Cientista vê esgotamento dos recursos naturais do planeta e decreta fim do modelo econômico atual
O físico Paulo Artaxo participou na última quinta-feira (10) do Fórum Diálogos para o futuro, no Centro de Convenções
Reconhecido mundialmente por suas pesquisas pioneiras sobre mudanças climáticas, Amazônia e física de aerossóis atmosféricos, o cientista e físico brasileiro Paulo Artaxo foi categórico, na última quinta-feira (10), em sua participação no Fórum Especial “Diálogos para o futuro: professores eméritos e Honoris Causa frente aos desafios socioambientais”, organizado pela Diretoria Executiva de Sustentabilidade (DExS) da Unicamp e pela Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec), com apoio do Gabinete do Reitor. A cerimônia de abertura contou com a participação do reitor Paulo Cesar Montagner, do coordenador-geral da Universidade, Fernando Coelho, da pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura, Sylvia Furegatti, do diretor de Sustentabilidade, Roberto Donato e da secretária adjunta do Clima e Meio Ambiente da Prefeitura de Campinas.
Paulo Artaxo disse que a humanidade atingiu o esgotamento dos recursos naturais do planeta e do modelo econômico atual. Segundo o pesquisador, a superação da crise exige uma nova governança global e a construção de uma sociedade guiada pelos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ao lado dos pesquisadores Connie McManus e Thomas Michael Lewinsohn, Artaxo participou da mesa redonda “Desafios de habitar um planeta mais quente” e lembrou que o painel intergovernamental de mudanças climáticas aponta para um aumento médio de temperatura no planeta de 2.8º C. Como a Terra é 75% oceano, as áreas continentais vão se aquecer em torno de 3.5º C e 4.7ºC. “Não precisa ser muito esperto para perceber o impacto que isso vai ter na nossa economia e na saúde das pessoas”, diz.
De acordo com o cientista da Universidade de São Paulo (USP), o Brasil é um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. “Três graus de aumento de temperatura em Cuiabá ou Teresina têm um impacto muito maior que três graus de temperatura em Estocolmo, Moscou ou Montreal. Esta ficha precisa cair para a sociedade brasileira como um todo”, alerta.
Artaxo destaca que o avanço da aridez no Brasil Central e no Nordeste ameaça a segurança hídrica, a produtividade agrícola e as exportações. Com isso, milhões de pessoas de baixa renda e em situação de vulnerabilidade ficarão para trás caso não haja intervenções sociais diretas e uma mudança estrutural. “Queira ou não queira, goste ou não goste, esse modelo vai ter de mudar”, avisa o físico. “E essa mudança vai muito além de eliminar a exploração de combustíveis fósseis ou pôr fim ao desmatamento”, adverte.
A humanidade, explica o cientista, vive um momento de transição – assim como ocorreu em outros períodos da história, como na época do feudalismo, da revolução industrial, da 1ª e da 2ª guerras mundiais, até que se consolidasse o modelo de governança existente hoje. Artaxo também lembrou que os últimos cinco relatórios do Fórum Econômico Mundial – que reúne economistas em Davos, na Suíça, todo início de ano – mostram que, dos dez maiores riscos para o sistema econômico, cinco estão associados à questão ambiental e climática e ao esgotamento de recursos naturais. “Vejam que isso não é reconhecimento da ciência ou de ambientalista. É uma avaliação de economistas, que estão lá em Davos para fazerem os bilionários ganharem ainda mais dinheiro”, diz.

“Trata-se de uma tarefa gigantesca, mas precisamos construir uma nova sociedade, baseada nos 17 ODS, do qual 196 países são signatários, incluindo o Brasil.” Nesse contexto, modelos de adaptação com características locais serão necessários. “Soluções para Manaus diferem das de Caxias do Sul”, considera o cientista.
Erros históricos
A professora emérita da UnB Connie McManus, doutora pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, lembrou que o colapso de civilizações passadas (como a dos Maias, por exemplo) demonstra os riscos de se ignorar os limites ambientais. Para ela, a crise atual repete erros históricos.
A professora avalia que os problemas ambientais, de saúde e de produção de alimentos não podem ser tratados isoladamente. “Para produzir um litro de leite você consome mil litros de água. Para cada kg de frango são 4 mil; de suíno, são 6 mil, e para cada kg de carne, são consumidos 15 mil litros de água.” McManus também recomendou às universidades maior interdisciplinaridade no ensino e na pesquisa. Para a professora, as instituições precisam formar profissionais capazes de traduzir o conhecimento científico para a linguagem dos formuladores de políticas públicas e da sociedade.
O professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp Thomas Michael Lewinsohn, que trabalha com ecologia e conservação, disse que o clima deixou de ser um tema setorial pertinente apenas ao Ministério do Meio Ambiente. Para Lewinsohn, o clima deve ser o princípio organizador e condicionante de todas as outras áreas – economia, saúde, infraestrutura, defesa e desigualdade social. Ele também fez um alerta: a degradação ambiental atingiu patamares em que a recuperação das condições originais deixa de ser possível pela simples mudança de processos atuais.

Outros temas do Fórum
A segunda mesa do dia discutiu o futuro urbano: espaço, clima e cidadania, contando com as presenças do secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Vahan Agopyan, e as professoras Maria Stella Bresciani, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, e Ermínia Maricato, da Faculdade de Arquiteratura e Urbanismo (FAU) da USP.
O período da tarde foi aberto com a mesa “Imaginar o amanhã: cultura, justiça e a construção do Brasil”, que contou com as presenças do ex-reitor da Unicamp, Carlos Vogt, de Nilma Bentes, da Universidade Federal do Pará (UFPA) e de Élide Rugai Bastos (IFCH).
O painel 4 – “A nova (des) ordem mundial: economia, diplomacia e governança na era global” – encerrou o fórum. A mesa foi composta por Edna Castro (UFPA), Gustavo Lins Ribeiro (UnB) e Luiz Gonzaga Belluzzo, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp.
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