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Como os ODS e o ESG podem transformar a Gestão Pública

Como os ODS e o ESG podem transformar a Gestão Pública

O relógio da sustentabilidade global corre rápido e o ano de 2030 desponta no horizonte não mais como um futuro distante, mas como a linha de chegada de um compromisso civilizatório. Em dezembro de 2015, 192 países associados à Organização das Nações Unidas (ONU) assinaram um pacto ambicioso para substituir os antigos 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Nascia ali a Agenda 2030, estruturada em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas 169 metas associadas.

No entanto, um plano global só ganha vida quando aterrissa no território. É nas cidades, nos estados e nas instâncias do governo federal que as políticas públicas se materializam. É nesse cenário que o papel do gestor público se torna crucial. O grande desafio contemporâneo das mais diversas instituições governamentais não é apenas conhecer os ODS, mas saber integrá-los aos princípios da cultura ESG (do inglês Environmental, Social and Governance – Ambiental, Social e Governança), transformando intenção em ação mensurável.

A intersecção: ODS como destino, ESG como bússola

A origem dos ODS e do ESG é umbilicalmente ligada às iniciativas da ONU. Embora tenham nascido com focos ligeiramente distintos — os ODS voltados para compromissos de nações e políticas públicas, e o ESG para o mercado financeiro e corporativo —, hoje eles convergem para um mesmo propósito: a criação de uma sociedade próspera, ambientalmente regenerativa e socialmente justa.

A sustentabilidade não é mais uma pauta exclusiva de ativistas ambientais; ela é, hoje, o único modelo viável de administração pública e de sobrevivência econômica. Os ODS e o ESG oferecem a visão e o método. O tempo urgência nos cobra a atitude. 2030 é logo ali.

Dal Marcondes

Para a gestão pública, compreender a diferença e a complementaridade entre esses conceitos é o primeiro passo para a eficiência. Os ODS representam um conjunto de indicadores e metas coletivas. Eles dizem aonde precisamos chegar. Já os princípios ESG funcionam como um padrão de conduta. Eles determinam como devemos caminhar.

O ESG forma um arcabouço de regras éticas, legais e de transparência. Na esfera pública, compromissos ESG estão fortemente lastreados na boa governança (o “G” da sigla). Sem uma governança ética, transparente e sujeita a auditoria e controle social, os pilares ambiental (“E”) e social (“S”) desmoronam.

As 169 metas: O “Mapa do Caminho” do Gestor

Os 17 ODS abrangem a totalidade dos desafios humanos. Eles vão desde as necessidades mais urgentes, como a Erradicação da Pobreza (ODS 1) e o Combate à Fome (ODS 2), passando por infraestrutura e economia — como Trabalho Decente (ODS 8) e Indústria e Inovação (ODS 9) —, até a proteção imperativa da Vida na Água (ODS 14), Vida Terrestre (ODS 15) e a Ação Climática (ODS 13). Tudo isso amarrado pela necessidade de Paz, Justiça e Instituições Eficazes (ODS 16) e Parcerias Globais (ODS 17).

Contudo, gerir 17 macro-objetivos seria abstrato demais. É por isso que existem as 169 metas. Elas são o verdadeiro “mapa do caminho”.

Tomemos como exemplo o ODS 1 (Erradicação da Pobreza). Uma de suas metas específicas é garantir recursos e programas para melhorar a vida de pessoas que vivem em situação de extrema pobreza (com renda inferior a 1,9 dólar por dia). Quando um município desenha um programa de transferência de renda ou capacitação profissional focado nesse público, ele está materializando a meta da ONU.

Se aplicarmos a lente do ESG a essa mesma política pública, o gestor precisará garantir que o trabalho tenha um planejamento ético, que a população beneficiária seja ouvida e respeitada (Social), que haja total transparência de propósitos, lisura nas licitações e auditoria rigorosa sobre os resultados alcançados (Governança).

O Poder da Comparabilidade e da Ciência de Dados

Um dos aspectos mais inovadores de adotar a Agenda 2030 na gestão pública é a padronização global. O fato de as metas dos ODS serem quantificáveis permite algo inédito: a comparabilidade.

Se dois municípios com perfis demográficos e orçamentos similares adotam políticas diferentes para universalizar o acesso à água potável e saneamento (ODS 6), os indicadores da ONU permitem avaliar com clareza qual metodologia foi mais eficiente. Isso inaugura a era da política pública baseada em evidências. Se a cidade vizinha obteve um impacto social maior gastando menos recursos, a governança transparente exige que a metodologia mais eficiente seja copiada e adaptada. O achismo cede lugar aos dados.

Como implementar os ODS na máquina pública?

A transição de um modelo tradicional de gestão para um modelo baseado nos ODS e no ESG exige método. Governos e autarquias podem seguir um roteiro prático:

  1. Diagnóstico Estratégico: Antes de agir, é preciso mapear a realidade. O gestor deve identificar quais ODS são mais críticos para o seu território ou secretaria. Um município no semiárido pode priorizar a gestão da água (ODS 6) e o combate à desertificação (ODS 15), enquanto uma metrópole focará em cidades sustentáveis (ODS 11) e redução de desigualdades (ODS 10).
  2. Institucionalização no Orçamento: Metas sem orçamento são apenas desejos. Os ODS escolhidos e suas metas mensuráveis devem ser inseridos obrigatoriamente no Plano Plurianual (PPA) e na Lei Orçamentária Anual (LOA).
  3. Engajamento e Inovação: Problemas complexos exigem soluções colaborativas (ODS 17). O poder público não resolverá tudo sozinho. É vital engajar a sociedade civil, as universidades e a iniciativa privada por meio de parcerias e metodologias ágeis de inovação.
  4. Monitoramento e Transparência: Implementar painéis de controle abertos ao público. Se a meta é reduzir a emissão de gases de efeito estufa (ODS 13) por meio da eletrificação da frota de ônibus, os cidadãos devem poder acompanhar a evolução dessa troca em tempo real.

Um convite à ação

Não faltam ferramentas para gestores públicos liderarem a transição para um modelo sustentável. O que muitas vezes falta é a decisão política de começar.

Como exercício prático, gestores de todos os escalões deveriam, hoje mesmo, realizar uma simples simulação: Escolha um único ODS ligado à sua pasta. Eleja uma meta específica. Faça um diagnóstico honesto de onde seu município ou estado está agora em relação a ela. Calcule a distância que falta percorrer até 2030. E, por fim, descreva quais políticas, orçamento e parcerias serão necessários para cruzar a linha de chegada.