produzido a partir dali vai ser imaturo”, destaca Esposito. Segundo ele, o grupo confia na segurança do trabalho.
“Se por acaso a gente tiver um inseto, um Aedes aegypti, picando e pegando esse vírus vacinal, ele também não vai ser maturado dentro do mosquito, e isso gera uma segurança de 100% [na vacina]” – Danillo Esposito
Nos testes foram utilizados camundongos, por serem vulneráveis a infecções virais e sucumbirem à doença rapidamente. “Utilizamos camundongos na nossa pesquisa justamente porque é bem relatado na literatura que para qualquer infecção viral, como dengue, chikungunya, eles não montam uma resposta imunológica contra a infecção”, completa.
Para medir a segurança da proposta vacinal, os animais trabalhados eram de idade precoce, com três semanas de vida. Neste estágio, o sistema imunológico ainda não está completamente formado, assim como em crianças, por exemplo. Segundo o pesquisador, isso traz maior segurança para que a vacina seja aplicada em todas as idades.
Durante os experimentos com os animais, os pesquisadores avaliaram, ao longo de 21 dias, como eles reagiriam à imunização com a vacina proposta, após serem infectados com o vírus selvagem (sem a mutação). O resultado foi a sobrevivência de 100% dos camundongos. Em comparação, todos os animais do grupo de controle que não receberam a vacina morreram em até três dias. A vacinação também reduziu a viremia e o edema da pata causado pelo CHIKV.
Foram aplicados ainda imunizantes formulados a partir de vírus sem a substituição. Segundo o pesquisador, eles também protegem os camundongos, mas não da mesma forma: a quantidade de anticorpos formados pelo vírus tratado foi cerca de nove vezes maior quando comparado com o não tratado.
De acordo com Esposito, tanto nos animais que são imunocomprometidos quanto em indivíduos mais jovens, houve 100% de proteção, “sem nenhum efeito adverso, nenhum desenvolvimento de doença”.