Ser otimista e organizado está associado com baixa probabilidade de demência na velhice

Ser otimista e organizado está associado com baixa probabilidade de demência na velhice

Por mais de duas décadas, estudo realizado na Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, avaliou participantes por meio de questionários que mensuravam três dos cinco grandes traços de personalidade

Uma pesquisa recém-publicada no Journal of Personality and Social Psychology associou certos traços de personalidade com uma baixa probabilidade de comprometimento cognitivo no final da vida. O estudo revelou que aqueles que sofrem com instabilidade emocional podem ser mais propensos a desenvolver quadros demenciais.

De acordo com a pesquisadora Silvia Merlin, especialista em Neurologia Cognitiva e do Comportamento pela Faculdade de Medicina (FM) da USP, o trabalho, que foi realizado por especialistas da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, buscou inferir como os “riscos relacionados à evolução cognitiva podem ser baseados em traços de personalidade”.

Silvia Merlin – Foto: Reprodução/YouTube

Para realizar essa avaliação, cientistas utilizaram os chamados “cinco grandes traços de personalidade”: Abertura, que é nossa capacidade de estarmos abertos a novas experiências; Agradabilidade, que mensura nosso nível de afeto; Conscienciosidade, nosso grau de organização e foco; Extroversão, que envolve nossa capacidade de sociabilidade; e Neuroticismo, que é como lidamos com nossas emoções. De acordo com Silvia, todos nós possuímos esses cinco traços, mas em “quantidades distintas de cada um, em proporções maiores e menores”.

Por meio de questionários, pesquisadores analisaram dados de 1.954 voluntários do Rush Memory and Aging Project, um estudo longitudinal de idosos que vivem na região metropolitana de Chicago e no nordeste de Illinois.

Todos aqueles sem um diagnóstico formal de demência foram recrutados em comunidades de aposentados, grupos religiosos e instalações de habitação para idosos subsidiados a partir de 1997 e continuando até o presente. Eles receberam uma avaliação de personalidade e concordaram com avaliações anuais de suas habilidades cognitivas. O estudo incluiu participantes que receberam pelo menos duas avaliações cognitivas anuais ou uma antes da morte.

“Esses questionários, que incluem um de 60 perguntas e um de 120 perguntas, checam como reagimos em cada situação”, explica Silvia. As perguntas medem, por exemplo, o grau de preocupação e importância atribuído a respeito de diferentes situações cotidianas. E, a partir deles, pesquisadores “conseguem criar um construto dos traços de personalidade dos avaliados”, esclarece.

Os participantes que pontuaram alto em conscienciosidade ou baixo em neuroticismo foram significativamente menos propensos a progredir de cognição normal para comprometimento cognitivo leve ao longo do estudo.

De acordo com a especialista, um estudo como esse “depende de várias estruturas. Tanto sociais, econômicas e individuais quanto genéticas”. Para ela, embora esse trabalho em particular tenha resultados limitados, principalmente porque foi feito com uma composição majoritariamente formada por mulheres brancas e altamente escolarizadas, pesquisas assim, com amostras mais diversas, podem nos ajudar a entender melhor como a nossa personalidade pode afetar nosso cérebro e nossa cognição.

Por meio de mais pesquisas sobre o assunto “vamos conseguir entender primeiro como nós funcionamos e depois como evitar certas situações”. A partir daí, através da mudança de comportamentos, podemos aprender como “preservar nossa reserva cognitiva, por exemplo”, finaliza.