Como planejar a geração de energia no Brasil para trazer resultados econômicos e climáticos
O investimento em grandes projetos e em geração distribuída, além de atender a demanda energética, pode contribuir com as soluções baseadas na natureza e o equilíbrio climático do país
O debate global sobre transição energética avança pressionado por metas climáticas, mudanças regulatórias e transformações na geopolítica. No Brasil, porém, esse movimento tem raízes mais profundas. Antes mesmo de o termo “transição energética” entrar no vocabulário técnico internacional, o país já construía uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, inicialmente por necessidade e vocação, e mais tarde por estratégia climática.
No século XIX, o país instalou suas primeiras hidrelétricas. A partir de 1950, ergueu grandes empreendimentos como Tucuruí e Itaipu. Entre 1980 e 2000, iniciou projetos-piloto de energia eólica e solar, cuja expansão ganharia corpo com o PROINFA (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica) no início dos anos 2000. Na década seguinte, o Brasil se consolidaria como liderança global em solar, eólica e biocombustíveis.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aponta que existem, no Brasil, 21.145 usinas fotovoltaicas (parques solares), 1.103 parques eólicos, 219 hidrelétricas e 425 pequenas centrais hidrelétricas.
Enquanto o mundo ainda discute como reformar seus sistemas energéticos, o Brasil já opera uma matriz majoritariamente renovável, diversificada e em franca expansão. O país é o terceiro maior gerador do mundo, atrás apenas da China e Estados Unidos.
Esse cenário, além de apresentar ganhos climáticos à sociedade, abre oportunidades importantes para empresas, inclusive pequenas e médias, que buscam associar competitividade econômica a impacto climático positivo.
A geração de energia renovável reduz a dependência de combustíveis fósseis, reduz a emissão de gases de efeito estufa e reduz a poluição atmosférica, o que traz ganhos ambientais e à saúde humana.
Números e expansão
O imaginário sobre o setor energético brasileiro costuma estar vinculado a grandes obras e empresas de grande porte. Mas a abertura regulatória dos últimos anos revela um ambiente fértil para pequenas e médias empresas. A principal porta de entrada é a geração distribuída (GD), modelo que permite produzir energia no ponto de consumo e reduzir custos de infraestrutura e transmissão.
A geração centralizada (GC) produz mais de 200 GW, com 103 GW em hidrelétricas, 48 GW em termelétricas, 33 GW em eólicas e 20 GW em solares. Em paralelo, a GD vem crescendo rapidamente, com mais de 40 GW instalados. Em percentuais, a GC tem 83% da produção nacional, enquanto a GD tem 17%.
A tecnologia solar fotovoltaica impulsionou esse movimento e hoje concentra o maior volume de projetos distribuídos, especialmente no mercado residencial e comercial de pequeno porte. A biomassa também se destaca entre consumidores industriais, permitindo que resíduos agrícolas gerem energia térmica ou elétrica com competitividade crescente.
A GD reduz um dos principais entraves do setor elétrico brasileiro: a dificuldade de escoar energia de grandes empreendimentos até os centros de consumo. Por isso, soluções de armazenamento, como baterias e sistemas híbridos, surgem como área estratégica para pequenas e médias empresas com tecnologia avançada. Este é um segmento com demanda reprimida e tendência de crescimento acelerado.
Já tecnologias como hidrogênio verde e eólica distribuída ainda operam quase exclusivamente em escala industrial, mas avanços tecnológicos devem ampliar sua presença no médio prazo, criando novos nichos para empresas com apetite inovador.
Barreiras a serem superadas
Apesar dos avanços na geração de energia renovável, o Brasil ainda enfrenta desafios complexos. O principal é a insuficiência da infraestrutura de transmissão: a energia é gerada em abundância, mas não é suficientemente escoada para os centros de consumo.
Como resultado, há três grandes efeitos negativos: a geração em locais remotos precisa ser suspensa (curtailment), a geração em locais conectados precisa ser acionada emergencialmente (normalmente são termelétricas) e os preços sobrem.
Um segundo desafio é a dependência do regime de chuvas, para o caso das termelétricas (57% da geração nacional). No atual cenário de crise climática, em que o regime de chuvas se torna imprevisível, essa dependência não é desejável.
O terceiro desafio é a baixa capacidade de armazenamento do país. Não há locais ou estruturas capazes de armazenar a energia gerada (a exemplo de baterias).
Em busca de alternativas, a ANEEL iniciou em março deste ano a Tomada de Subsídios nº 5/2026, em busca de “subsídios para aprimoramentos das regras de acesso ao sistema de transmissão”. A agência pretende discutir ajustes que possam conferir maior coerência, previsibilidade e neutralidade competitiva.
Regulação climática e a força das soluções baseadas na natureza
Desde 2021, o país tem publicado normas essenciais para consolidar a economia de baixo carbono, incluindo a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (Lei nº 14.119/2021), a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), diretrizes nacionais de adaptação climática (Lei nº 14.904/2024) e o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (Lei nº 15.402/2024).
Na seara da energia, o país opera um sistema regulado, com alto nível de detalhamento técnico e exigências que variam conforme o tipo de fonte, tamanho do projeto e localização. Isso demanda planejamento, mas oferece previsibilidade.
Esse arcabouço coloca o Brasil em posição distinta entre economias emergentes, reforçando o alinhamento ao Acordo de Paris e criando oportunidades para empresas com metas ESG rigorosas.
Como se sabe, mudanças na política externa dos EUA geraram ruído sobre compromissos climáticos globais. Ainda assim, o Brasil permanece como rota de expansão climática consistente, tanto pela ambição regulatória quanto pela pressão do agronegócio e de setores exportadores por alinhamento internacional.
A agricultura, a pecuária e o saneamento vivem um processo rápido de internalização da agenda climática. A manutenção de vegetação nativa, a restauração de áreas degradadas e o manejo sustentável do solo são cada vez mais percebidos como infraestrutura econômica, garantindo água, fertilidade, estabilidade térmica e produtividade.
Isso impulsiona a demanda por soluções baseadas na natureza (Nature Based Solutions, em inglês, ou NBS). O Brasil é considerado o país mais promissor para projetos de carbono florestal e regeneração de ecossistemas, tanto pela escala quanto pela qualidade das áreas naturais.
O investidor de energia pode combinar geração renovável com receitas adicionais de créditos de carbono, ou aportar capital diretamente em projetos de conservação, restauração ou agricultura regenerativa.
Tendências para os próximos anos
A geração distribuída seguirá impulsionada pela vertente solar. Hidrogênio verde, biomassa e eólica distribuída devem ampliar participação conforme avanços tecnológicos reduzam custos. Biocombustíveis terão espaço crescente, acompanhando demandas do setor de transportes e do mercado global de Sustainable Aviation Fuel (SAF).
A chegada de data centers, grandes consumidores de energia, tende a puxar novos investimentos e pode redesenhar a dinâmica de oferta regional de eletricidade.
No Brasil, a transição energética não é apenas um movimento ambiental. É, sobretudo, uma estratégia econômica. A geração de energia planejada traz resultados econômicos e climáticos.
*Yuri Rugai Marinho é CEO da ECCON Soluções Ambientais e coautor do livro “Como entender o mercado de carbono”
