O Brasil tem 12% de toda a água doce do planeta e está a perder rios, não por seca, por desmatamento
O Brasil detém cerca de 12 por cento de toda a água doce do planeta em reservas superficiais e subterrâneas — um recurso extraordinário que poucos outros países têm em escala comparável. E ainda assim cidades brasileiras enfrentam racionamento de água, rios históricos têm níveis mais baixos do que há cinquenta anos, e a seca se intensifica em regiões que eram abundantes em precipitação.

A explicação não é a escassez de água em si — é a perda das florestas que regulam o ciclo hídrico.
A mata ciliar, a vegetação que bordeja os rios e córregos, tem funções hidrológicas directas e documentadas: as raízes estabilizam as margens impedindo a erosão e o assoreamento, a sombra regula a temperatura da água, e a biomassa vegetal funciona como uma esponja que absorve a chuva intensa e liberta a água gradualmente para o rio ao longo de semanas e meses — transformando picos de cheia em caudal regular.
O Rio São Francisco, que atravessa o semiárido nordestino e é a principal fonte de água de milhões de pessoas, perdeu uma fracção muito significativa da mata ciliar ao longo das décadas. Os estudos hidrológicos mostram correlação directa entre esta perda e a redução do nível do rio ao longo do tempo — não por diminuição da precipitação total, mas por alteração do padrão hidrológico que a floresta regulava.
O fenómeno dos rios voadores amazónicos acrescenta outra dimensão: a Amazónia exporta vapor de água para o Sul e o Centro-Oeste do Brasil em volumes que alimentam precipitação nestas regiões. À medida que a floresta diminui, este transporte de humidade reduz-se — e as chuvas nas regiões agrícolas do Centro-Oeste tornam-se menos regulares.
O Brasil não tem um problema de quantidade de água. Tem um problema de destruição dos sistemas naturais que tornavam essa água acessível, regular e limpa.
