Herbicida mais usado no mundo prejudica o cérebro de abelhas, sugere estudo
Exposição ao glifosato pode provocar mudanças no comportamento e na química cerebral desses insetos, comprometendo a polinização e a sobrevivência das colônias
O glifosato, herbicida mais utilizado no mundo, pode alterar o funcionamento do cérebro das abelhas, reduzir sua capacidade de buscar alimento e colocar em risco a estabilidade das colônias a longo prazo. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos, e publicado na última quinta-feira (6) no Journal of Experimental Biology.
As abelhas frequentemente entram em contato com o glifosato ao visitarem flores próximas de áreas agrícolas, jardins e outros locais onde o agrotóxico é aplicado para controlar ervas daninhas. Embora a substância não provoque a morte imediata desses insetos, acredita-se que ela possa causar efeitos menos evidentes, mas prejudiciais ao seu comportamento.
Queda na busca por alimento
Para avaliar os efeitos do glifosato, os pesquisadores criaram duas estações artificiais de alimentação para abelhas. Uma delas continha o herbicida e a outra serviu como grupo de comparação, sem a substância.
Durante vários dias, a equipe acompanhou o comportamento dos insetos. Após apenas três dias de exposição, as abelhas que tiveram contato com o glifosato reduziram em 13% a atividade de coleta de néctar e pólen.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2026/9/v/9f8ZgLSXqx98EuDM3T5A/laura-mchenry-observes-bees.jpeg)
Embora esse percentual possa parecer pequeno quando observado em um único inseto, o impacto é significativo para toda a colmeia. Menos viagens em busca de alimento significam menor entrada de recursos na colônia, o que pode reduzir a produção de mel e diminuir a polinização das plantas.
“Uma redução de 13% na busca por alimento pode ser significativa para uma colônia”, explica Margaret Couvillon, coautora do projeto, em comunicado à imprensa. “Se toda a colônia fosse exposta, isso poderia levar a uma diminuição da eficácia da polinização e à redução da produção de mel, colocando em risco a sobrevivência e sua estabilidade a longo prazo.”
Mudança no cérebro das abelhas
Além do comportamento, os cientistas analisaram a química cerebral dos insetos. Eles encontraram alterações em substâncias como aminoácidos e neurotransmissores.
Os neurotransmissores são moléculas responsáveis por transmitir informações entre as células nervosas e desempenham papel fundamental no controle de comportamentos, como a capacidade de localizar alimento. Já os aminoácidos são compostos que participam de diversos processos do organismo, incluindo o funcionamento do sistema nervoso.
Segundo os pesquisadores, as alterações observadas sugerem que o glifosato interfere no equilíbrio químico do cérebro das abelhas, tornando-as menos eficientes durante a busca por alimento, mesmo sem provocar sua morte.
Preocupação com o glifosato
O glifosato é o ingrediente ativo presente em diversos herbicidas utilizados na agricultura e no paisagismo. Sua função é eliminar ervas daninhas ao bloquear uma enzima essencial para a fotossíntese — processo pelo qual as plantas produzem energia utilizando a luz solar.
Como as abelhas não possuem essa enzima, durante muitos anos acreditou-se que o produto não representava risco direto para esses insetos. O novo estudo, porém, indica que a ausência desse mecanismo não impede que ocorram efeitos indiretos sobre o cérebro e o comportamento.
A equipe compara esse tipo de impacto aos efeitos colaterais de um antialérgico: o medicamento cumpre sua função, mas pode causar sonolência. Da mesma forma, o glifosato não mata as abelhas imediatamente, mas pode comprometer o seu desempenho.
Por isso, os autores reforçam a necessidade de aperfeiçoar as estratégias de aplicação de herbicidas em áreas frequentadas por polinizadores, além de ampliar as pesquisas sobre os efeitos dessas substâncias em condições reais. “Compreender como os herbicidas afetam insetos benéficos, como os polinizadores, nos ajudará a fazer escolhas regulatórias mais estratégicas sobre quando e onde usá-los para obter o máximo benefício e o mínimo dano”, observa Laura McHenry, autora principal do estudo.
