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‘Eu mereço’: comer por razões emocionais é um problema? Especialista ensina como lidar

‘Eu mereço’: comer por razões emocionais é um problema? Especialista ensina como lidar

Comer para aliviar o estresse, a ansiedade ou a tristeza pode se tornar um hábito prejudicial quando a comida vira a principal forma de lidar com as emoções

A alimentação emocional consiste em comer para lidar com as emoções. Esse comportamento não é considerado um transtorno psicológico, mas evidencia a necessidade de encontrar outras formas de enfrentar sentimentos negativos. Afinal, o alívio proporcionado pela comida — geralmente rica em calorias, gordura e açúcar — costuma ser apenas temporário.

Depois de levar uma bronca do chefe, chegamos em casa e comemos vários biscoitos de chocolate. Ou estamos estudando para uma prova, ansiosos e entediados, e acabamos abrindo a geladeira o tempo todo. Também pode acontecer de passarmos por um período de muito estresse e, por isso, comprarmos mais salgadinhos, doces ou refeições prontas do que o habitual.

Essas situações, tão comuns no dia a dia, têm algo em comum: não comemos porque estamos fisicamente com fome, mas para lidar com as emoções. Esse comportamento é conhecido como alimentação emocional. Mas até que ponto isso pode se tornar um problema? E como evitá-lo?

Comer para enfrentar emoções negativas

A alimentação emocional é um fenômeno bastante comum e, por si só, não é considerada um transtorno psicológico. Pesquisas mostram que muitas pessoas recorrem ocasionalmente à comida para lidar com emoções negativas. Estima-se que isso aconteça com cerca de 40% a 45% dos adultos e aproximadamente 30% dos adolescentes.

Esse comportamento costuma surgir em momentos de estresse, ansiedade e tristeza, e foi observado de forma marcante durante a pandemia de Covid-19.

Relacionar comida e emoções faz parte da vida de muitas pessoas. Afinal, é comum reunir familiares e amigos em almoços e jantares para celebrar ocasiões especiais. O problema não está em recorrer à comida de vez em quando, mas em transformá-la na principal estratégia para enfrentar o sofrimento emocional. Isso porque o conforto proporcionado pelos alimentos é passageiro e pode ser seguido por sentimentos de culpa.

Além disso, esse hábito costuma estar associado ao consumo frequente de alimentos altamente calóricos, ricos em açúcar e gordura. A longo prazo, isso pode prejudicar a saúde, aumentando o risco de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. A alimentação emocional também está relacionada a um maior risco de desenvolver transtornos alimentares.

Como lidamos com as emoções e qual é o papel da comida?

Existem diversas maneiras de lidar com as emoções. Conversar com alguém, praticar atividade física ou buscar distrações são algumas delas. Comer também pode exercer essa função. Mas o que acontece quando a comida se torna o principal recurso para aliviar o sofrimento?

Há anos a comunidade científica busca responder a perguntas como: pessoas que têm dificuldade para regular as emoções tendem a recorrer mais à alimentação emocional? Essa relação ocorre apenas entre pessoas com transtornos alimentares?

Até pouco tempo, não estava claro se a alimentação emocional também era frequente entre pessoas sem transtornos psicológicos e em diferentes faixas etárias. Além disso, muitos estudos haviam sido realizados com grupos muito específicos, como pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, o que dificultava generalizar os resultados para a população em geral.

Por isso, pesquisadores realizaram uma meta-análise — estudo que reúne e analisa os resultados de diversas pesquisas — para obter conclusões mais robustas. O objetivo era compreender em quais condições a dificuldade para regular as emoções levava as pessoas a comer mesmo sem sentir fome.

O que a pesquisa revelou?

A análise apontou resultados importantes:

  • Pessoas que têm mais dificuldade para lidar com emoções negativas apresentam maior tendência a recorrer à comida.
  • Essa relação é observada tanto em pessoas com transtornos psicológicos quanto naquelas sem qualquer diagnóstico.
  • O padrão se repete entre pessoas de diferentes idades e gêneros.
  • A associação ocorre com emoções negativas, como tristeza, ansiedade e tédio, mas não com emoções positivas.

Aprender a regular as emoções faz diferença

Os resultados sugerem que desenvolver habilidades para lidar melhor com emoções negativas pode trazer benefícios para diferentes aspectos da saúde, e não apenas para a relação com a alimentação. Eles também reforçam a importância de estimular esse aprendizado desde a infância.

Existe a crença de que comer por emoção é um comportamento predominantemente feminino. Embora as mulheres realmente apresentem maior tendência a esse tipo de alimentação, a pesquisa mostrou que a relação entre dificuldade de regulação emocional e alimentação emocional ocorre de maneira semelhante entre homens e mulheres.

O que pode ser feito?

Intervenções psicológicas eficazes voltadas à regulação emocional incluem estratégias que já demonstraram benefícios para a saúde mental e para a qualidade de vida. Entre elas estão aprender a identificar as próprias emoções, reconhecer as situações que as desencadeiam, desenvolver formas mais saudáveis de enfrentar o estresse e praticar mindfulness (atenção plena).

Esse aspecto é importante porque a dificuldade para regular emoções não afeta apenas a alimentação. Ela também está relacionada a problemas como ansiedade e depressão. Na psicologia, esse fenômeno é conhecido como efeito transdiagnóstico, ou seja, atuar sobre determinados fatores pode ajudar a prevenir diferentes transtornos ao mesmo tempo.

Quando a sensação é de perda de controle sobre as próprias emoções, existem tratamentos eficazes. Evidências científicas mostram que a terapia cognitivo-comportamental, o protocolo unificado, a terapia comportamental dialética e a prática de mindfulness ajudam a melhorar a regulação emocional. Além disso, as três últimas abordagens mantêm seus efeitos mesmo após o término do tratamento, proporcionando benefícios duradouros.

Em resumo, aprender a lidar melhor com as emoções pode evitar diversos problemas no futuro. Da próxima vez que surgir a vontade de comer sem estar com fome, vale fazer duas perguntas a si mesmo: eu consigo identificar o que estou sentindo agora? Existe outra maneira de me sentir melhor além de comer?

* Itziar Alonso Arbiol é professora catedrática de Psicologia da Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea; Aitziber Pascual Jimeno é professora universitária adjunta (UPV/EHU), especialista em emoções, da Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea; Jara Mendia é doutoranda em Psicologia; José J. Pizarro Carrasco é professor e pesquisador em Psicologia Social da Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea e Susana Conejero López é professora de Psicologia da Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea.

* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.