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WWF-Brasil celebra 30 anos de atuação na Mata Atlântica

WWF-Brasil celebra 30 anos de atuação na Mata Atlântica

No dia da Mata Atlântica, a organização recorda três décadas de programas focados na conservação e, principalmente, na restauração do bioma

A história do WWF-Brasil começa na Mata Atlântica. Isso porque, antes mesmo de se estabelecer no país em 1996, a rede WWF já atuava no bioma por meio de sua filial norte-americana. Nos anos 1970, com a população de mico-leão-dourado minguando e criticamente ameaçada, ambientalistas brasileiros e estrangeiros se organizavam para proteger a espécie, que chegou a ser classificada como criticamente ameaçada, na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). A causa atraiu a atenção do WWF-EUA que logo se juntou ao movimento de proteção à espécie endêmica do Rio de Janeiro (leia mais no box abaixo).

Do mico às Onças do Iguaçu, outro projeto apoiado pela organização, muita coisa aconteceu e, há trinta anos, a história do WWF-Brasil e a do bioma estão entrelaçadas. Afinal, a Mata Atlântica, gigante e desafiadora, é um grande laboratório para a conservação nacional: está presente em três países e em 17 estados brasileiros. É onde vive a maioria da população do país, e onde se produz boa parte de commodities como o café.

“O que o WWF-Brasil faz na Mata Atlântica vira referência e é levado para outros biomas”, explica Daniel Venturi, especialista em conservação e líder de estratégia em Mata Atlântica do WWF-Brasil.

A cronologia da atuação da organização dentro da Mata Atlântica pode ser dividida em dois grandes blocos: de 1996 até 2018, e de 2018 até hoje. “No começo, havia o Programa Mata Atlântica, que foi reunindo diversos programas pontuais em diferentes paisagens”, explica o especialista em restauração. “Éramos mais uma incubadora de projetos”.

A partir de 2018, passa-se a ter um olhar sistêmico, que abraça a biodiversidade, a restauração e as áreas protegidas de forma integrada, escalando as ações por meio de inovação e investimento financeiro – trazendo as empresas para a conversa e fazendo da conservação um negócio em si.

“Hoje a grande questão da Mata Atlântica é a sua fragmentação, então ela precisa ser reconectada para garantir que continue prestando serviços ecossistêmicos para essa imensa população que nela vive”, explica Daniel, que representa o WWF-Brasil na coordenação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica. Criado em 2009, o Pacto tem um papel estratégico na articulação da agenda de restauração do bioma, reunindo organizações da sociedade civil, instituições de pesquisa, setor privado, governos e iniciativas locais em torno de um objetivo comum.

“Além da atuação na coordenação, o WWF-Brasil participa ativamente das instâncias do movimento, como forças-tarefa, grupos de trabalho e conselho, apoiando discussões estratégicas, incidência política e ações territoriais”, destaca Ana Paula Silva, secretária executiva do Pacto. “A participação do WWF-Brasil agrega uma visão ampla sobre conservação, paisagens e políticas públicas, contribuindo para ampliar o alcance e a incidência do movimento em nível regional e nacional”.

Graças ao trabalho realizado pelo Pacto, e pela Rede Trinacional de Restauração da Mata Atlântica (em parceria com Paraguai e Argentina), o bioma é considerado desde 2022 um exemplo de restauração mundial quando recebeu pela ONU (Organização das Nações Unidas) o título de Referência da Restauração Mundial (“flagship” em inglês) da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas.

Do zoo para casa

O mico-leão-dourado é endêmico de um lugar muito específico da Mata Atlântica, nas florestas de baixada nos arredores da bacia do rio São João, região dos Lagos e da baixada litorânea fluminense. Daí sua raridade e razão pela qual ele quase desapareceu da natureza. Luiz Paulo Ferraz, secretário executivo da Associação Mico-Leão-Dourado (AMLD) há onze anos, conta que entre 1986 e começo dos anos 2000, a principal ação do projeto foi levar micos que viviam em zoológicos de todo o mundo de volta para casa. A ação foi o que fez a espécie passar de criticamente ameaçada de extinção para ameaçada.

Entre as principais ameaças do entorno da “casa dos micos” estão a proximidade com o Rio de Janeiro e com a bacia petrolífera de Campos. “A situação melhorou muito, mas as ameaças sempre voltam, como o tráfico de animais, que pensávamos ter acabado por aqui. Mas, sabemos: trabalhar com conservação é para sempre”, finaliza Luiz.

Aprender a restaurar

Em 2010, em parceria com o Banco do Brasil, foi criado o Programa Água Brasil em sete bacias hidrográficas do país, com três frentes de atuação: segurança hídrica, segurança alimentar e boas práticas e restauração florestal. Das sete bacias, duas estavam na Mata Atlântica, no interior de São Paulo – uma delas no sistema Cantareira, que abastece a capital paulista.

A primeira fase do programa se encerrou em 2015 e deixou um legado de aprendizado em várias frentes, inclusive na restauração. “Dá para dizer que é nesse momento que começam as ações de restauração do WWF-Brasil”, diz Leda Tavares, especialista em conservação que está há 13 anos na organização.

Com o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, o maior desastre ambiental brasileiro, vem o grande aprendizado: a Fundação Renova fecha uma parceria com o WWF-Brasil para recuperar as áreas atingidas, trabalho que foi de 2018 a 2025.

“Ali a gente aprende a restaurar em larga escala: 40 mil hectares no total. Antes, o máximo tinha sido 300 hectares”, conta Leda. “E o estivemos juntos na governança, mobilizando os produtores, criando sistemas de acompanhamento, todo um grande laboratório”. A organização só não se envolveu diretamente na restauração em campo, prerrogativa que era da Renova.

Hoje, já dentro do novo conceito de atuações mais integradas, Leda acompanha diversos projetos em frentes de restauração do bioma. Entre eles, há um na Serra da Mantiqueira e outro no Espírito Santo, onde há uma parceria com o governo do estado, com ações para fortalecer o programa Reflorestar.

“Não são paisagens perfeitas, mas campos de aprendizagens que usamos para buscar financiamento e políticas públicas. São vitrines de conservação, laboratórios onde conhecemos, aprendemos, ensinamos e replicamos o que deu certo”, conclui Leda.

Papo de onça

Felipe Feliciani, há nove anos no WWF-Brasil, e Yara Barros, coordenadora do Onças do Iguaçu desde 2018, formam uma boa dupla quando o papo é onça. Defensores ferrenhos do felino, não perdem uma oportunidade de falar sobre a grande missão que eles têm em mãos: salvar a onça-pintada. Quando Felipe chegou na organização, já existia a parceria com o Projeto Onças do Iguaçu, do Instituto Pró-carnívoros (que antes se chamava Carnívoros do Iguaçu), mas a atuação cresceu a partir de então.

Em 2018, houve uma captação trinacional, em parceria com Argentina e Paraguai (afinal, não há fronteiras para as onças), para o projeto Saving the Jaguar, que se encerrou em 2024. O projeto foi fundamental para o Onças do Iguaçu quando, na pandemia, outros financiadores foram embora.

“Foi o WWF-Brasil que nos ajudou a construir o projeto como ele é hoje, com a estrutura física e as frentes de trabalho”, conta Yara Barros, bióloga que já ganhou dois prêmios importantes por seu trabalho com as onças, incluindo o Whitley, o “Oscar Verde” da conservação ambiental.

O Onças do Iguaçu trabalha com pesquisa, monitorando os animais no Parque do Iguaçu e em dez municípios que fazem fronteira com ele; com engajamento, conectando as pessoas aos animais (“queremos trocar o medo pelo encantamento”, diz Yara), e com a coexistência, por meio de ações que tornem a convivência homem-onça mais harmônica.

A recuperação da população de onças-pintadas no entorno do Parque Nacional do Iguaçu é resultado de anos de trabalho conjunto entre o Projeto Onças do Iguaçu e o WWF-Brasil, unindo pesquisa, monitoramento, engajamento comunitário e estratégias de coexistência entre pessoas e fauna silvestre. Foto: Emílio White / Projeto Onças do Iguaçu

Nesta última frente está um dos grandes trunfos do projeto: o atendimento a 100% das ocorrências, 24 horas por dia, sete dias por semana. “Toda vez que algum proprietário rural chama o projeto, atendemos imediatamente porque, se não formos, eles matam as onças, como se fazia no passado”, explica Yara.

Além do pronto atendimento, existe uma equipe do projeto que atua em campo, visitando as propriedades rurais em torno do Parque, para falar sobre o trabalho que fazem e explicar a importância da onça como uma prestadora de serviços ecossistêmicos.

Tais protocolos fizeram com que os proprietários rurais da região se tornassem mais amigáveis ao grande felino. “O Onças traz muita história bonita, como a do proprietário que já quis, no passado, ser ressarcido por um ataque a um animal que ele tinha, e hoje é um dos nossos maiores aliados: até criou negócios em cima do tema onça e passou a viver do turismo”, conta Felipe.

Da uma dezena de onças que existiam entre os anos 1990 e 2000 na região, agora o projeto conta em torno de 30. “Pode parecer pouco, mas considerando que é um animal que não se reproduz em larga escala e demora a se reproduzir, é um resultado impactante”, diz o especialista em onças do WWF-Brasil. Hoje, muitas das práticas criadas ali estão sendo levadas para outros biomas onde o felino vive, como Pantanal e Amazônia, e até para outros países da América Latina.

Você sabia?

A meta de restauração do WWF-Brasil é a mesma do governo brasileiro estabelecida em 2015 por meio de sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) no Acordo de Paris: 12 milhões de hectares até 2030, sendo 1,5 milhão na Mata Atlântica.

Conexão com a natureza

Quando Anna Carolina Lobo entrou para o time do WWF-Brasil, em 2013, para estruturar o Programa Mata Atlântica, o desafio era significativo: havia recursos garantidos apenas para os dois primeiros anos da coordenação e uma equipe bastante enxuta. Nesse contexto, o trabalho envolveu não apenas integrar iniciativas ainda fragmentadas, mas também estruturar gradualmente uma estratégia territorial mais conectada, articulando conservação, mobilização social e inovação.

Com experiência prévia na Fundação Florestal do Estado de São Paulo, Anna Carolina acompanhou a parceria com o WWF-Brasil, entre 2008 – 2011, em projetos ligados à criação e implementação de Unidades de Conservação, incluindo a criação do Parque Estadual Restinga de Bertioga, e de outras metodologias pioneiras de uso público, como manejo de trilhas, monitoramento dos impactos da visitação, observação de aves e metodologias de implementação de trilhas, muitas delas ainda hoje utilizadas como referência em áreas protegidas brasileiras.

“No começo percebemos que existia uma desconexão profunda entre a população urbana e a Mata Atlântica. As pessoas viviam dentro do bioma, mas não se reconheciam como parte dele”, conta.

Foi nesse contexto que nasceu o movimento Borandá, incubado em parceria com uma organização internacional voltada à criação de movimentos sociais (1ª captação advinda de um fundo de inovação). A iniciativa buscava compreender e reconstruir a relação emocional das pessoas com a Mata Atlântica, a partir de pesquisas sobre pertencimento e conexão com a natureza.

Das respostas como “preciso desestressar” e “preciso me conectar com o verde” veio a percepção do chamado déficit de natureza na vida das pessoas. E, disso, nasceu o movimento, que leva grupos para conhecer trilhas em Unidades de Conservação (UCs). “Começamos a trazer a Mata Atlântica para a vida das pessoas e as pessoas para o coração da Mata”, diz.

Desse movimento nasceu ainda a concretização de um projeto que já vinha sendo sonhado por trilheiros do Rio de Janeiro, o Caminho da Mata Atlântica, maior trilha de longo percurso da América Latina, que liga o Parque Nacional dos Aparados da Serra, no extremo sul do Rio Grande do Sul, ao Parque Estadual do Desengano, no norte do Rio de Janeiro. No total, são 4.370 quilômetros (km) de trilhas e estradas.

“O WWF-Brasil foi fundamental nesse projeto porque, quando o caminho era só uma ideia, foi a organização que incubou e patrocinou os primeiros encontros, eventos, planejamento”, conta Chico Schnoor, atual coordenador da Comissão de Governança do Caminho da Mata Atlântica, que hoje, estruturada como uma ONG, trabalha nas frentes de restauração, educação ambiental e fortalecimento de redes agroecológicas em diversos trechos do percurso.

Até maio de 2026, o Caminho já tinha 93 hectares restaurados, 600 hectares em processo de restauração, 900 km sinalizados, seis roteiros de turismo de base comunitária, mais de 600 parceiros cadastrados, entre pousadas, restaurantes, negócios —e mais de seis mil voluntários. Até hoje, apenas uma pessoa fez o Caminho todo, a argentina Julieta Santamaria, em 195 dias. E duas pessoas o fizeram de bicicleta. A maioria elege pequenos trechos para fazer.

O Parque Nacional do Iguaçu é uma das Unidades de Conservação encontradas na Mata Atlântica. Foto: Michel Gunther / WWF

Outro legado importante desse período foi o primeiro projeto financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) voltado à atuação binacional entre Brasil e Argentina na região do Iguaçu. O projeto fortaleceu a integração entre os Parques Nacionais do Iguaçu nos dois países, fortalecendo as cadeias produtivas do turismo, valorizando produtores locais para além da cidade de Foz do Iguaçu, ampliando a visão territorial da conservação na paisagem trinacional.

Entre os resultados do processo esteve a construção do primeiro Memorando de Entendimento (MOU) entre parques nacionais situados em regiões de fronteira no Brasil e Argentina, criando bases institucionais inéditas para cooperação em conservação e uso público. A iniciativa também ajudou a abrir caminho para projetos posteriores de grande escala, como os programas trinacionais voltados à conservação da onça-pintada.

A estratégia ajudou a consolidar uma nova frente de atuação do WWF-Brasil ligada à valorização das áreas protegidas por meio do uso público, turismo de natureza e conexão entre pessoas e biodiversidade – abordagem que mais tarde se expandiria para outros biomas do país.

Nos últimos anos, Anna Carolina passou a liderar as estratégias de Inovação e Valorização de Áreas Protegidas por meio do Uso Público, promovendo a incubação de soluções inovadoras nas APs do sul da Bahia, por meio da metodologia “Parques Design”, feita de forma colaborativa com comunidades, gestores e atores locais. Foram criados roteiros integrados que promovem experiencias transformadoras em oito UCs do sul baiano, a exemplo do roteiro A Grande Mata Ancestral, que conecta três grandes parques nacionais da região (Pau Brasil, Monte Pascoal e do Descobrimento) e a Rota das Marés, em parceria com o AirBnb, com roteiros em Reservas Extrativistas e Parques Marinhos, em vilarejos praianos mais rústicos. O modelo, bem-sucedido, também está sendo levado para a região do rio Tapajós, na Amazônia. Como diz Daniel Venturi, é a Mata Atlântica sendo o laboratório da conservação brasileira.

Linha do tempo

  • 1971 – Primeiro ano do projeto focado na conservação do Mico-Leão-Dourado, com participação do WWF-EUA
  • 1996 – Criação do WWF-Brasil
  • 2006 – Aprovada a Lei da Mata Atlântica
  • 2009 – Criação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica
  • 2022 – Mata Atlântica passa a ser considerada um flagship, ou seja, uma referência mundial de conservação
  • 2026 – 30 anos do WWF-Brasil, que tem na Mata Atlântica seu bioma pioneiro no Brasil