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Oceano é o primeiro a sentir os efeitos de um Super El Niño — e o impacto pode chegar à mesa; entenda

Oceano é o primeiro a sentir os efeitos de um Super El Niño — e o impacto pode chegar à mesa; entenda

Aquecimento anormal do Pacífico ameaça recifes de coral, altera a distribuição de peixes e coloca em risco a segurança alimentar e a renda de milhões de pessoas que dependem do mar, alertam especialistas do WRI

Quando se fala em El Niño, a imagem mais comum costuma ser a de secas, enchentes e ondas de calor. Mas o fenômeno começa muito antes de seus efeitos serem sentidos em terra: ele nasce no oceano. E, se as previsões de um possível “Super El Niño” se confirmarem, cientistas alertam que os primeiros impactos poderão atingir justamente os ecossistemas marinhos, comprometendo desde a pesca até a proteção natural das áreas costeiras.

Especialistas do World Resources Institute (WRI) afirmam que o fortalecimento do fenômeno pode provocar mudanças profundas na dinâmica dos oceanos em um momento em que eles já enfrentam temperaturas recordes devido às mudanças climáticas. Segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), há 81% de probabilidade de que o El Niño atinja a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro deste ano, o que pode torná-lo um dos mais intensos desde o início dos registros, em 1950.

“O El Niño começa no oceano, mas seus impactos rapidamente se espalham pelos ecossistemas marinhos, pelos meios de vida das comunidades costeiras e por toda a economia ligada ao mar”, afirmam Tom Pickerell, diretor global do Programa de Oceanos do WRI, e a pesquisadora Liz Saccoccia.

O WRI alerta ainda que um Super El Niño poderá intensificar as chamadas ondas de calor marinhas, períodos em que a temperatura da superfície do oceano permanece muito acima da média durante dias ou semanas.

Esses eventos se tornam especialmente preocupantes porque ocorrem sobre um oceano que já está mais quente devido ao aquecimento global. As temperaturas elevadas podem degradar pradarias marinhas e florestas de algas, aumentar o estresse e a incidência de doenças em sistemas de aquicultura e alterar a distribuição de plâncton, base da cadeia alimentar marinha.

Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais vulneráveis. Episódios anteriores de El Niño muito fortes, como os registrados em 1997-1998 e 2015-2016, estiveram associados a grandes eventos globais de branqueamento de corais, comprometendo habitats que sustentam a biodiversidade marinha, a pesca, o turismo e até a proteção natural do litoral contra tempestades e erosão.

Menos nutrientes, menos peixes

Um dos principais efeitos ocorre sobre um processo conhecido como ressurgência (ou upwelling), responsável por trazer águas frias e ricas em nutrientes das camadas mais profundas para a superfície do oceano. Durante episódios intensos de El Niño, esse mecanismo enfraquece. Como consequência, diminui a disponibilidade de alimento para diversas espécies marinhas, afetando algumas das pescarias mais produtivas do planeta.

O exemplo clássico é a anchoveta do Peru, considerada a maior pescaria do mundo. Em eventos fortes de El Niño, as populações do peixe diminuem ou migram para outras áreas, reduzindo as capturas e provocando impactos que vão da oferta global de pescado ao mercado de farinha de peixe, utilizada na alimentação animal. Espécies comerciais importantes, como o atum, também podem alterar sua distribuição, afetando comunidades que dependem diretamente da pesca para gerar renda e garantir a segurança alimentar.

Impactos vão além da biodiversidade

Segundo os pesquisadores, os efeitos sobre o oceano rapidamente chegam à economia. Milhões de pessoas dependem diretamente dos recursos marinhos para alimentação, emprego e geração de renda, especialmente em países costeiros e pequenas nações insulares.

Quando a produtividade pesqueira diminui ou espécies mudam de distribuição, toda a cadeia econômica é afetada — desde pescadores artesanais até indústrias de processamento, exportação e turismo.

“O impacto não é apenas ecológico. Esses choques afetam renda, nutrição, receitas governamentais e a resiliência das comunidades costeiras”, destacam os especialistas do WRI.

Embora o El Niño seja um fenômeno natural que ocorre a cada dois a sete anos, os especialistas afirmam que o contexto atual é diferente. Caso um Super El Niño se confirme, ele ocorrerá sobre um planeta significativamente mais quente. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, o que pode amplificar seus impactos. Além disso, sistemas alimentares globais já enfrentam pressões decorrentes de conflitos geopolíticos, aumento dos custos de energia e fertilizantes e eventos climáticos extremos.

Essa combinação pode tornar os efeitos sobre oceanos, pesca e produção de alimentos mais persistentes e severos do que em episódios anteriores.

Preparação é a melhor estratégia

Para o WRI, a vantagem é que o El Niño pode ser previsto com meses de antecedência, permitindo que governos e comunidades adotem medidas para reduzir os impactos. Entre as recomendações estão fortalecer sistemas de monitoramento oceânico, investir em gestão sustentável da pesca, ampliar a proteção de ecossistemas costeiros e desenvolver planos de adaptação para comunidades dependentes dos recursos marinhos.

Os pesquisadores destacam ainda que reduzir as emissões de gases de efeito estufa continua sendo a principal medida de longo prazo para evitar que fenômenos naturais como o El Niño produzam impactos cada vez mais intensos sobre os oceanos e sobre as populações que deles dependem.