Ativista ambiental, Christiane Torloni te convoca a lutar pela Amazônia

Ativista ambiental, Christiane Torloni te convoca a lutar pela Amazônia

Christiane não se lembra de sua primeira vez na mata amazônica. Mas sabe que foi nos anos 1980. Na época, percorria todo o território nacional em prol da democracia, uma bandeira que ergueu por muito tempo. Agora, há mais de uma década, é outra bandeira que carrega. Christiane Torloni, hoje, é ativista ambiental.

Figura presente em inúmeros filmes e novelas globais consagradas, talvez você se lembre de Torloni também através do famoso meme, que completa 10 anos em 2021, “Hoje é dia de rock, bebê”, frase dita por ela em uma entrevista no Rock in Rio de 2011. Mas além de tudo isso, a atriz se destaca entre os artistas brasileiros preocupados com a preservação do meio ambiente, em especial da Amazônia.

“A urgência que me levou para esse caminho do ativismo”, lembra. Urgência e reconhecimento. Foi em meio às matas e rios que a atriz se reconheceu brasileira. “É aquilo que se chama de pertencimento. A floresta me fez entender o que é o hino nacional, tudo o que é a bandeira nacional, aquilo que está traduzido em poesia”.

Em entrevista a Ecoa, Christiane Torloni contou sobre a importância de se posicionar pela causa ambiental, sobre sua atuação como conselheira e representante da ONG Fundação Amazônia Sustentável e sobre suas esperanças para a preservação ambiental da Amazônia.

“Isso não é o Brasil”

Você dirigiu o filme “Amazônia – O despertar da Florestania”(2019). Qual importância de atuar, também por meio da arte, em prol do meio ambiente?

Christiane Torloni: Eu me expresso através da arte há mais de 45 anos. A arte é minha ferramenta. E o filme é feito a partir desse olhar. Quem vos fala é uma artista, não um economista, um ecologista. E esse lugar por onde fala um artista é muito bonito porque toca o coração das pessoas.

O que mais te impressionou nas filmagens do documentário?

As pessoas. Como tem gente bonita pelo Brasil, sabe? Não é essa feiura que estamos vendo no Congresso, no Senado, no Planalto. Isso não é o Brasil. Nós não somos isso. E é muito importante que as pessoas entendam isso. As lideranças que conheci andando por comunidades amazônicas, por unidades de conservação, são verdadeiros doutores que têm muito a nos ensinar, só que nossa arrogância urbana nos faz achar que quem vive na floresta é primitivo. Precisamos ouvir Davi Kopenawa, Ailton Krenak… Eles são o Brasil, não essa gente que está votando esses absurdos que a gente está vendo.

Marcelo Faustini
Marcelo Faustini
Alex Carvalho

Novela, mostre a cara do Brasil

Você acredita na importância do posicionamento de artistas em defesa de causas ambientais e humanitárias?

Esse posicionamento não teve e nem tem racionalização, acontece de maneira orgânica. As pessoas devem fazer o que sentem e têm autoridade emocional porque cada vez que você segura uma bandeira, é preciso ser firme: vai ter gente a favor e contra. Estar em uma militância te coloca na rua, em dilemas e situações para as quais é preciso estar preparado emocionalmente. Eu não acho que seja uma regra de posicionar, não acho que alguém seja menor artista porque não faz isso. A arte precisa de toda a militância na própria arte também. Nós temos guerrilheiros da arte, pessoas que nunca levantaram uma bandeira pela ecologia ou pela democracia, mas que são verdadeiras colunas da nossa arte, do nosso teatro, da nossa literatura, do nosso cinema. As pessoas têm limites para algumas coisas e devemos ser amorosos o suficiente com o outro.

Como sensibilizar as pessoas para que elas entendam a importância da preservação da Amazônia? Trazer esse tema para as novelas é uma parte disso?

Aquilo que a gente não conhece é muito difícil de proteger. Por isso que eu vivo dizendo para as pessoas: “vá à Amazônia pelo menos uma vez na sua vida”. A Amazônia está mais perto que a Disney, mais perto que Paris. As pessoas têm muito medo do que não conhecem. Elas dizem que tem onça, mosquito, e ficam morrendo de medo.

Apresentar tudo isso na novela é muito bem-vindo. A nossa novela também tem essa função de mostrar a cara do Brasil.

Christiane Torloni, atriz

Indignação e luta

Você foi uma presença marcante nos comícios das Diretas Já, entregou o abaixo-assinado “Amazônia para Sempre” ao ex-presidente Lula, em 2009… Você acredita que as mudanças, também ambientais, passam pela política?

Tudo é política. E nada foi pior do que a entrada desse último governo, deste último Ministro do Meio Ambiente [Ricardo Salles]. Esse é um que eu espero ver preso, o que vemos com esse esquema de exportação de madeira é um problema sério que envolve formação de quadrilha, tráfico internacional… Tudo isso é política, é quem nos representa. Nós nunca estivemos tão mal representados. Até no governo Collor tivemos políticas ambientais melhores.

O que te levou à construção desse abaixo-assinado que conseguiu recolher cerca de 1,5 milhão de assinaturas?

Indignação absoluta. Eu já ia para a Amazônia há mais de vinte e tantos anos. Me lembro de ver, durante os voos, áreas desmatadas do tamanho de campos de futebol. É terrível. E dessa indignação veio a ação. Um sentimento de que eu precisava fazer alguma coisa. Nada, desde o fim das Diretas Já, tinha me movido para uma ação cívica desse peso. Porque para isso você para sua vida, deixa filho e marido em casa, para produções de trabalho. A dedicação à causa é enorme. Agora, a medida da sua indignação vai ser a medida da sua luta. E essa indignação piorou muito. Do tempo do abaixo-assinado para hoje se desmatou muito mais, políticas públicas foram desmontadas. O que está acontecendo na Funai, no Ibama, tudo sendo desmontado, é uma catástrofe.

No ano passado, você disse que seria voluntária nas queimadas do pantanal, se não fosse grupo de risco da covid-19. Como se sentiu ao ver o bioma pegando fogo?

Eu faço parte da SOS Pantanal também, eles são uns guerreiros, fizeram um trabalho importantíssimo ano passado. E, para mim, foi dilacerante ver os bichos queimando, com as patas queimadas. A gente sabe que, por conta da seca, os pontos de fogo acontecem, mas tem ação humana também. A gente entende que essa é a pior seca dos últimos 90 anos e sabíamos que isso ia acontecer. Quando você vê o filme “Uma verdade inconveniente”, de 15 anos atrás, ele fala isso. Existem estudos sobre isso. Tudo isso já começava a dar sinais de como o ser humano é um sujeito que, apesar de toda tecnologia, é burro. Estamos matando nossa própria casa. E falando da Amazônia, esse é um bioma que não obedece fronteiras, e querem construir uma tal da estrada que liga o Acre ao Peru, destruindo tudo. É uma catástrofe. Essas coisas me deixam desesperada, não durmo direito.

Arquivo pessoalArquivo pessoal
Marcelo Faustini

Esperança é ação

Você é conselheira da Fundação Amazônia Sustentável desde 2011, tem participado de eventos internacionais e visita comunidades como representante da instituição. O que vocês têm conseguido construir juntos?

Sou conselheira da Fundação há quase dez anos. E tudo começou quando participei de um fórum mundial sobre a Amazônia, em Manaus. E você pode entrar no site da Fundação Amazônia para conferir os inúmeros projetos que temos na região. E agora estou ajudando a desenvolver um braço da fundação na Europa. É muito importante que a gente tenha um braço europeu depois que, por conta dos desacertos desse ex-ministro do meio ambiente [Ricardo Salles], perdemos o Fundo Amazônia. Estamos atrás de recursos, os projetos têm que continuar.

O Brasil é o terceiro país do mundo que mais mata ativistas ambientais. De Chico Mendes a Dorothy Stang, muitos foram os que morreram por essa causa. Como ter esperanças nesse cenário?

Nenhum mal é unânime. Eu vejo vozes se levantando no Brasil, existe uma sociedade civil, que ficou um pouco amortecida na última década e meia, que está se engajando, os artistas estão muito engajados. A gente precisa que as pessoas se envolvam, se comovam, se emocionem, mas que façam algo porque se ficarmos sentados em casa vamos ver o Brasil pegar fogo.

Muita gente boa já morreu, mas tem uma juventude aí que pode e deve entrar numa ação, com certeza, porque a gente não vai durar para sempre. É preciso que cheguem outros para pegar o bastão dessa corrida. Essa é a esperança que tenho.

Christiane Torloni, atriz