Antártida registra temperatura mais fria desde 2012. Por que local é tão gelado?
Medição feita em estação científica isolada reforça a complexidade dos fenômenos atmosféricos em meio ao avanço das mudanças climáticas
Enquanto grande parte do planeta enfrenta ondas de calor e incêndios florestais, a Antártida registrou, em julho, a menor temperatura observada na Terra desde 2012. A estação de pesquisa Concordia, localizada no interior do continente antártico, marcou -84,1°C no dia 18, segundo dados obtidos pelo Instituto Polar Francês Paul-Émile Victor.
A medição foi registrada duas vezes, às 6h25 e às 6h34 no horário local, e representa o menor valor registrado no local nos últimos 13 anos. Embora temperaturas inferiores a -80°C sejam comuns durante o inverno antártico, cientistas destacam que o resultado chama atenção pela intensidade.
“Mesmo aqui, onde se espera frio extremo, temperaturas abaixo de -84°C são notáveis. Isso destaca o quão variável o clima antártico ainda pode ser”, afirma Gabriele Carugati, chefe da estação Concordia e integrante do Programa Nacional de Pesquisa Antártica da Itália (PNRA), em entrevista ao portal Live Science.
Um dos lugares mais isolados do planeta
A estação Concordia é considerada uma das bases científicas mais remotas do mundo. Instalada sobre uma camada de gelo com cerca de 3,3 quilômetros de espessura e situada a mais de 3.200 metros de altitude, ela fica a mais de mil quilômetros da costa antártica.
O seu isolamento é tão severo que os pesquisadores que permanecem na base durante o inverno ganharam o apelido de “astronautas do gelo”. Durante esse período, as condições climáticas impedem pousos e decolagens, deixando a equipe praticamente incomunicável por meses.
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Por isso, a estação também serve como laboratório para compreender os impactos físicos e psicológicos do confinamento. Um médico biomédico da Agência Espacial Europeia acompanha os cientistas para estudar como seres humanos reagem ao isolamento prolongado, em um cenário semelhante ao enfrentado por astronautas em missões espaciais.
Curiosamente, os pesquisadores da Concordia estão, em alguns aspectos, mais isolados do que os tripulantes da Estação Espacial Internacional, que orbita a aproximadamente 400 quilômetros da Terra. A base antártica está a cerca de 600 quilômetros da estação de pesquisa mais próxima.
Frio extremo não contradiz aquecimento global
Segundo Carugati, uma combinação de fatores contribui para o frio extremo: “Durante o inverno, não há luz solar por meses, a atmosfera é extremamente seca e estável e, sob céus claros, o calor escapa continuamente para o espaço porque não há nuvens, permitindo que as temperaturas caiam a níveis extraordinários”.
Mesmo diante do registro da temperatura excepcionalmente baixa, especialistas afirmam que o episódio não contraria as evidências do aquecimento global. Isso porque a mudança climática se refere a tendências observadas ao longo de décadas em escala planetária, e não a eventos isolados.
“As mudanças climáticas descrevem as tendências globais de longo prazo, enquanto eventos climáticos individuais ainda podem trazer frio excepcional”, indica Carugati. “Uma temperatura extremamente baixa em um local não contradiz o quadro mais amplo do aquecimento global.”
Não à toa, enquanto a Concordia registrava frio intenso, países da América do Norte e da Europa enfrentavam temperaturas elevadas. A Europa Ocidental teve o mês de junho mais quente de sua história recente, e incêndios florestais atingiram diversas áreas do Canadá, dos Estados Unidos, da França e da Espanha.
Recordes de temperatura na Antártida
Não é a primeira vez que a Antártida quebra recordes de frio. Em 2010, a Concordia já enfrentou um frio ainda mais intenso, tendo registrado -84,7°C. Essa marca permanece até hoje como seu recorde histórico.
Para fins de comparação, a menor temperatura oficialmente registrada no planeta foi observada em julho de 1983, na estação russa Vostok, também localizada na Antártida Oriental, quando os termômetros atingiram -89,2°C, segundo a Organização Meteorológica Mundial.
O contrário também é verdadeiro. Mesmo sendo o lugar mais frio da Terra, a Antártida não está imune ao aumento das temperaturas globais. Pesquisas recentes mostram que partes do continente, especialmente a Península Antártica, apresentam sinais acelerados de aquecimento.
Em março de 2024, uma onda de calor considerada sem precedentes elevou as temperaturas próximas à Concordia para -9,4°C. O registro é cerca de 18°C acima da máxima verificada anteriormente para o período.
