Bens comuns globais: dos Oceanos à Amazônia, um caminho para cuidar do que é de Todos – Artigo 18
Nesta coluna, trago um movimento que nasceu em 2025, com uma proposta ousada para enfrentar as mudanças climáticas e outras agendas urgentes: o Global Commons, que defende uma governança diferenciada para os bens comuns globais.
por Fernando Figueiredo – Emergência Climática: E nós com isso?
Por trás do movimento há uma pessoa que ajuda a explicar sua dimensão: Jonah Wittkamper, chair do Global Commons Fund. Ele é um articulador, alguém que construiu sua trajetória conectando capital e causas. Wittkamper cofundou a NEXUS em 2011, uma das maiores redes mundiais de filantropia jovem, e fundou a Amazon Investor Coalition em 2020, uma coalizão de investidores e filantropos dedicada à proteção da Amazônia.
O movimento parte do pressuposto de que não dá para esperar que os Estados resolvam sozinhos os problemas que nenhum país conseguirá resolver. Sua proposta é usar o sistema financeiro – bancos, transações, consumo – como engrenagem para a boa governança dos bens comuns.
Os problemas mais graves do nosso tempo ultrapassam fronteiras, e nossas instituições foram construídas com base em outra realidade. As mudanças climáticas, o desmatamento da Amazônia, a poluição dos oceanos, as pandemias, a desigualdade: nenhum desses temas se limita em uma linha divisória do mapa. No entanto, seguimos tratando o planeta como uma soma de países e caixinhas setoriais, cada um cuidando do seu “quintal” enquanto o espaço comum se deteriora. Tudo está interligado!
Foi para enfrentar essa contradição que o Global Commons avançou com uma ideia simples e ambiciosa: existe um conjunto de bens que pertencem a toda a humanidade: a atmosfera, o clima, os oceanos, as florestas tropicais, o ciclo global da água. Há também temas sensíveis que afetam a vida de muitas pessoas no Brasil e no mundo: pandemias, internet, inteligência artificial, desigualdade, corrupção e crimes financeiros.
Ninguém possui esses bens e os temas sensíveis, mas todos, de uma forma ou de outra, somos afetados por eles. Chamamos esses recursos de bens comuns globais, e o movimento que leva esse nome propõe algo inédito: dar a eles uma governança à altura do cuidado, responsabilidade e respeito que precisamos ter com todos os temas, além de conversarem com os ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.
O diagnóstico é conhecido. O sistema multilateral atual, incluindo a ONU, foi criado para outro mundo e vem entregando resultados lentos, fragmentados e pouco representativos diante da chamada “policrise”, essa sobreposição de crises ambientais, econômicas e políticas que temos visto acontecer aqui e em muitos outros países ao mesmo tempo.
Os acordos climáticos internacionais, do Protocolo de Kyoto de 1997 ao Acordo de Paris em 2015, que foram passos importantes, mas insuficientes: os compromissos não são vinculantes, a implementação fica aquém das metas e os países mais vulneráveis seguem arcando com custos desproporcionais de um problema que não criaram sozinhos.
Enquanto isso, as florestas tropicais e os oceanos, que sustentam a vida no planeta, continuam sendo tratados como patrimônio a ser explorado, não como sistema ecológico global a ser protegido e regenerado.𝗙𝗲𝗿𝗻𝗮𝗻𝗱𝗼 𝗙𝗶𝗴𝘂𝗲𝗶𝗿𝗲𝗱𝗼
É aqui que a proposta se diferencia. Em vez de depender apenas de orçamentos públicos instáveis, de acordos que demoram décadas e às vezes não saem do papel, e da boa vontade pontual da filantropia, o Global Commons propõe transformar o sistema financeiro em um parceiro da boa governança.
Bancos passariam a oferecer produtos conectados a padrões ambientais: transações ligadas a atividades poluentes teriam tratamento diferenciado daquelas de caráter regenerativo e sustentável. Essa receita alimentaria um fundo dedicado, o Global Commons Fund, em que transações do dia a dia financiariam a proteção do planeta e de temas que hoje parecem distantes de solução, como clima, paz, proteção ambiental e oceanos.
Há, ainda, um desdobramento mais ousado. Diante das limitações do sistema multilateral criado em meados do século XX. Wittkamper propõe transferir a governança dos bens comuns dos Estados hegemônicos para uma democracia mundial: dar a cada novo correntista dos bancos participantes um voto em processos democráticos ainda em construção, apoiados por novas tecnologias e reunindo pessoas da sociedade civil, de empresas, academia, dos povos indígenas e governos.
Com a ciência, a tecnologia e o pluralismo de hoje, temos as ferramentas para criar formas de decisão coletiva e com boa governança que superem os impasses do passado e construam uma visão do que é estratégico, importante cuidar e regenerar
Para o Brasil, essa agenda é uma realidade, tem nome, território e gente. A Amazônia é um dos eixos centrais, e nosso país saiu da COP30, que sediou em 2025, como palco natural dessa discussão. E essa iniciativa já está em movimento por aqui.
Mais do que isso: o Brasil precisa caminhar e amadurecer em sua cultura de doação e engajamento com causas. Somos um povo generoso, temos muitas ações e organizações exemplares em nosso país, mas a filantropia ainda é tímida, pontual e concentrada, e o financiamento da proteção ambiental depende demais de orçamentos públicos e de grandes doadores.
A ideia de um fundo permanente, alimentado por pequenas contribuições cotidianas, inclusive de empresas que querem ver sua marca ligada ao futuro, não ao passado, pode mudar esse jogo e criar um fluxo contínuo de recursos que vão apoiar temas estratégicos para nosso País e para o Planeta. Com comunidades que conservam a floresta, fiscalização independente dos oceanos, recursos à ciência, para quem acompanha e pressiona governos a cumprir metas dentre outras ações importantes para o bem comum da sociedade e dos Global Commons.
Por isso o chamado é individual antes de ser institucional. Nenhuma reforma da ONU, nenhuma corte ambiental internacional, por mais necessárias que sejam, funcionará sem cidadãos dispostos a se enxergar e a agir como parte do problema e da solução.
Engajar-se pode começar de formas pequenas: apoiar organizações que atuam na conservação, cobrar transparência de governos, bancos e empresas, doar regularmente, cobrar de quem decide. Quando cada um de nós entende que o cartão, o consumo e o voto são ferramentas de governança, o “bem comum” deixa de ser expressão vaga e vira prática de conservação e regeneração.
Um futuro em que o dinheiro circula e, ao circular, protege o clima, os oceanos e as florestas; em que cidadãos participam de decisões que afetam a todos; em que o Brasil, com suas florestas e sua diversidade, lidera um novo modelo de desenvolvimento sustentável. Você pode estar pensando que esse futuro é uma utopia! … Na verdade, ele é uma escolha! E podemos seguir essa trilha.
A boa notícia é que ela pode começar agora, com cada um de nós, nas escolhas do nosso dia a dia: em quem votamos, o que consumimos, no que doamos e, principalmente, no que decidimos cuidar.
Os bens comuns são de todos, e o compromisso de cuidar deles, também.
Boa leitura e reflexão!
Referências e organizações citadas
White Paper on the Global Commons
White-Paper-on-Global-Commons-Philanthropy-February-9-2026.pdf
Who Will Govern The Global Commons?
Who Will Govern the Global Commons? https://www.proximate.press/latest-stories/who-will-govern-the-global-commons
Johan Wittkamper of the Global Governance Philanthropy Network
https://ggpnetwork.org/advisors/#jonah
NEXUS
Sobre | NEXUS https://nexusglobal.org/about/
Amazon Investor Coalition
Sobre – Coalizão de Investidores da Amazônia (floresta tropical) https://amazoninvestor.org/about/
ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável | As Nações Unidas no Brasil https://brasil.un.org/pt-br/sdgs

Fernando Eliezer Figueiredo atua há mais de 30 anos em sustentabilidade, clima e desenvolvimento sustentável. Teve passagens marcantes como diretor do CDP na América Latina, head de Sustentabilidade da Schneider Electric Brasil e presidente da Câmara de Energia e Clima do CEBDS. Atualmente é consultor na Thinker & Associados, diretor de conteúdos de sustentabilidade na Miração Filmes, professor, curador e empreendedor. Como Líder da Realidade Climática, dedica-se a projetos estratégicos, educativos e audiovisuais para ampliar a consciência climática e traduzir essa agenda para públicos além da “bolha” da sustentabilidade.
