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Demência pode ter origem décadas antes dos sintomas

Demência pode ter origem décadas antes dos sintomas

Pesquisas mostram que fatores da infância e hábitos da juventude podem influenciar a saúde cerebral e o risco de demência

A saúde cerebral na terceira idade começa a se desenvolver muito antes do que a maioria das pessoas imagina. Estudos de longo prazo que acompanharam a capacidade cognitiva de indivíduos desde a infância até a velhice vêm apontando um dado recorrente: “Um dos fatores mais importantes para explicar a capacidade cognitiva de alguém aos 70 anos é a sua capacidade cognitiva aos 11 anos”, observaram pesquisadores em um artigo recente publicado na plataforma global de jornalismo The Conversation. O resultado chama a atenção porque desloca o foco da prevenção da demência da velhice para as primeiras fases da vida. Não se trata apenas de hábitos adquiridos na meia-idade, rotinas de aposentadoria ou exercícios mentais feitos mais tarde, mas de condições e experiências que começam ainda na infância.

Segundo os pesquisadores, as diferenças cognitivas observadas entre idosos nem sempre decorrem de um envelhecimento mais acelerado. Muitas delas já estavam presentes décadas antes. “Idosos com habilidades cognitivas mais fracas frequentemente apresentam essas habilidades inferiores desde a infância, e as diferenças não se devem apenas a um declínio mais rápido na velhice”, explicaram. Isso não significa que dificuldades escolares na infância determinem inevitavelmente um quadro de demência no futuro, nem que hábitos adotados ao longo da vida deixem de ter importância. O que os estudos sugerem é que a janela para proteger a saúde cerebral é muito mais ampla do que normalmente se imagina.

Duas grandes linhas de pesquisa vêm ajudando a aprofundar esse entendimento. Um estudo publicado em 2023 por pesquisadores da Suécia e da República Tcheca analisou fatores ligados ao nascimento e sua relação com o risco de demência na vida adulta. Alguns deles, como compartilhar o útero com um gêmeo, fogem totalmente do controle individual. Outros, como intervalos menores entre gestações ou uma primeira gravidez após os 35 anos, podem influenciar. No fim de 2024, outra pesquisa, liderada pelo Global Brain Health Institute (GBHI), na Irlanda, identificou fatores de risco específicos para jovens adultos entre 18 e 39 anos. Reunindo experiências de 15 países, o grupo desenvolveu uma estrutura voltada à saúde cerebral ao longo de toda a vida. “O início da vida adulta representa uma janela crucial para intervenções que podem reduzir significativamente o risco de demência mais tarde na vida”, afirmou Francesca Farina, neurocientista do GBHI.

exercícios idosos
Foto: Pixabay

O estudo organizou os fatores de risco em três grandes categorias. Entre os relacionados ao estilo de vida estão consumo excessivo de álcool, tabagismo, sedentarismo e isolamento social. Já os riscos ambientais incluem exposição à poluição, lesões cerebrais traumáticas, perda de audição ou visão e acesso limitado à educação. O terceiro grupo reúne condições de saúde como obesidade, diabetes, hipertensão, colesterol LDL elevado e depressão, muitas delas associadas a hábitos de vida, mas também capazes de gerar efeitos próprios e duradouros sobre o cérebro. Algumas relações são mais evidentes, como os impactos de lesões cerebrais ou do consumo excessivo de álcool e cigarro sobre a saúde neurológica. Outras conexões, porém, ainda surpreendem os pesquisadores. A perda de audição e de visão, por exemplo, aparece associada ao risco de demência, possivelmente devido à degeneração cerebral ou ao isolamento social frequentemente provocado pelas limitações sensoriais.

Os pesquisadores também destacam que exames cerebrais realizados na velhice podem refletir exposições muito antigas. “Padrões semelhantes também são observados ao procurar evidências de danos relacionados à demência em exames de imagem cerebral, com algumas alterações parecendo estar mais intimamente ligadas à exposição a fatores de risco no início da vida do que a estilos de vida pouco saudáveis atuais”, observaram. Em outras palavras, alterações identificadas aos 70 anos podem ter origem em experiências vividas aos 20, ou até antes, e não necessariamente nos hábitos recentes. Diante desse cenário, os especialistas defendem que jovens adultos sejam incluídos de forma ativa nas estratégias de prevenção da demência. “Para garantir resultados cerebrais mais saudáveis, os jovens adultos devem ser incluídos como parceiros fundamentais nos esforços de pesquisa, educação e formulação de políticas”, disse Farina.

Pesquisadores do GBHI avaliam que essa geração demonstra interesse crescente pelo tema. “Existe um interesse genuíno entre os jovens adultos em aprender mais sobre a saúde do cérebro”, afirmou Laura Booi, gerontóloga social do instituto. “Eles estão muito conscientes da neurodiversidade e da cognição, e muitos se identificam com diagnósticos como TDAH ou autismo. Essa consciência impulsiona o forte interesse deles em compreender e melhorar a saúde do cérebro.” Entre as propostas apresentadas pela equipe estão campanhas de saúde pública e programas educacionais voltados à conscientização desde a infância, possivelmente financiados por impostos sobre álcool e tabaco. Em nível local, os pesquisadores sugerem a criação de conselhos consultivos compostos por jovens adultos para dialogar diretamente com governos municipais e regionais sobre prioridades relacionadas à saúde cerebral. Já no âmbito nacional, defendem a criação de uma carta formal de saúde cerebral capaz de manter o tema como prioridade contínua, independentemente dos ciclos eleitorais. Os estudos também apontam que ainda existem áreas pouco exploradas e que merecem investigação adicional. Entre elas estão o consumo de alimentos ultraprocessados, uso de drogas recreativas, excesso de tempo em frente às telas, estresse crônico e exposição a microplásticos. Nenhum desses fatores foi confirmado até agora como causa direta de demência, mas todos são considerados caminhos plausíveis que precisam ser acompanhados pela ciência.