FOTOS: Conheça as espécies de aves ameaçadas de extinção em Florianópolis

FOTOS: Conheça as espécies de aves ameaçadas de extinção em Florianópolis

Iniciativa instalou “armadilhas fotográficas” em florestas da Capital e documentou pela primeira vez espécie rara e ameaçada; confira a lista e fotos dos animais que correm risco

A flagrante beleza natural de Florianópolis, que se estende por praias, cachoeiras e florestas, perde cor com a crescente perda de espécies de aves que são abrigadas na mata atlântica presente na Ilha de Santa Catarina.

Além de enormes consequências ao ecossistema local, o risco de extinção de aves na capital catarinense é um alerta cênico para animais que podem deixar de agraciar a nossa paisagem.

Há um lema que diz que o conhecimento daquilo que se preserva é peça-chave para sua proteção. Pensando nisso, o ND+ listou as espécies que correm risco de desaparecer em Florianópolis.

Conheça as espécies de aves ameaçadas de extinção em Florianópolis – Foto: Montagem/Fernando Farias/NDConheça as espécies de aves ameaçadas de extinção em Florianópolis – Foto: Montagem/Fernando Farias/ND

Uma iniciativa do Projeto Fauna Floripa, realizado pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) e do IMA (Instituto do Meio Ambiente), estuda o assunto na região.

O professor e pesquisador Guilherme Brito lista uma variedade de espécies que correm riscos de extinção na Capital catarinense.

São cinco espécies terrestres vistas em Florianópolis que já são classificadas como Vulnerável nas categorias de ameaça, atrás apenas de Em Perigo e Criticamente em Perigo.

Conheça as aves que estão ameaçadas:

Macuco (Tinamus solitarius)

Um dos resultados mais interessantes já observados pelo Projeto Fauna Floripa é a identificação do Macuco. O animal que atinge até 52 centímetros e tem entre 1,5 a 2,0 quilos de peso médio, foi documentado pela primeira vez em Florianópolis pelas câmeras do projeto.

“O Macuco é um bicho que tinha já registro na Ilha, mas eram registros não documentados. A gente chama de registro documentado aquilo que mostra que ele está ali, pode ser uma espécime, um pedaço de bicho, uma pena, uma foto. Não existia nenhuma documentação, eram só relatos de pessoas antigas que viviam na Ilha e de alguns observadores há mais ou menos uns 20 atrás, que tinham escutado o bicho no Morro da Lagoa e relatado num livro”, conta o pesquisador Guilherme Brito, do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC.

“Com o projeto Fauna Floripa, foram espalhadas armadilhas fotográficas em vários pontos da Ilha, e no início do projeto foram selecionados pontos nas matas mais preservadas da região. Em um ponto dentro da UCAD (Unidade de Conservação Ambiental Desterro), a câmera capturou imagens do Macuco”.

O Macuco consta como Vulnerável na lista estadual de espécies ameaçadas de extinção.

Macuco – Foto: Fernando FariasMacuco – Foto: Fernando Farias

Saracura-matraca (Rallus longirostris)

Outra espécie classificada como Vulnerável em Santa Catarina é o Saracura-matraca.

Ele mede aproximadamente 30 centímetros, e apresenta coloração geral marrom com o lado do corpo riscado de negro e com um bico amarelado. A espécie está presente em praticamente todo o Litoral brasileiro.

Saracura-matraca – Foto: Fernando FariasSaracura-matraca – Foto: Fernando Farias

Gavião-pombo-pequeno (Amadonastur lacernulatus)

O charmoso Gavião-pombo-pequeno tem a cabeça e as partes inferiores do corpo de cor branco puro, e pode ser facilmente confundido com pombos durante o voo.

Mas é uma espécie que destaca-se à distância por conta de sua cor. A espécie é predadora de aranhas, pequenas cobras, roedores, pequenos mamíferos, lagartixas, insetos, aves e mocós.

Ele aparece na Floresta Atlântica desde a Bahia até Santa Catarina. Com aparições raras no Estado do Paraná, a espécie já está classificada como Vulnerável nas matas catarinenses.

Gavião-pombo-pequeno – Foto: Fernando FariasGavião-pombo-pequeno – Foto: Fernando Farias

Gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus)

Outro gavião ameaçado em Florianópolis é o “pega-macaco”. A espécie de ave de rapina florestal mede até 66 centímetros, e alimenta-se de mamíferos, aves e répteis, tirados das árvores da floresta.

Essa espécie de gavião também consta como Vulnerável na Ilha de Santa Catarina. Ele está presente em grande parte do país, desde a faixa marítima leste-meridional, da Bahia, leste de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul.

Gavião-pega-macaco – Foto: Fernando FariasGavião-pega-macaco – Foto: Fernando Farias

Curriqueiro (Geositta cunicularia)

A quinta espécie considerada Vulnerável na lista estadual de aves ameaçadas é o Curriqueiro. O pequeno pássaro costuma voar baixo e caminha em busca de moscas, aranhas, por exemplo.

No Brasil, é exclusividade de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sendo presente em solo catarinense apenas na região litorânea, nas dunas e campos herbáceos, enquanto no Rio Grande do Sul ocorre nos pampas, campos e banhados litorâneos.

Curriqueiro – Foto: Fernando FariasCurriqueiro – Foto: Fernando Farias

Saíra-sapucaia (Stilpnia Peruviana)

Conhecido como “dançarino do Perú”, a Saíra-sapucaia é outra ave que também está ameaçada em Santa Catarina. Em seu caso, no entanto, ainda não chega ao nível “Vulnerável”.

O pequeno pássaro colorido mede cerca de 15 centímetros e está presente nas costas dos estados de Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

O avanço de condomínios de luxo nos litorais é o fator que tem cada vez mais exterminado a presença desta espécie.

Saíra-sapucaia – Foto: Fernando FariasSaíra-sapucaia – Foto: Fernando Farias

Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius)

Outro pequeno e emblemático pássaro que começa a aparecer com menor frequência na Ilha de Santa Catarina é Tiê-sangue. Ele também ainda não consta como Vulnerável, e está presente exclusivamente no Brasil, do Rio Grande do Norte a Santa Catarina.

Os machos se destacam pela pelagem na cor vermelho-vivo, o que dá origem ao seu nome.

Tiê-sangue – Foto: Fernando FariasTiê-sangue – Foto: Fernando Farias

Consequências reais caso as espécies sejam extintas

O professor Guilherme Brito ressalta que sempre que uma espécie é extinta, as consequências são inevitáveis dentro do ecossistema.

“Cada espécie no ambiente tem o seu papel. A gente tem esses grandes predadores de topo, que ajudam a controlar populações das presas, então eles a tendência é a população de presas aumentar muito e causar desequilíbrio”.

Ele exemplifica o caso do próprio Macuco, que é um animal importantíssimo para o plantio de árvores que também correm risco de extinção.

“Existem alguns animais que são dispersores de sementes, o Macuco por exemplo, é um bicho que se alimenta de sementes de bagas relativamente grandes e dispersa essas sementes, ele anda muito na floresta, então ele ele recolhe frutos caídos no chão e vai defecar longe, então ele acaba plantando espécies de árvores ameaçadas por aí”.

Por fim, há outro tipo de consequência: a perda de beleza nas florestas da Ilha de Santa Catarina.

“Além disso, temos a consequência cênica. É uma atividade que tá crescendo, que as pessoas estão cada vez com maior contato com a natureza, fazer observação da natureza, e a observação de aves é uma coisa muito interessante de se fazer. E ao perder espécies, a gente perde candidatos a serem observados”.

Ainda há tempo de salvar as espécies? O que fazer?

“Elas são ameaçadas, existem vários níveis de ameaça, há vários critérios, algumas estão mais do que outras”, esclarece Guilherme Brito. Ele ressalta que, apesar de correrem riscos, estas espécies ainda não estão com “os dias contados”.

“Dessas da lista, muito provavelmente o pior deles é o Macuco mesmo. A gente só tem registro de um indivíduo, então a gente não sabe se ele está sozinho aqui na Ilha”, diz.

O Macuco é uma ave que foi muito procurada por caçadores no passado, o que ajudou a ameaçar o animal, reforça o pesquisador.

“Nas demais, elas estão relativamente bem, apesar de estarem ameaçadas localmente – a grande maioria delas é mais uma uma ameaça mais o local mesmo”, continua.

Para conseguir melhorar a situação e salvar as espécies, Guilherme Brito dá o caminho: “É a preservação dos habitats”.

Outra hipótese para algumas espécies é a recolonização. “Trazer outros indivíduos que estão em cativeiro em algum lugar, ou pra trazer espécies que já sumiram, que se sabe que ocorria aqui no passado e não tem mais ou pra melhorar a carga do dos dos poucos que tem”.

“Mas essas ações de reintrodução são um pouco mais complicadas. É o que é mais fácil de fazer imediatamente é criar áreas protegidas, fazer uma fiscalização, educação ambiental, com a população, para o pessoal saber que essas espécies existem”, pondera o pesquisador.

Ele conclui com o destaque da importância de conscientizar o público sobre a fauna que existe na Ilha e corre riscos de desaparecer.

“A gente tem uma frase super famosa na conservação que é: ‘a gente não conserva o que não conhece’. Então é muito importante a gente fazer um trabalho de divulgação para a população saber que existem esses bichos relativamente ameaçados por aí, e que preservando os ambientes dele a gente pode preservar essas espécies”.

Outras espécies provavelmente já foram extintas em Florianópolis

O pesquisador comenta que já participou de levantamentos que apuraram a existência de espécies que existem no Continente e não na Ilha de Santa Catarina. Segundo ele, isso pode se dar por dois motivos.

A primeira opção é a extinção de espécies: “Uma é a ação antrópica mesmo, com a destruição dos ambientes aqui e a ocupação desenfreada da Ilha – teve uma época que as florestas todas da Ilha foram derrubadas pra fazer carvão -, esse histórico pode ter feito com que algumas espécies sumissem daqui”.

Porém, também há a explicação de algumas espécies simplesmente não chegarem até a Ilha: “Ou pode ser algo natural, que a gente chama de insularidade. Nós estamos numa Ilha, e apesar ali da região do Estreito ser estreita mesmo, muito provavelmente algumas espécies nunca conseguiram atravessar o canal e chegar pra cá”.

A possibilidade de extinção de espécies, obviamente, é extremamente maléfica ao ecossistema de Florianópolis.

“Alguns impactos dessas espécies faltantes são os serviços ecossistêmicos que elas podem fazer. Existem espécies que podem ser desperdiçoras de sementes, polinizadoras, espécies incentivas então dependendo de que espécie não está mais aqui esse serviço não é mais feito por ela, e às vezes você não tem um substituto, então esse é o impacto mais imediato”.

“Isso pode ajudar no empobrecimento das florestas, dificultar o recrutamento de novas árvores, coisas desse tipo”, completa.

Esse processo tem um nome científico, citado pelo pesquisador. “A gente chama de defaunação: perda de algumas espécies de fauna, no geral, aves inclusas, que podem estar causando esses problemas por aqui”.

O Projeto Fauna Floripa

O Fauna Floripa é uma iniciativa da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina, com o apoio da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) e do IMA (Instituto do Meio Ambiente).

O projeto realiza o levantamento das espécies de mamíferos, aves e anfíbios por toda a Florianópolis.

Foram instaladas 20 câmeras foram pela área de mata da Capital, e os animais são monitorados 24 horas por dia.