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O desafio invisível por trás das emissões de carbono da indústria do cimento

O desafio invisível por trás das emissões de carbono da indústria do cimento

Demanda global por concreto pode chegar a 20 bilhões de m³ em 2050, enquanto indústria tem como meta alcançar emissões líquidas zero no mesmo período

Mesmo que uma fábrica de cimento utilizasse somente energia de fontes renováveis, grande parte de suas emissões de CO₂ continuaria existindo. Isso acontece porque o carbono não vem apenas da energia consumida, mas da própria química do processo de produção.

A jornada do cimento até o canteiro de obras começa na transformação do clínquer, seu principal componente. O processo de produção de clínquer exige que a rocha calcária, principal matéria prima, seja processada em um gradiente térmico severo, atingindo cerca de 1.450 °C. Durante essa transição se desencadeia as reações de calcinação e clinquerização, que inevitavelmente liberam dióxido de carbono na atmosfera. A magnitude desse impacto é o que dita os rumos da engenharia moderna. De acordo com a Global Cement and Concrete Association (GCCA), essas emissões de processo respondem por cerca de 60% do total associado à fabricação do cimento.

“Por isso, substituir combustíveis fósseis ou utilizar energia renovável é importante, mas não resolve sozinho o problema. Parte significativa das emissões está diretamente ligada à transformação da matéria-prima”, explica a engenheira Viviani Meneghin Magalhães, que atua há mais de 20 anos na indústria cimenteira.

A complexidade aumenta diante da importância do concreto para a sociedade. Considerado o material produzido pelo ser humano mais utilizado no mundo, ele soma aproximadamente 14 bilhões de m³ produzidos por ano e está presente em casas, hospitais, estradas, pontes, sistemas de saneamento e obras de infraestrutura.

“Não se trata simplesmente de deixar de produzir, mas de encontrar maneiras de atender às necessidades de habitação, urbanização e infraestrutura com um impacto ambiental cada vez menor”, afirma Viviani.

Cinco caminhos para um cimento com menos carbono

Segundo a especialista, a descarbonização do setor dependerá da combinação de diferentes estratégias:

  1. Reduzir o fator clínquer
    Diminuir a proporção de clínquer no cimento e substituí-lo parcialmente por outros materiais cimentícios como pozolanas, escórias, filler calcários, é uma das principais formas de reduzir as emissões sem comprometer o desempenho do produto. Assim se contribui para produção de cimentos com menor pegada de carbono.
  2. Ampliar o uso de matérias-primas alternativas
    A substituição de insumos tradicionais — como o calcário, a argila e os corretivos de ferro, sílica e alumínio — por materiais alternativos pré-descarbonatados reconfigura o futuro da construção. Ao reaproveitar resíduos que antes seriam descartados, a indústria não apenas reduz a extração de recursos naturais, mas também mitiga drasticamente as emissões de CO₂ em toda a cadeia produtiva. Trata-se de um duplo ganho ambiental: eliminamos o passivo do descarte urbano ou industrial e entregamos uma pegada de carbono significativamente menor para o planeta.
  3. Tornar os processos mais eficientes
    Modernização de equipamentos, otimização dos fornos, recuperação de calor e uso de combustíveis alternativos ajudam a reduzir o consumo de energia e as emissões da produção.
  4. Capturar o carbono
    As tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono, conhecidas pela sigla CCUS, são estratégicas porque permitem atuar sobre as emissões difíceis de eliminar, especialmente as geradas pela calcinação.
  5. Considerar todo o ciclo da construção
    Projetos que utilizem o concreto de maneira mais eficiente, estruturas mais duráveis, reciclagem e reaproveitamento de materiais também são fundamentais para reduzir o impacto da cadeia.

Para Viviani, um dos principais obstáculos é fazer com que soluções promissoras ultrapassem o ambiente de pesquisa e sejam incorporadas à produção em larga escala. “É preciso considerar a disponibilidade das matérias-primas, o desempenho dos produtos, as normas técnicas, os custos e a capacidade produtiva. Inovar no cimento não significa apenas encontrar uma solução tecnicamente melhor, mas conseguir aplicá-la na escala de que o mundo precisa”, ressalta.

A GCCA estabeleceu como objetivo alcançar emissões líquidas zero na indústria mundial de cimento e concreto até 2050. Para chegar lá, será necessário avançar simultaneamente em diferentes frentes. “Não existe uma única tecnologia capaz de resolver o problema. A transformação passa pela combinação de novos materiais, processos mais eficientes, captura de carbono e mudanças em toda a cadeia da construção. O desafio é continuar produzindo um material essencial para a sociedade, mas com uma pegada ambiental cada vez menor”, conclui.