Tempo escuro

Tempo escuro
Com todas as veras de minh´alma eu vos digo, meu único e desatento leitor: nenhum gesto de extrema brutalidade que a mídia apresente todos os dias me emociona mais. A violência é resultado do laissez-faire e do vale-tudo que trituraram nossa sociedade.

Adotamos a ética da mais absoluta falta de ética. A Lei de Gérson jamais foi revogada. Deletamos da nossa cabeça, numa boa, sem nenhum remorso, todos os valores essencialmente humanos.

A transgressão do herói sem causa ganhou o curioso apelido de “adrenalina”. A sacanagem e as maluquices dos “influencers”, “famosos” e “celebridades” são copiadas até pelas meninas do interior, que hoje só têm olhos para o Big Brother. Abandonamos a filosofia que
J. Edward Neill

“serena as tempestades da alma” para embarcar na lábia de religiosos de todo gênero.

Para falar desse tempo escuro, não precisa gastar muito verbo. Basta escutar, mesmo que compulsoriamente, a trilha sonora do ambiente em que a gente vive, coisa tão chocante quanto onipresente, curtida a mil decibéis por criaturas que mais parecem robôs.​​

Substituímos a cultura da delicadeza pela cultura da brutalidade mais primitiva (já se usa arco, flecha e machado nos ataques). Tangemos, em nome do lucro fácil, nossos meninos e meninas para o besteirol e para uma vida repleta de prazeres momentâneos. Depois ficamos chocados com a carnificina que invade a mídia. Então organizamos marchas pela paz, campanhas contra as drogas, e cobramos mais polícia nas ruas e redução da maioridade penal para 16 anos.

Vem cá, o que se pode esperar de uma sociedade de castas travestida de democracia participativa, extremamente desequilibrada, onde a corrupção mais engenhosa espalha seus malefícios e a imensa maioria da população vive (e mora) muito mal? Tudo. Tudo e mais alguma coisa.

J. Edward Neill

O que existe de grave nessa história toda é o seguinte: não aparece, por mais tênue que seja, uma luzinha no final do túnel. Nada. A violência é a prática normal dos letrados e iletrados, ricos e pobres, homens e mulheres, jovens e velhos. Parece não haver salvação fora da violência. Entramos de cara na barbárie.

O perigo maior é uma sociedade em tudo parecida com o Velho Oeste do Século 19, utilizando largamente a tecnologia da informação e se considerando aboletada no primeiríssimo mundo.

Como diria a estátua da praça: sem comentários.