“A alimentação é fundamental para a qualidade de vida do diabético”

“A alimentação é fundamental para a qualidade de vida do diabético”

O portador de diabetes, seja do tipo 1 ou do tipo 2, tem que viver permanentemente atento a uma série de fatores para controlar os níveis de açúcar no sangue, especialmente mudanças no estilo de vida, que vão do comportamento à alimentação adequada, além da terapia com medicamentos. Para o endocrinologista João Modesto Filho, “Por ser uma doença sistêmica com repercussões em todo o organismo, todos esses tópicos se enquadram nos avanços. Temos que buscar um bom controle glicêmico pois é uma prioridade indiscutível”, enfatiza. Nessa conversa com A União, João Modesto destacou que o diabetes está quase sempre associado à obesidade, que “é uma doença universal, de prevalência crescente, proporções epidêmicas, sendo um dos principais problemas de saúde pública da sociedade moderna.

Ela aumenta risco de inúmeras doenças crônicas como diabetes, dislipidemias, doenças cárdio e cerebrovasculares, neoplasias, doenças articulares, esteatose hepática, apneia do sono, etc.” Ele revela também que muitos paraibanos não est o atentos para o perigo que alguns alimentos representam parta a doença e alertou: ”Na realização do Censo Brasileirodo Diabetes realizado em 12 capitais do país, constatou-se que cerca de 21% dos diabéticos de João Pessoa faziam uso de açúcar refinado, o que contribuía para o controle insatisfatório da doença.

“Uma perda de peso moderada (5 a 10%) melhora o controle glicêmico,reduz o risco de doença cardiovascular e retar o diabetes”

Segundo João Modesto, quando há o diagnóstico do diabetes, é preciso interferir em todas aspossibilidades que elevem a glicose no sangue e a terapia medicamentosa tem um papel decisivo para reverter caminhos metabólicos, devendo-se escolher qual a melhor terapia para determinada pessoa.

A entrevista

Que avanços podem ser destacados hoje no tratamento do diabetes?

Os avanços abrangem os mais variados tópicos relacionados ao diabetes, como os ligados às mudanças no estilo de vida, como adequação dietética e combate ao sedentarismo, as novas drogas para o tratamento, sejam substâncias em forma de comprimidos ou injetáveis, as extraordinárias conquistas tecnológicas, como a melhora das bombas de insulina, os utensílios atuais para avaliação glicêmica e os estudos direcionados à cura do diabetes.

O maior desenvolvimento no tratamento traz avanços no campo do remédio, da aplicação do hormônio da insulina ou na opção por uma alimentação ideal para os portadores da doença?

Por ser uma doença sistêmica com repercussões em todo o organismo, todos esses tópicos se enquadram nos avanços. Temos que buscar um bom controle glicêmico, pois é uma prioridade indiscutível. Este objetivo é alcançável com a participação do paciente e o arsenal terapêutico que temos. O ponto principal é a motivação para mudar o comportamento, tanto em termos de alimentação, quanto de atividade física. Faz-se necessário um reequilíbrio alimentar realista e personalizado, atentando para não haver excessivamente restrições estritas para não correr o risco de abraçar frustrações e transtornos alimentares. Algo a ser buscado é criar mudanças na dieta para mantê-la a longo prazo, restaurando a regulação fisiológica do apetite e trabalhando as sensações alimentares.

Na verdade, parece que sempre comemos mais do que precisamos?

A adoção de um plano alimentar saudável é indiscutível, ou seja, a atenção nutricional é fundamental para o controle metabólico e a melhora na qualidade de vida do Diabético. É importante lembrar que toda terapia nutricional deve ser individualizada, respeitando o estágio da vida em que a pessoa se encontra, seu estado nutricional, as morbidades associadas, a presença ou não do desequilíbrio metabólico e/ou tratamento medicamentoso.

Há possibilidade de, num futuro próximo, os diabéticos não precisarem mais furar o dedo para medir a glicemia?

Hoje já dispomos de dispositivos, como os sensores que são colocados usualmente no braço e que fazem a medição da glicose a cada 5 minutos durante duas semanas. A “furada” no dedo fica restrita para determinadas ocasiões para calibração do aparelho. Mais recentemente foi lançado o aparelho “Eversense – Continuous Glucose Monitoting System (CGM)” que é um sistema implantável de longa duração atualmente autorizado (por 90 dias nos Estados Unidos e 180 dias na Europa). Um estudo multicêntrico – Promise – foi projetado para avaliar esse novo sistema em pessoas com diabetes por um período de 180 dias.

Há uma associação direta entre o diabetes e a obesidade?

Sim. A obesidade é uma doença universal, de prevalência crescente, proporções epidêmicas, sendo um dos principais problemas de saúde pública da sociedade moderna. Ela aumenta risco de inúmeras doenças crônicas como diabetes, dislipidemias, doenças cárdio e cerebrovasculares, neoplasias, doenças articulares, esteatose hepática, apneia do sono, etc. inúmeros estudos têm demonstrado a relação direta entre aumento da obesidade e aumento do diabetes. Estudiosos sinalizam que pelo menos três grandes itens agridem o organismo humano: sedentarismo, poluição do meio ambiente e alimentação industrializada.

Como o senhor vê a cirurgia metabólica, que trouxe uma série de benefícios especialmente no que diz respeito ao controle da glicemia?

A cirurgia metabólica tem-se mostrado como um dos grandes avanços no tratamento da obesidade e, consequentemente, de inúmeras comorbidades relacionadas, como diabetes, hipertensão, dislipidemias, etc. Por exemplo, para obesidade grave a cirurgia é mais eficaz a médio e longo prazo do que o tratamento médico tradicional e deve ser bem preparada e bem seguida em nível multidisciplinar.

Por que é tão importante para o paciente evitar a ingestão de carboidratos?

Esse é um item que precisa ser bem esclarecido. Em primeiro lugar, o planejamento alimentar tem que levar em conta as preferências individuais e as necessidades metabólicas de cada paciente e deve ser explicado para o mesmo que isso é um tratamento e implica em mudança de estilo de vida. Na realidade, não se tem um consenso a respeito da melhor dieta para o diabético. Deve-se estar atento para a quantidade e ao tipo dos macronutrientes, principalmente os carboidratos. Existe o chamado índice glicêmico onde se procura ver o efeito que determinado tipo de carboidrato exerce sobre a glicose do sangue, como também temos a contagem de carboidratos; ambas são estratégias usadas no manejo dietético do diabético.  A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda cerca de 50% do valor calórico total composto por carboidratos, principalmente os complexos. Procura-se buscar o peso saudável incessantemente, tendo-se em vista que a obesidade aumenta a resistência à insulina e dificulta o controle do diabetes. Uma perda de peso oderada (5 a 10%) melhora o controle glicêmico, reduz o risco de doença cardiovascular e pode prevenir ou retardar o desenvolvimento do diabetes nos pacientes tidos como intolerantes à glicose.

Algum tipo de carboidrato é mais nocivo do que outro? Há alguma classificação?

Os carboidratos simples (por ex. o açúcar comum) são rapidamente absorvidos no retrato gastrointestinal e elevam rapidamente a glicose sanguínea; os carboidratos complexos (por ex. alimentos integrais) têm umaabsorção mais lenta e não elevam rapidamente a glicemia. Nesse sentido, a preferência deve ser pelos carboidratos complexos.

Açucares como os das frutas, mel, rapadura, mascavo também fazem tanto mal ao diabético quanto os refinados?

Os carboidratos do mel, rapadura, mascavo, refrigerantes, açúcar refinado são carboidratos simples e como são rapidamente absorvidos, produzem mais precocemente uma sensação defome. Possuem alto ou moderado valor de índice glicêmico e devem ser evitados pelos diabéticos e por quem deseja emagrecer. Na realização do Censo Brasileiro do Diabetes realizado em 12 capitais do país, constatou-se que cerca de 21% dos diabéticos de João Pessoa faziam uso de açúcar refinado, o que contribuía para o controle insatisfatório da doença.

É possível controlar os níveis de glicose no sangue apenas com o cuidado redobrado com a alimentação?

Cada caso é um caso e existem estudos mostrando que mudanças no estilo de vida, diga-se alimentação saudável e prática, de atividade física, podem retardar o aparecimento do diabetes nas pessoas pré-diabéticas. A tendência atual é de que, quando temos o diagnóstico do diabetes, precisamos interferir em todas as possibilidades que elevem a glicose no sangue. A terapia medicamentosa tem um papel decisivo para reverter caminhos metabólicos, devendo-se escolher qual a melhor terapia para determinada pessoa. Não podemos pensar em tratar a doença e sim uma pessoa que por vários mecanismos tem a sua glicose elevada.

Qual a importância do exercício físico para o controle da glicemia?

O exercício físico é um dos pilares do tratamento do diabetes. A atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina, o controle glicêmico e reduz fatores de risco cardiovascular, como hipertensão e dislipidemia. O condicionamento aeróbico reduz ainda o risco de doença cardiovascular. A orientação prévia é de que a atividade física deve ser precedida de uma avaliação cardiovascular, particularmente nos diabéticos com idade superior a 35 anos de idade.

A que sintomas uma pessoa deve estar sempre atenta em relação ao diabetes?

A presença de sintomas pode ter relação com os níveis de açúcar no sangue. Glicemias pouco elevadas não costumam apresentar maiores sintomas. No entanto, glicemias elevadas podem desencadear sintomas como urinar muito, tomar muita água e perder peso. Essas manifestações são mais vistas no diabético tipo 1 que apresenta início abrupto.

Quais as diferenças entre os tipos 1 e 2 do diabetes?

Embora ambos os tipos possam surgir em qualquer idade, usualmente o tipo 1 acomete mais crianças e adolescentes, enquanto o tipo 2 costuma apresentar-se mais comumente a partir dos 30- 40 anos de idade. Por isso, antigamente eram conhecidos como diabetes infantojuvenil e diabetes do adulto. Saliente-se que o tipo 2 é o de maior prevalência, acometendo cerca de 90% de todos os casos de diabetes, enquanto cerca de 10% são do tipo 2. O tipo 1 costuma aparecer de forma abrupta com perda de peso, urina em abundância e ingere muita água. Já o tipo 2 pode ser silencioso e ser descoberto em exames de rotina.

O senhor é otimista em relação a uma solução definitiva de controle ou até mesmo de cura para o diabetes?

Os progressos na imunologia, na genética e na farmacologia tem mostrado que investigações e intervenções terapeutas mostram que medicamentos e técnicas em busca de uma possibilidade de cura. Transplantes de ilhotas do pâncreas, terapia genica/células tronco, estudos imunológicos, e outros avanços reacendem a esperança para uma solução definitiva do Diabetes. Por outro lado, um novo campo de estudos está em franca expansão, qual seja a diversidade e riqueza da microbiota. No homem, estudos têm comprovado que o excesso de peso, Diabetes tipo II e hipertensão arterial estão associados a uma diminuição da Akkermansia muciniphila, bactéria presente na microbiota intestinal, enquanto que uma microbiota rica nessa bactéria tende a ter IMC baixo, marcadores hepáticos diminuídos menos resistência à insulina. A Metformina, possivelmente a droga mais usada no tratamento do diabetes, modifica a composição e função da flora intestinal e trabalhos especiais estão sendo desenvolvidos no sentido de saber como a restauração do microbiota intestinal contribuirá para o controle do diabetes.