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Abelhas nativas impulsionam produção de acerola no Semiárido

Abelhas nativas impulsionam produção de acerola no Semiárido

Abelhas nativas podem desempenhar um papel decisivo na produção de acerola no Semiárido brasileiro. Pesquisas conduzidas pela Embrapa Semiárido (PE) indicam que o manejo de abelhas solitárias do gênero Centris é capaz de aumentar a produtividade da cultura entre 32% e 103%, dependendo das condições de cultivo. Os estudos foram realizados no Vale do São Francisco e apontam medidas práticas para ampliar a presença desses polinizadores nos pomares, concentradas principalmente em dois pontos: garantir recursos florais e oferecer locais adequados para a instalação de ninhos.

Os resultados vieram após a instalação de 840 ninhos-armadilha em plantações irrigadas de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). A adesão das abelhas surpreendeu os pesquisadores: 88,21% das estruturas foram ocupadas, um índice superior ao registrado em pesquisas anteriores. O desempenho está ligado ao comportamento das abelhas da tribo Centridini, especialistas na coleta de óleos florais e responsáveis por 91,7% das visitas às flores de acerola nas áreas analisadas. Segundo a pesquisadora Lúcia Kiill, coordenadora do estudo, a presença desses insetos faz diferença mesmo em culturas autopolinizadas, como é o caso da aceroleira. “Nas áreas estudadas na Fase I do projeto, os ganhos foram expressivos, o que mostra o impacto direto desses insetos sobre a frutificação e o desenvolvimento dos frutos da aceroleira”, afirma.

abelha flor
Foto: Dustin Humes | Unsplash

O Brasil ocupa posição de destaque nesse cenário: é o maior produtor e exportador mundial de acerola (foto acima), com cerca de 80% da produção concentrada no Nordeste, especialmente nos estados de Pernambuco, Ceará e Sergipe. Nos perímetros irrigados de Petrolina e Juazeiro, a cultura ocupa aproximadamente 7 mil hectares e permite até oito colheitas por ano. A produção abastece tanto o mercado in natura quanto a indústria de sucos e polpas, garantindo renda constante para pequenos e médios produtores da região.

Os polinizadores são essenciais para o funcionamento de sistemas agrícolas. O estudo revela que as flores da aceroleira são visitadas principalmente por abelhas do gênero Centris, que coletam os óleos presentes nas flores para construir ninhos e alimentar suas larvas. Durante essa atividade, ocorre a transferência de pólen entre as flores, o que aumenta a taxa de frutificação e também o peso dos frutos. Na primeira fase do projeto, foram registradas 11 espécies de abelhas visitando a aceroleira. Entre elas estão Centris aenea, C. tarsata, C. analis, C. obsoleta e C. maranhensis. A espécie Centris aenea se destacou, respondendo por 95% das visitas às flores e demonstrando forte fidelidade à cultura. Ao contrário das abelhas melíferas, as espécies do gênero Centris vivem de forma solitária. Cada fêmea constrói seu próprio ninho, normalmente em cavidades naturais ou em perfurações no solo. Durante a pesquisa, foram encontrados ninhos sob as copas das plantas e em barrancos de canais de irrigação, evidenciando a importância de áreas de refúgio próximas às plantações.

Para favorecer a presença dessas abelhas nos pomares, o estudo recomenda medidas relativamente simples. Uma delas é manter, nas áreas ao redor das plantações, espécies vegetais que forneçam pólen, néctar e óleos florais ao longo de todo o ano — especialmente nos períodos em que a aceroleira não está em floração. Entre as plantas indicadas estão o murici, a embira-rosa, o pau-ferro, a falsa-dormideira e a malva-rasteira. A preservação de áreas de Caatinga também é apontada como fundamental para garantir recursos adicionais às abelhas. Outra estratégia envolve oferecer locais adequados para a nidificação. Nos experimentos, foram utilizados ninhos-armadilha feitos com blocos de madeira perfurados. Os melhores resultados ocorreram com cavidades entre 10 e 12 milímetros de diâmetro e profundidade de 10 a 14 centímetros. “Orientamos que os ninhos-armadilha sejam instalados em locais sombreados e protegidos, preferencialmente próximos às áreas onde os insetos nasceram. Essa prática estimula o retorno e a permanência das abelhas”, explica Kiill.

A próxima etapa da pesquisa será realizada em parceria com a Niagro, agroindústria que atua no processamento de acerola na região, além de outras 12 propriedades do Vale do São Francisco. O objetivo é validar o uso dos ninhos-armadilha para garantir a polinização tanto em cultivos convencionais quanto orgânicos da aceroleira. As áreas participantes estão sendo avaliadas quanto à cobertura vegetal, disponibilidade de água, infraestrutura e conexão com fragmentos de Caatinga — fatores que influenciam diretamente a permanência das abelhas. O projeto também inclui ações de capacitação voltadas a produtores, técnicos, jovens e mulheres rurais, com foco na disseminação de práticas de manejo e no estímulo à conservação de polinizadores. Para a pesquisadora, a presença de abelhas nativas nas áreas agrícolas é um sinal importante de equilíbrio ambiental. “Preservá-las e manejá-las é investir em produtividade com responsabilidade. Esperamos que esse trabalho fortaleça a adoção de práticas que garantam a conservação dos polinizadores e ampliem os ganhos dos produtores do Semiárido”, conclui.