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Além do El Niño: oceanos chegam a 100 dias de calor recorde

Além do El Niño: oceanos chegam a 100 dias de calor recorde

O Pacífico Equatorial está sob vigilância porque se aproxima um El Niño de categoria muito forte. Mas há outra linha nos gráficos climáticos que merece atenção: em 10 de setembro, a superfície dos oceanos deve completar 100 dias com temperaturas recordes.

O El Niño é uma oscilação natural do Pacífico: concentra águas excepcionalmente quentes no Pacífico Equatorial próximo à América do Sul e reorganiza a circulação da atmosfera, alterando padrões de chuva e temperatura em várias partes do planeta.

Desta vez, porém, o El Niño está se desenvolvendo sobre um oceano que já está excepcionalmente quente. Enquanto o fenômeno redistribui o calor dentro do sistema climático terrestre, a mudança climática eleva a quantidade de calor acumulada no sistema como um todo.

A sequência excepcional de 100 dias de temperatura recorde ganhou outro marco há poucas semanas, quando cientistas registraram, de forma preliminar, a maior temperatura média diária já observada na superfície dos oceanos — recorde que ainda aguarda confirmação.

Nesta quinta (10), às 10h (horário de Brasília), cientistas e especialistas em oceanos participam de uma coletiva virtual para discutir os dados mais recentes e o que esse período prolongado de calor significa para o clima global. Jornalistas podem se inscrever neste link para acompanhar o briefing – veja detalhes aqui.

 

El Niño fica quatro semanas sem subir, mas os impactos no Brasil continuam se agravando: o índice da NOAA marca +1,8°C desde 10 de agosto, o período mais longo sem variação desde que a escalada começou, em maio, e faltam 0,2°C para a faixa de “muito forte”. No mesmo intervalo, os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste caíram pela sexta semana seguida, o rio Branco chegou abaixo da mínima histórica em Boa Vista e a Amazônia passou a concentrar dois terços dos focos de fogo do país. O oceano leva de semanas a meses para transmitir o sinal ao continente.


 

Rio Branco fica abaixo da mínima histórica em Boa Vista e as onze estações recuam: o Serviço Geológico do Brasil classificou a cota de 118 cm como abaixo das mínimas registradas para o período. Boa Vista perdeu 18 cm na semana e está 130 cm abaixo do nível que tinha nesta data em 2016, o ano de mínima da estação. Em Caracaraí, a queda foi de 35 cm, com 189 cm de diferença para 1998. As maiores perdas da semana ficaram no Purus em Beruri, 110 cm, e no Solimões em Manacapuru, 99 cm. O Negro em Manaus caiu 94 cm e segue dentro da faixa de normalidade para a época.

 

Paraíba perde 3,1 pontos em uma semana e cai abaixo do Ceará: os açudes paraibanos foram de 50,4% para 47,3%, queda maior que a das três semanas anteriores somadas, quando o estado havia perdido 2,9 pontos. O Nordeste fechou em 48,6%, segunda semana abaixo de 50%, com recuo nos seis estados monitorados. No Sudeste/Centro-Oeste, o maior subsistema elétrico do país está em 57,1%, sexta perda consecutiva, embora o ritmo tenha caído para 0,9 ponto contra 1,6 na semana anterior. São 6,1 pontos em seis semanas, e a recuperação dos reservatórios só começa com as chuvas de novembro e dezembro.


Agosto foi mais quente que a média em todo o país, exceto no Rio Grande do Sul: o maior desvio ficou no Mato Grosso, acima de 3°C. O Rio Grande do Sul apareceu na média ou pouco abaixo dela, e foi também onde mais choveu: o extremo sul do estado acumulou mais de 200 mm acima do normal. Em julho o Sul inteiro estava entre +1,5 e +3°C, o que torna a virada gaúcha o dado novo do mês. Roraima, Amapá e o norte do Pará tiveram o maior déficit de chuva do país, na mesma região onde os rios já estão abaixo do ano de mínima histórica.


 

Amazônia concentra 64% dos focos na primeira semana de setembro: foram 4.198 focos no país entre 1º e 7 de setembro, 31% menos que no mesmo intervalo de 2025, e a diferença do acumulado do ano aumentou de 3,3% para 6,4%. A participação da Amazônia era de 33% um ano atrás, e o Amazonas passou a liderar entre os estados, à frente do Pará. No acumulado de 2026 a floresta está 27% acima de 2025 e o Cerrado está 23% abaixo. O fogo que deixou de queimar no Cerrado está queimando na Amazônia.

 

 

Desalojados e desabrigados no ano sobem 59% e chegam a 522,6 mil: eram 329,2 mil no mesmo intervalo de 2025. O número de afetados foi na direção contrária e caiu de 24,1 milhões para 18,3 milhões, porque a seca atinge muita gente sem tirá-la de casa e a tempestade faz o oposto. Setembro começou tranquilo nesse aspecto, com 78 pessoas fora de casa em seis municípios, enquanto a estiagem seguiu avançando: mais 17 municípios em sete estados tiveram decreto reconhecido pelo governo federal entre 1º e 3 de setembro.