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Embalagem flexível é principal rejeito em cooperativas de reciclagem

Embalagem flexível é principal rejeito em cooperativas de reciclagem

No Brasil, embalagem muito comum é separada por cooperativas, mas em 66% dos casos não encontra comprador na cadeia de  reciclagem

Numa cooperativa de reciclagem, rejeito não é sinônimo de lixo comum, é o material que chega, é triado, é separado com trabalho manual, e ainda assim não encontra comprador. Um levantamento feito em 42 organizações de catadores em cinco regiões do país mostra qual material ocupa essa posição com folga: a embalagem plástica flexível apareceu como rejeito em 66% das visitas realizadas, à frente das bandejas de PET (49%) e do isopor (41%). Não é um problema pontual de uma cooperativa mal equipada. É um padrão nacional.

Esse tipo de embalagem está mais perto do consumidor do que parece. É o saco de salgadinho, a embalagem de biscoito, o invólucro de chocolate, o pacote de ração animal, o sachê de refil de sabão ou amaciante, itens que passam pela casa de qualquer família diversas vezes por semana. A familiaridade com o objeto, porém, não se traduz em facilidade de reciclagem: é justamente esse grupo de embalagens do dia a dia que mais engrossa a pilha de rejeitos nas cooperativas.

A conclusão incomoda porque inverte uma expectativa comum. Quando se fala em reciclagem, o discurso público costuma recair sobre o comportamento do consumidor, separar o lixo, lavar a embalagem, descartar no lugar certo. O mapeamento aponta para outro lugar: mesmo quando a triagem funciona e o material chega íntegro à cooperativa, uma fração relevante dele não tem para onde ir. O gargalo não é a coleta. É a ausência de rota tecnológica e de mercado para um tipo específico de material.

rejeito em cooperativa de reciclagem
As embalagens multicamadas ou metalizadas acabam se transformando em rejeito nas cooperativas de reciclagem. Foto: Yattó

Rejeito é decisão de design, não falha de triagem

Embalagens flexíveis: sachês, filmes, laminados multicamadas, por exemplo, costumam combinar diferentes polímeros e, em muitos casos, camadas de alumínio numa mesma peça para garantir barreira contra umidade, oxigênio ou luz. Essa engenharia protege o produto na prateleira, mas inviabiliza a separação por tipo de plástico, etapa indispensável para o reaproveitamento industrial. O cooperado não erra ao classificar esse material como rejeito: ele está aplicando, corretamente, o critério de que não existe demanda de compra para aquilo ali. O problema nasceu antes, na etapa de especificação da embalagem.

A variação regional escancara a desigualdade de infraestrutura

O rejeito não se distribui de forma uniforme pelo país. Centro-Oeste concentra o maior índice (35%), seguido por Norte (30%) e Nordeste (28%); Sul (23%) e Sudeste (21%) registram os menores percentuais. A diferença de 14 pontos percentuais entre as pontas não se explica por comportamento do consumidor, explica-se por distância de indústrias recicladoras, escala de operação e acesso a compradores. Cooperativa em região com cadeia produtiva mais próxima consegue escoar materiais que, em outra região, viram rejeito por falta de comprador a uma distância viável.

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As cooperativas são fundamentais para aumentar as taxas de reciclagem no Brasil | Foto: PepsiCo

Reciclagem Figurinhas

A regulação chegou pela ponta errada da cadeia

Desde outubro de 2025, o Decreto Federal nº 12.688 obriga fabricantes e importadores de embalagens plásticas a incorporar conteúdo reciclado pós-consumo, 22% a partir de 2026, com trajetória até 40% em 2040, e determina a priorização de organizações de catadores nas operações de triagem. É um avanço real, mas resolve metade da equação. Obrigar o uso de material reciclado pressiona a demanda por PCR (plástico pós-consumo reciclado); não resolve a oferta, que depende de embalagens desenhadas para permitir separação.

Enquanto a arquitetura da embalagem flexível continuar priorizando barreira e custo sobre reciclabilidade, o decreto vai pressionar um mercado que segue sem matéria-prima disponível para atender à própria meta que ele criou.

reciclagem embalagens BOPP metalizadas

Há quem argumente que a solução está no consumidor: se o comprador exigisse embalagens recicláveis, a indústria reagiria. O argumento tem parte de verdade, pressão de mercado importa, mas ignora que o consumidor não tem, no ponto de venda, nenhuma informação confiável sobre reciclabilidade real daquela embalagem específica. A responsabilidade de comunicar essa informação, e de desenhar a embalagem de forma diferente, é da cadeia produtiva, não do consumidor final decodificando um material multicamada.

Há também quem aposte que o monomaterial resolve o problema por conta própria. Parte da indústria já vem substituindo estruturas de múltiplas camadas por embalagens de um único polímero, o que, em teoria, facilita a  reciclagem. Na prática das cooperativas, esse avanço ainda não se converte em resultado: sem instrumento ou treinamento para diferenciar visualmente uma embalagem monomaterial de uma multimaterial, o cooperado segue tratando as duas como equivalentes.

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Cooperativa Vira-Lata. Foto: Matheus Gondias

E mesmo quando a separação é feita, falta comprador, a indústria recicladora só absorve o material em grande volume, triado e sem contaminação, escala que uma cooperativa isolada dificilmente alcança sozinha. Trocar a estrutura da embalagem é condição necessária, mas não suficiente.

Os números por trás do mapeamento também mostram o que está em jogo quando se fala em “rejeito” de forma abstrata: 1.165 cooperados, distribuídos nas 42 organizações analisadas, comercializam juntos cerca de 3.830 toneladas de material por mês, com renda média de R$ 1.706 por cooperado.

Cada ponto percentual de rejeito é volume que passou pelas mãos desses trabalhadores sem virar renda. A Abrelpe estima que o Brasil recicla entre 4,5% e 8,7% dos resíduos sólidos que produz e deixa de aproveitar R$ 14 bilhões por ano em material reciclável. Parte relevante dessa perda tem nome e formato: sachê, filme plástico, embalagem laminada.

reciclagem embalagens BOPP metalizadas
Foto: Su-Yin-Khoo | Unsplash

O decreto que entrou em vigor é um ponto de partida, não de chegada. Reduzir o índice de rejeito das cooperativas depende de uma etapa que a regulação ainda não endereça com a mesma força: repensar a arquitetura das embalagens flexíveis antes que elas cheguem à triagem. Mas mudar o design, isoladamente, também não basta.

A tecnologia para reciclar esse material já existe, assim como o reciclador disposto a processá-lo, o que falta é investimento para estruturar essa cadeia em escala nacional, e políticas públicas que criem demanda real de compra para o material que sai transformado do outro lado. Enquanto essas três frentes design, estruturação da cadeia e demanda, não avançarem juntas, continuaremos com um sistema que cobra metas de reciclagem de embalagens que foram desenhadas, desde o início, para não serem recicladas.colunista Luiz Grilo