Adeus, Mamãe

Adeus, Mamãe

Meu Deus me dá cinco anos…
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande…
(Orfandade, Adélia Prado)

Sim, já assisti a esse filme, A Partida – lindo! Mas filme nenhum, poema nenhum, nada, nadinha nos dá a experiência da morte. Algo misterioso e improcessável.

Perdi minha mãe nesse último dia 3, Terezinha Peixoto, pessoa amada por muitos da sua convivência. Mais que isso, muito admirada pelos familiares, sobrinhos, afilhadas, vizinhas, amigas, filhas e netos. Como todo ser humano, mamãe tinha das suas dificuldades e conflitos da natureza humana. Mas o que reluzia era a sua beleza, charme, inteligência, sagacidade e a resiliência diante da vida.

Foi a minha primeira experiência diante do último suspiro de alguém. O sofrimento e desamparo são imensos. Inimagináveis. Depois de 40 dias de males, minha mãe sofreu, se resignou, e se foi, como todos os mortais. Estava com 94 anos incompletos – seu aniversário era no Dia de Natal.

Antes do último sopro, cantei para ela ‘Terezinha de Jesus’, na versão popular e na versão de Chico Buarque, foi a música que me veio de repente. Esqueci da letra, mas solfejei. Na semana anterior, já tinha cantado ‘Último Desejo’, de Noel Rosa (ela gostava de cantarolar na cozinha), e ‘Como é Grande o meu Amor por você’, que ela gostava tanto, por conta da adolescência das quatro filhas. Vi um esboço de sorriso nos seus lábios. Minha irmã, Bebé, já tinha posto a tocar os cantos gregorianos da sua playlist e a ‘Ave Maria’, de Gounod. Algo de música no seu quarto, pois na vulnerabilidade e solidão da morte, os acolhimentos são outros. Sorriu também sempre quando via a minha irmã, Claude, sua caçula preferida, e a sua neta, Hanna. Um sorriso de alento.

A pandemia levou muito de mamãe também, e de todos os idosos. Já confusa e no fim da vida, seus únicos pequenos prazeres eram a TV, olhar os céus, as plantas, reclamar da solidão e à tardinha, se arrumar toda, passar batom, e ir à padaria da esquina tomar café, tapioca, uma prosa, ver gente e se conectar com o mundo.

Claro que, nós, as filhas, antes da pandemia a levávamos pra passear, almoçar fora, um café, um lanche, encontros familiares, mas ultimamente, sempre estava indisposta e a vida já lhe dava limites físicos. Na sua reclusão, quando me via, sempre me perguntava se não tinha mais ido ao cinema (que ela adorava e era assídua), e elogiava o meu cabelo (outra vaidade), agora brancocomo o dela. A sua bengala e echarpe (presente da minha irmã Teca lá do outro lado do mundo) eram inseparáveis. Este último foi junto do seu corpo magrinho e desfalecido na cremação. E mais as pétalas de rosas.

Viver muito é uma bênção e um desalento também “a solidão da velhice”, como ela chamava, era uma verdade que assolava a sua vida e a de tantos. A pandemia também tirou o seu último vínculo com o mundo de fora que era a padaria da esquina de onde morava. Nesses dois anos de exílio doméstico, mamãe foi privada de saber que seus amigos morreram (tentamos lhe poupar, inutilmente). A irritação passou a habitar os seus dias longos e não entendia da sua prisão, uma vez que a rua em frente e o ponto do ônibus continuavam lotados. Como explicar-lhe que, apesar da pandemia, a vida continuava, com ou sem negação.

Uma mulher que sempre teve a autonomia, independência, e liberdade como prerrogativas, ficar resignada e presa no sétimo andar, foi uma sentença. Sua alma foi se aniquilando e o seu corpo se esvaindo em debilidades. Os seus olhos lindos, já não brilhavam. Expressaram súplica até o fim.

Estamos bem mamãe. Vá em paz. Sei que adoravas a vida. E temias a morte. Mas naquelas circunstâncias já não te interessavas viver. Ficamos com a gratidão de nos ter dado a vida. E esse remexer nas nossas profundezas do autoconhecimento e de empatia para com você.

Uma amiga, comadre, me acarinhando, me disse: “Perder a mãe é cortar o cordão umbilical pela segunda vez.” Achei forte e uma triste e dolorosa orfandade.
Adeus!

“Como todo ser humano, mamãe tinha
das suas dificuldades e conflitos da natureza
humana. Mas o que reluzia era a sua
beleza, charme, inteligência, sagacidade
e a resiliência diante da vida”