Dinossauros ‘paraibanos’ tinham hábitos distintos, afirmam estudiosos

Dinossauros ‘paraibanos’ tinham hábitos distintos, afirmam estudiosos

Animais viveram há milhões de anos na região do Sertão e se distinguiam pela alimentação diversificada

Há milhões de anos, a Paraíba foi habitada por dinossauros, e o Sertão do Estado é uma região onde há muitos rastros preservados, especialmente no município de Sousa. Apesar de ainda haver um longo caminho em relação às pesquisas, os estudiosos afirmam que entre as principais espécies encontradas por aqui estão o iguanodonte, o abelissauro e o titanossauro. Em 2016, inclusive, foi descoberto o Sousatitan, da família dos titanossauros, que teria vivido no Sertão há 136 milhões de anos.

“Em relação a restos corpóreos, os somatofósseis, foi encontrado, em Sousa, um osso da fíbula pertencente a um saurópode do grupo dos titanossauros que ficou conhecido popularmente como Sousatitan”, explicou o paleontólogo David Holanda, vinculado ao Laboratório de Vertebrados e Paleontologia do Centro de Ciências Agrárias (CCA), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). As pesquisas mostraram que era um animal juvenil de três metros de altura e 11 metros de comprimento, provavelmente herbívoro.

Apesar de serem parecidos em relação ao tamanho, esses gigantescos animais tinham, de fato, hábitos diferentes. Enquanto alguns se alimentavam exclusivamente de vegetais, outros eram carnívoros, alguns necrófagos – comiam carne de animais mortos – e existiram ainda os piscívoros, ou seja, que tinham uma alimentação baseada em peixes.

O arqueólogo e paleontólogo Juvandi de Souza Santos, coordenador do Laboratório de Arqueologia e Paleontologia (Labap), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), relatou os estudos que buscam essas evidências na Paraíba vêm desde os anos 1960. A maior parte realizados pelo padre italiano Giuseppe Leonardi, paleontólogoque visitou a Paraíba, repassando ao professor todo o material que produziu sobre os sítios paleontológicos da Bacia Sedimentar do Rio do Peixe.

Animais pré-históricos deixaram rastros

Os principais indícios dos dinossauros na Bacia Sedimentar do Rio do Peixe são os icnofósseis. Por lá, há pegadas e pistas desses e de outros dinossauros. E não há só os icnofósseis desses animais, mas gotículas de chuva fossilizadas, marcas de ondas dos lagos que existiram, muitos fósseis de invertebrados e de conchas. “Estou até trabalhando em dois sítios no município de Sousa e as principais evidências paleontológicas encontradas são os icnofósseis de conchas e de pequenas ondulações de fundo de lago”, contou Juvandi.

Também não se sabe, ao certo, quantas espécies habitaram a Paraíba. Algumas estimativas levantadas pelo padre Giuseppe Leonardi apontam que pode chegar a 70, mas faltam mais estudos para confirmar ou refutar se, de fato, o estado teve esse montante. O que se sabe é que essas espécies estiveram no supercontinente Pangeia.

Quando foram definidos os continentes africano e americanos, há 105 milhões de anos, o Sertão da Paraíba ficou na Bacia do Rio do Peixe, com centenas de pegadas de dinossauros na margem do Rio ou mais distante, mas no passado certamente foram lagos ou rios, conforme o pesquisador Luiz Carlos Gomes, que acompanhou o padre Giuseppe e auxilia hoje a equipe de Juvandi de Souza no mapeamento e reconhecimento fotográfico do que ainda resta na Bacia.

Por lá, os indícios encontrados foram as pegadas e ossos fossilizados de dinossauros, assim como coprólitos, que são fezes fossilizadas. As pegadas, segundo Luiz Carlos Gomes, são do período geológico Cretáceo Inferior, por volta de 145 milhões de anos. Uma curiosidade é que pode ocorrer de as pegadas serem encontradas no Vale dos Dinossauros e os ossos fósseis estarem no continente africano.

Onde viveram os dinossauros na PB

Quando se fala em dinossauros na Paraíba, todo mundo só fala no município de Sousa, mas na verdade, há evidências da presença desses animais no passado em outras localidades como São João do Rio do Peixe, Brejo das Freiras, Uiraúna, por exemplo. O paleontólogo Juvandi de Souza destacou que é possível encontrar esses icnofósseis em praticamente todos os municípios que compõem a Bacia Sedimentar do Rio do Peixe.

O pesquisador Luiz Carlos Gomes acrescentou que eles viveram em todos os lugares, mas apenas nas rochas sedimentares ficaram registradas suas pegadas e o osso fossilizado do Sousatitan, na Bacia do Rio do Peixe. Não há rastros em rochas do Período Jurássico. A Bacia do Rio do Peixe, do Cretáceo Inferior, mede 1.730 km², se estende de Pombal ao limite com o estado do Ceará, envolvendo os municípios de Pombal, Cajazeirinhas, Aparecida, Sousa, São João do Rio do Peixe, Triunfo, Santa Helena, Uiraúna e Poço de José de Moura.

Com o apoio de Luiz Carlos, a equipe do pesquisador Juvandi de Souza está revisitando os mais de 30 sítios paleontológicos que têm icnofósseis e tentando localizar outros sítios, comparando o que o padre Giuseppe Leonardi fotografou nos anos 60, 70 e 80 com a atualidade. A partir daí, tentar analisar o grau de depredação desses locais ao longo do tempo.

Curiosidades

Os dinossauros surgiram há cerca de 230 milhões de anos – no período Triássico do Tempo Geológico – e desapareceram há cerca de 65 milhões de anos – no período Cretáceo.

Na Paraíba, os fósseis de dinossauros se concentram no complexo de Bacias Sedimentares Rio do Peixe, com idade estimada de 145 a 132 milhões de anos. Acredita-se que, naquela época, a região apresentava um clima quente, com grande variação de umidade, rios efêmeros e lagos rasos.

Outro fóssil encontrado na Paraíba, no município de Triunfo, do grupo dos Titanossauros, foi o Triunfossaurusleonardii. Estima-se que era herbívoro e chegava a medir 13 metros de comprimento e 4 metros de altura, pesando quase 10 toneladas.

Fonte: David Holanda, Laboratório de Vertebrados e Paleontologia do CCA-UFPB.

Espécies não identificadas na Paraíba

Algumas espécies, como o velociraptor e o tiranossauro rex, nunca existiram na Paraíba, conforme o paleontólogo Juvandi de Souza. O tiranossauro rex, até o momento, não foi identificado sequer na América do Sul, assim como o velociraptor. “Já li alguns artigos e matérias em jornais falando sobre um dinossauro que viviam no mar, o braquiossauro, e que tinha vivido na Paraíba. Não viveu. Era um animal de mar. Esses três dinossauros não existiram no nosso Sertão”, completou.

Anquilossauro

Provavelmente, no Vale dos Dinossauros existiram pegadas de Anquilossauro, inicialmente atribuídas a Estegossauro. Estes rastros foram encontrados na Bacia Sedimentar do Rio do Peixe, mas não há definição sobre qual dinossauro passou naquele terreno úmido e moldável no Cretáceo Inferior. Se realmente foi um Anquilossauro, pesava entre sete a nove toneladas, media cerca de nove metros de comprimento e tinha 2m de altura. Era herbívoro.

Fonte: Luiz Carlos Gomes, pesquisador. *Espécies cujas pegadas foram catalogadas na área do Vale dos Dinossauros por Giuseppe Leonardi e outros paleontólogos.