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Seus relatórios de sustentabilidade ainda são uma lista de “pedidos de desculpas”?

Seus relatórios de sustentabilidade ainda são uma lista de “pedidos de desculpas”?

O convite que faço aos líderes empresariais é simples e desconfortável: olhem para seus relatórios de sustentabilidade. Se eles ainda parecem uma lista de “pedidos de desculpas” pelo impacto causado, vocês estão operando no passado

Se você abrir o último relatório de sustentabilidade da sua empresa e fizer uma leitura honesta, o que encontrará? Provavelmente uma contabilidade detalhada de danos: “emitimos X, mas compensamos Y”, “consumimos tanto de água, mas reduzimos Z em relação ao ano passado”. No fundo, boa parte do ESG praticado até aqui tem sido uma elegante e bem diagramada lista de pedidos de desculpas pelo impacto de existir.

Em 2026, a virada de chave deixou de ser apenas ética e passou a ser também tecnológica e estratégica. O mercado parou de perguntar “quanto você deixou de poluir?” para questionar: “quanto de capital natural a sua empresa devolveu ao sistema para garantir que seu negócio continue existindo amanhã?”

A diferença entre o ESG de 2022 e a estratégia de 2026 é a mesma que existe entre um seguro de carro e a manutenção da estrada. Mitigar danos é o mínimo; regenerar o ecossistema é o que garante a trafegabilidade. E, para essa regeneração, a inovação deixa de ser acessório para se tornar o motor decisivo.

Não se trata apenas de “plantar árvores”, mas de Soluções Baseadas na Natureza (NbS) aliadas a monitoramento via satélite, IoT e inteligência de dados. No Movimento Viva Água, da Fundação Boticário, vemos essa inovação de governança e campo em prática: uma mobilização múltipla de entidades públicas e privadas que transforma a realidade socioeconômica e ambiental de bacias hidrográficas. Aqui, a inovação está em desenhar modelos e projetos que garantam a segurança hídrica como um ativo estratégico e não como uma “ação de caridade” isolada.

Já no BlueRio, liderado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, o foco na Economia Azul e na inovação hídrica rompe com a lógica tradicional. Ali, a tecnologia serve para criar uma simbiose real com o ecossistema. Quando conectamos grandes empresas e entidades públicas a startups para focar em soluçōes com impacto na sustentabilidade ambiental e na saúde dos recursos hídricos, não estamos apenas limpando a água; estamos abrindo novas verticais de receita que eram invisíveis ao ESG reativo tradicional.

É a transição do custo ambiental para o Business Case Regenerativo. Empresas com visão de vanguarda tratam o meio ambiente e o tecido social não como “externalidades”, mas como parte do Core Business. A inovação aqui funciona como uma ferramenta de mitigação de risco, se o seu modelo de negócio depende de um ecossistema degradado, seu custo de capital será, inevitavelmente, mais alto. A inovação regenerativa é o que baixa esse prêmio de risco.

O convite que faço aos líderes empresariais é simples e desconfortável: olhem para seus relatórios de sustentabilidade. Se eles ainda parecem uma lista de “pedidos de desculpas” pelo impacto causado, vocês estão operando no passado.

A liderança moderna é a liderança de ecossistema. Não gerimos mais empresas em vácuos competitivos; gerimos nós de uma rede interdependente. Iniciativas como o Viva Água e o BlueRio são provas de conceito de que a inovação de ruptura acontece na interseção entre o público, o privado e o biológico. É possível — e necessário — ser o agente de restauração do sistema que nos sustenta.

No final das contas, a pergunta de um bilhão de reais em 2026 não é mais sobre conformidade. É sobre relevância vital. Através da inovação, sua empresa está ativamente construindo o futuro ou apenas ocupa espaço enquanto pede perdão?

*André Nunes é Partner & Managing Director da Beta-i Brasil