Emergência Climática: E nós com isso?
𝙁𝙚𝙧𝙣𝙖𝙣𝙙𝙤 𝙁𝙞𝙜𝙪𝙚𝙞𝙧𝙚𝙙𝙤 – Há anos caminho por essa agenda que chamamos hoje de sustentabilidade, muito antes de o termo “ESG” se popularizar. Minha história começou em 1994 quando, ainda um jovem empresário no setor de água mineral, participei de um almoço no PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais) para ouvir Fernando Henrique Cardoso, que era senador à época. Ali comecei a trilhar a minha jornada.
Já são 32 anos trabalhando pelo desenvolvimento sustentável em diversas frentes. Naquela época, o movimento se denominava Cidadania Corporativa, um espaço onde empresários e empresas pioneiras começaram a avançar em estudos e na construção da agenda como a vemos hoje. Ali percebi que o futuro do Brasil passava pela responsabilidade corporativa, pela ética empresarial e pela consciência e união do coletivo.
Ao longo dessa trajetória, trabalhei em empresas, ONGs e consultorias, atuei como professor, empreendi e aprendi, sempre movido pela convicção de que a coconstrução de novas realidades é coletiva e precisa do envolvimento de todos.
Nesta coluna, convido você a caminhar comigo nesta trilha — não para alarmar, mas para se informar, provocar reflexões e se engajar, se assim desejar! Para começar, deixo uma primeira pergunta: O que você faz hoje, na sua vida pessoal e profissional, pela agenda climática?
Meu trabalho com as mudanças climáticas começou formalmente em 2007, quando passei a colaborar com o CDP (Carbon Disclosure Project) no Brasil. Em 2012, a leitura do relatório do IPCC me sensibilizou profundamente pelo cenário que apresentava. Catorze anos depois, percebo que muitos daqueles cenários projetados para 2050 já começaram a se manifestar agora. Isso não é opinião: é ciência. É realidade. Por isso, considero-me um realista com informação.
Para explicar a razão de a coluna se chamar Emergência Climática, recorro à linguagem médica, que é direta e universal. Na medicina, trabalhamos com três conceitos fundamentais de atendimento: o Eletivo, a Urgência e a Emergência.
- Eletivo: No hospital, um caso eletivo é aquele que pode esperar. Uma cirurgia programada, uma consulta agendada; nada crítico. No clima, seria o equivalente a um mundo onde tivéssemos tempo para cuidar e planejar nossas ações com calma. Será que realmente estamos nesta situação e seguindo o caminho correto?
- Urgência: Exige atenção rápida. Não há risco imediato de morte, mas precisa de cuidado em poucas horas ou no dia seguinte. Olhando para as mudanças climáticas, podemos dizer que alguns países e cidades estão nesta situação: conhecem os problemas e possuem planos, mas ainda não atuam com a velocidade e a escala necessárias, correndo o risco de agravar a situação.
- Emergência: É outra coisa. Significa risco imediato à vida. Exige intervenção instantânea. É o sinal vermelho piscando. É o “faça agora, ou haverá consequências graves e fatais”.
É exatamente onde estamos: com o vermelho piscando enquanto vivenciamos as consequências, vendo os eventos climáticos extremos crescerem e recebendo alertas diários na mídia. E eu, você, nós… o que temos com isso?
Quando olho para o Brasil — com chuvas cada vez mais intensas, enchentes, desabamentos, secas severas e ondas de calor que transformam cidades e campos —, não vejo outro termo mais preciso para batizar esta coluna. Estamos na sala de Emergência Climática, mas ainda não demos a devida importância a essa situação.
Para corroborar, trago o Princípio da Precaução, que é autoexplicável. Na Governança Corporativa, existe um conceito que deveria guiar executivos e conselheiros na direção de suas empresas e que, na minha visão, serve de alerta para nós como cidadãos e governantes: Quando há risco potencial de dano grave, mesmo sem certeza científica absoluta, devemos agir imediatamente para proteger vidas, ecossistemas e o futuro das organizações no longo prazo.
É o oposto de esperar para “ter certeza”. É agir antes para não lamentar depois. Trata-se de um fundamento de responsabilidade coletiva e intergeracional. Se você estivesse diante de um risco grave para a sua família, esperaria a confirmação total do perigo ou agiria preventivamente? Por que, então, com o planeta, alguns preferem esperar o colapso?
Os impactos das mudanças climáticas não são iguais para todos, mas já afetam a todos! Talvez você ainda não tenha perdido a sua casa em uma enchente, mas certamente já ficou horas sem energia elétrica durante uma tempestade. Talvez a sua cidade ainda não tenha decretado estado de calamidade, mas bairros vizinhos já ficaram embaixo d’água. A crise climática não bate à porta de todos do mesmo jeito, mas ela já entrou no cotidiano de todos nós. Vamos esperar ou agir?
Esta coluna nasce para trazer informação, conhecimento e reflexão, ajudando pessoas de dentro e de fora da “bolha” a entender onde estamos, quais soluções temos disponíveis e como tomar decisões diárias alinhadas a esta agenda. Você quer ser espectador ou protagonista da transformação?
Sou um Líder da Realidade Climática pelo Climate Reality Brasil desde 2022, um movimento global criado por Al Gore que completa 20 anos formando lideranças pelo mundo. Vou contar essa história em detalhes na próxima coluna — ela inspira e mostra que temos esperança e soluções viáveis.
Para esta semana, deixo um convite: conheça o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026. Ele funciona como um espelho e uma foto atual de como cada estado brasileiro está lidando com riscos, adaptação e governança climática. Acesse, veja como o seu estado está agindo (ou deixando de agir) e entenda os desafios que temos pela frente em nossos biomas e cidades.
Boa leitura e reflexão.
Sites citados:

Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. É consultor na Thinker & Associados e diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, onde trabalha em projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática no país. Como Líder da Realidade Climática, atua também como professor, curador e empreendedor dedicado a traduzir a agenda climática para públicos além da bolha ambiental.
