Precisamos de colaboração entre o norte e o sul, e um consenso para redistribuir poder e recursos

Precisamos de colaboração entre o norte e o sul, e um consenso para redistribuir poder e recursos

Entrevista com Mariana Mazzucato

É cidadã ítalo-americana, assessora políticos em todo o mundo e de diversas ideologias. É elogiada pelos mais variados líderes e por um público desejoso de encontrar uma fissura que mude o rumo do capitalismo (um de seus leitores é o Papa Francisco).

Mariana Mazzucato é especialista em inovação e defende revitalizar o setor público e diversificar as indústrias locais. Publicou Economia de Missão: Um guia ousado e inovador para mudar o capitalismo (Temas e Debates), um livro mobilizador que oferece pistas para entender a complexidade de um presente para o qual ninguém estava preparado. Com exceções inesperadas, dirá aqui.

De seu escritório em Londres, no Instituto de Inovação e Propósito Público da University College London, “localizado em uma preciosa casa geminada de inícios do século XIX, com vista para a Russell Square, em Bloomsbury”, conforme descreve, respondeu por escrito esta entrevista na qual ressaltou que laboratórios e empresas como Gilead Sciences, ou grandes corporações de plataformas digitais como Amazon, foram os grandes ganhadores na pandemia. E os perdedores? “Os trabalhadores essenciais. São aplaudidos e, no entanto, mal remunerados por trabalharem em condições inseguras. A pandemia ressaltou o fato de que não valorizamos seu trabalho como deveríamos”.

Neste livro, Mazzucato toma como ponto de partida o empreendimento coletivo que culminou na alunissagem, em 1969. Uma conquista estadunidense que contou com a atenção do mundo inteiro. Nele, conta que John FKennedy, em 1962, visitou o Centro Espacial da NASA e cumprimentou um zelador, perguntando-lhe o que estava fazendo e o trabalhador respondeu: “Senhor presidente, estou ajudando a colocar um homem na Lua”.

Esse espírito de compromisso é um dos pontos que levaram essa especialista a considerar que “a inovação e a comercialização de ideias não acontecem porque se deseja: ocorrem enquanto são resolvidos problemas maiores. O Apollo foi um exemplo do que é possível fazer quando a ambição é inspiradora e concreta”.

Em seu livro de 2013, O Estado empreendedor – escrito em resposta às políticas de austeridade posteriores à crise –, buscou demonstrar até que ponto o sucesso do Vale do Silício se baseava na pesquisa financiada pelo Estado. Um grupo de seguidores especialistas a conheceu em Buenos Aires, em 2016, quando deu uma conferência no Centro Cultural da Ciência e recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela UNSAM.

A crise gerada pela covid encontrou um mundo cujas potências não entenderam a raiz e nem o impacto do problema. Mazzucato questiona a crença generalizada de que a inovação é produzida no setor privado e que o papel do governo se limita a redistribuir e solucionar os erros do mercado. Também afirma que “reconstruir um estado de bem-estar é uma demanda razoável e realista para o florescimento humano”. Nadadora experiente, ensinou seus quatro filhos e também aos amigos deles a nadar.

Eis a entrevista.

O que é o mais notório no legado da pandemia para os sistemas de saúde mundiais, da Itália à Bolívia, passando pelos Estados Unidos, Inglaterra e Argentina?

Revelou que nossos sistemas de saúde estão mal preparados e mal financiados. Carecem da capacidade crucial e da resistência necessária para responderem a futuros choques e crises. A injeção em massa de investimentos para o rápido desenvolvimento de vacinas eficazes demonstra o que pode ser feito quando se dispõe de um financiamento público maior para acelerar, ampliar e reduzir o risco do desenvolvimento tecnológico e a fabricação por empresas privadas, baseando-se em anos de pesquisa com apoio público.

No entanto, as profundas desigualdades na disponibilidade e acesso às vacinas deixaram milhares de pessoas em risco de morte, algo que é possível evitar. E isso, provavelmente, prolonga a pandemia e atrasa a recuperação econômica. Ilustra um fracasso endêmico na hora de gerir a relação entre saúde e economia e entre os atores públicos e privados, ou, de fato, em manter a capacidade dos sistemas sanitários para enfrentar crises repentinas.

A fabricação just in time e as cadeias de abastecimento mundiais, cada vez mais racionalizadas em prol da eficiência econômica, não proporcionaram a capacidade de reação necessária para a resiliência da saúde pública. Assim, vimos uma escassez fatal de fornecimentos médicos críticos, como respiradores e equipamentos de cuidado pessoal, e uma disputa nacionalista para adquirir e monopolizar os escassos suprimentos, fazendo aumentar os preços e deixando aqueles com menos recursos no final da fila.

Não estávamos todos no mesmo barco?

covid evidenciou lacunas, fragilidades subjacentes e desigualdades estruturais em nossa capacidade coletiva de responder às crises sanitárias. Mas, ao mesmo tempo, revelou os poderes latentes que poderiam ter sido aproveitados para oferecer “saúde para todos”. Se algo foi demonstrado pela resposta fiscal global à covid é que o gasto público não se parece em nada com o das famílias.

O aumento e a reorientação do investimento público são possíveis do ponto de vista fiscal e econômico e constituem um imperativo político urgente, caso queiramos garantir o cumprimento das condições básicas para o florescimento humano, preparar-nos para os riscos futuros e proporcionar uma base financeira para os saltos a longo prazo na inovação médica.

As consequências econômicas da pandemia são comparáveis às da crise de 2008?

Sim, ainda que as consequências da covid possuam um impacto mais amplo em todo o mundo do que a crise de 2008, e é de se esperar que tenham um impacto maior na hora de mudar o paradigma da governança mundial, passando dos negócios neoliberais em favor do lucro privado a um Estado mais empreendedor e intervencionista, que trabalhe para produzir valor público.

Você alertou a respeito do enfraquecimento do Estado e a necessidade de que os governos assumam um papel ativo no modelo econômico. Em que ponto estamos na colaboração estado-mundo privado, em 2021?

Dos Estados Unidos e o Reino Unido até a Europa, Japão e África do Sul, os governos estão investindo bilhões – e em alguns casos, trilhões – de dólares para apoiar as economias nacionais. No entanto, se algo aprendemos da crise financeira de 2008, é que a qualidade é ao menos tão importante quanto a quantidade. Se o dinheiro recai em estruturas vazias, frágeis ou mal administradas, terá pouco efeito, e pode simplesmente ser absorvido pelo setor financeiro.

O investimento em capacidades estatais dinâmicas é a razão pela qual, por exemplo, o Vietnã ofereceu rapidamente testagens de baixo custo para crianças na pandemia. Contudo, países ricos como os Estados Unidos e o Reino Unidos ficaram para trás. O governo vietnamita pôde acumular kits de testes de baixo custo de forma muito rápida porque já tinha a capacidade para mobilizar o mundo acadêmico, o exército, o setor privado e a sociedade civil em torno de uma missão comum. Em vez de se limitar a terceirizar com poucas perguntas, utilizou o financiamento público da pesquisa e o desenvolvimento e as aquisições para impulsionar a inovação. A resultante colaboração público-privada permitiu uma rápida comercialização dos kits, que agora são exportados para a Europa e outros países.

A Nova Zelândia é outra história de sucesso, e não por acaso. Após adotar inicialmente o mantra da terceirização nos anos 1980, o governo neozelandês mudou de rumo, adotando um “espírito de serviço” e uma “ética da atenção” em todos os seus serviços públicos, e se tornou o primeiro país do mundo a adotar um orçamento de bem-estar. Graças a essa visão da gestão pública, na crise atual, o governo adotou uma abordagem da “saúde primeiro, a economia depois”. Em vez de buscar a imunidade de rebanho, trabalhou rapidamente em prevenir a infecção.

No Paquistão, os cidadãos puderam solicitar transferências monetárias de emergência (colocadas à disposição para o impressionante número de 2 milhões de famílias) diretamente de seus celulares, ao passo que os italianos tiveram que imprimir testes para demonstrar que cumpriam as normas de isolamento.

Sem dúvida, os governos do sul da Ásia se beneficiaram da memória institucional acumulada durante a epidemia do SARS de 2002-03, que também alterou sua privacidade. Muitos desses países também investiram em suas capacidades básicas de informação, que foram especialmente eficazes na hora de facilitar a ação descentralizada. A Coreia do Sul, por exemplo, adotou uma agressiva abordagem de acompanhamento de alta tecnologia e publicou dados em tempo real sobre as existências de máscaras e a localização das farmácias, o que permitiu que empresas novas e cidadãos criassem serviços complementares para garantir uma distribuição eficaz e segura.

Qual é o papel do FMI, atualmente? Como se posiciona diante de economias golpeadas como a da Argentina?

Historicamente, o FMI, em vez de estimular, sufocou as economias emergentes como a da Argentina, entre outras coisas, por meio da imposição de uma série de condições aos empréstimos que priorizavam a rápida liberalização do mercado. Este paradigma de governança mundial, conhecido como o Consenso de Washington, deve ser substituído por um novo paradigma que o Painel do G7 sobre Resiliência Econômica, do qual faço parte, chamou de Consenso de Cornwall (em junho, ocorreu nessa cidade inglesa a Cúpula do G7). Consiste em revitalizar o papel econômico do Estado, permitindo-nos perseguir objetivos sociais, construir uma solidariedade internacional e reformar a governança mundial em prol do bem comum.

Isso significa que as subvenções e investimentos do Estado e das organizações multilaterais passariam a exigir dos beneficiários uma rápida descarbonização (em vez de uma rápida liberalização do mercado). Significa que os governos passariam de reparar – ou seja, intervir só quando o dano já aconteceu – a se preparar: tomar medidas antecipadamente para nos proteger de futuros riscos.

Consenso de Cornwall também faria com que passássemos de corrigir os erros do mercado de forma reativa a moldar e criar de forma proativa os mercados que precisamos para alimentar uma economia verde. Faria substituirmos a redistribuição pela pré-distribuição. O Estado coordenaria as associações público-privadas orientadas à missão, destinadas a criar uma economia resistentesustentável e equitativa.

Nos anos 1960, o objetivo de viajar à Lua se tornou uma prioridade e uma conquista com frutos que levaram a avanços tecnológicos, às vezes, comunitários. Os setores público e privado entraram em acordo para esta missão. Hoje, um empreendimento deste tipo é imaginável nos Estados Unidos ou na União Europeia?

Sim. Mas para “reconstruir melhor”, conforme Joe Biden e a União Europeia se comprometeram, será necessário renovar o setor público, não só redesenhando a política e ampliando as capacidades organizativas do Estado, mas reativando a narrativa do governo como fonte de criação de valor. O governo de Biden tem todos os recursos disponíveis para aproveitar o poder de um estado empresarial existente que compreende organizações como a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA) e os Institutos Nacionais da Saúde, que investem até 40 bilhões de dólares por ano em inovação de medicamentos.

União Europeia colocou em andamento cinco grandes missões europeias de pesquisa e inovação para oferecer soluções a desafios como o câncer, a mudança climática, a poluição dos oceanos e o solo, bem como o desenvolvimento de cidades livres de carbono, que o Instituto de Inovação e Propósito Público (IIPP), da University College London, que dirijo, contribuiu para desenvolver. Essas missões fazem parte do programa de financiamento Horizonte Europa, que vai de 2021 a 2027 com uma proposta de aumento do orçamento próxima aos 100 bilhões de euros.

Agora, existe uma grande oportunidade de realizar políticas industriais para além dos tradicionais espaços setoriais e tecnológicos e de restabelecer uma governança orientada às missões em prol do interesse público. Uma estratégia industrial moderna orientada para uma revolução verde, por exemplo, exigiria que todos os setores – da inteligência artificial e o transporte à agricultura e a nutrição – inovem e tomem uma nova direção.

Você destaca: “Uma valiosa lição do Apollo e outras missões é a importância de assumir riscos e se adaptar a novas informações e circunstâncias”. É algo que o mundo desenvolvido pode fazer, ou seja, assumir riscos. Mas é possível que aqueles que sempre vivem no “mundo em desenvolvimento” assumam riscos?

Assumir riscos não é necessariamente o caminho mais caro. O objetivo deve ser que os Estados maximizem o valor público e isto exige certo nível de assunção de riscos, com uma divisão adequada deles. É o que normalmente faltou. Também é necessária maior colaboração entre os países do norte e do sul, um novo consenso que permita redistribuir o poder e os recursos e tratar os desafios globais exatamente como são: globais.
Considera que hoje é possível pensar em uma missão como a da viagem à Lua, que possa reunir atores públicos e privados?

Levar um homem à Lua exigiu tanto um setor público extremamente capaz, como uma associação com o setor privado impulsionada por um propósito. Para repetir os êxitos anteriores e alcançar metas ambiciosas como as projetadas nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e o acordo climático de Paris, precisamos reconstruir as capacidades estatais.

O modelo original dos moonshots (apontar a Lua como uma grande meta) oferece ideias e inspiração para realizar earthshots (apontar para grandes metas na Terra) hoje. Por exemplo, para alcançar os 17 ODS, deveríamos transformar cada um deles em várias missões claramente definidas que assentariam as bases para uma inovação mais multissetorial e ascendente. Um oceano sem plásticos, por exemplo, exigirá investimento e inovação em áreas tão diferentes como o transporte marítimo, a biotecnologia, os produtos químicos, a gestão de resíduos e o desenho.

O programa Apollo provocou a inovação na aeronáutica, na nutrição, na ciência dos materiais, na eletrônica, no software e em outras áreas. Os earthshots têm muito em comum com os moonshots, mas não são sinônimos. Ambos exigem uma liderança audaz e visionária dos governos que sejam devidamente equipados para “pensar grande e caminhar para o grande”.

Os earthshots são, em muitos sentidos, mais complexos, afetam a vida das pessoas de diferentes formas e, portanto, devem envolver uma ampla participação dos cidadãos. Se realmente for adotada uma abordagem inclusiva das partes interessadas, uma missão pode se tornar uma poderosa plataforma cívica e um motor de crescimento sustentável, como se prevê nos chamados a um Novo Pacto Verde, à Saúde para Todos e aos planos para reduzir a exclusão digital.

A exclusão digital cresceu com a pandemia. Por que agora parece ser mais importante do que a distância entre ricos e pobres, em termos econômicos?
A riqueza material nunca será menos importante do que o acesso digital. Mas ambas se sobrepõem, e a exclusão digital se tornou uma preocupação mais notável durante este período de maior interação digital: para acessar bens e serviços, para acessar o trabalho e a educação, para participar em fóruns cívicos, etc. As cadeias de abastecimento material, inclusive das necessidades mais básicas como a alimentação, são cada vez mais coordenadas e geradas por meio de plataformas digitais e seus algoritmos, um processo que vimos acelerar durante a pandemia.

Você propõe mudar as inter-relações entre o governo, as empresas e a sociedade civil. Como fazer com que todos cedam e ganhem, especialmente as empresas?

O objetivo dos governos deveria ser colaborar com os atores do setor privado que estejam dispostos a abordar os grandes desafios, reconhecendo que esses desafios também se alinham com as enormes oportunidades de mercado.

Quantos governos estão “pensando verde” na luta contra a mudança climática?

A maioria dos governos do mundo está despertando para a necessidade urgente de pensar verde. Muito mais problemático é o poder do capital dos combustíveis fósseis em ditar as condições e manter o domínio sobre a política econômica. Precisamos de novas formas de associação público-privada, em que os Estados se apoiem em seu papel de formadores do mercado, para acelerar uma transição verde, que funcione tanto para as pessoas como para o planeta.