WWF: Bonn sinaliza que a agenda climática está passando do discurso para a implementação
Conferência na Alemanha reúne mais de 180 países e reforça o compromisso com o multilateralismo, embora alguns temas tenham avançado mais lentamente que o esperado
As negociações climáticas de junho foram encerradas nesta quinta-feira (18) em Bonn, na Alemanha, em mais um encontro que reforça a adesão dos países ao multilateralismo. Em um contexto internacional turbulento, prevaleceu a disposição para o diálogo, com salas de negociação cheias ao longo de toda a conferência, iniciada no dia 8 deste mês. Com mais de 180 países participantes, o encontro evidencia o compromisso contínuo com o processo multilateral, ainda que alguns temas da agenda tenham avançado de forma mais lenta do que o esperado.
As iniciativas lideradas pela Presidência da COP30 dominaram as discussões, incluindo o trabalho sobre a transição para o fim dos combustíveis fósseis, o fim do desmatamento e da degradação florestal, o financiamento climático e a transformação dos planos climáticos nacionais em entrega concreta. A Agenda de Ação reformulada pelo Brasil e testada durante a COP 30 ajudou a fortalecer essa mudança. A Presidência da COP31, que ocorrerá em novembro na Turquia e é copresidida pela Austrália, apresentou a proposta de criação de uma meta global de eletrificação como foco para a Agenda de Ação.
As negociações continuam sendo essenciais para o consenso, a legitimidade e a clareza jurídica. No entanto, em um cenário internacional marcado por incertezas geopolíticas e crescentes desafios à cooperação multilateral, todas as iniciativas capazes de impulsionar a ação climática devem ser aproveitadas. Isso inclui tanto os espaços formais de negociação, como a ONU, quanto mecanismos mais flexíveis de diálogo e cooperação, a exemplo dos mapas do caminho lançados pela Presidência brasileira da COP30 e da Conferência de Santa Marta, na Colômbia.
Esse movimento reflete uma dinâmica cada vez mais presente na governança climática internacional, muitas vezes descrita como um “multilateralismo em dois níveis”: de um lado, os processos intergovernamentais formais, responsáveis por construir regras, e compromissos; de outro, iniciativas voluntárias e coalizões de países, cidades, empresas e sociedade civil voltadas à apresentação de soluções concretas.
Fernanda de Carvalho, chefe global de política climática e energética do WWF Internacional, disse:
“As negociações continuam sendo a espinha dorsal do processo climático global – mas não podem se tornar uma sala de espera para a implementação. Bonn mostrou que a agenda climática está passando de promessas para entrega. Essa mudança é bem-vinda, mas ainda é lenta, desigual e frágil. As iniciativas das Presidências sobre combustíveis fósseis, florestas, financiamento e planos nacionais agora precisam de maior concretude: governança clara, recursos reais e forte responsabilização. Os governos devem chegar à COP31 prontos para transformar esse impulso em um pacote de entrega crível – que acelere a transição para longe dos combustíveis fósseis, interrompa e reverta o desmatamento e a degradação e direcione financiamento aos países e comunidades já na linha de frente.”
O papel da Presidência brasileira da COP30 nesse movimento não pode ser subestimado, diz Alexandre Prado, líder de mudanças climáticas do WWF-Brasil: “Sua coragem de trazer temas urgentes para a conversa climática definiu o cenário para o que vimos em Bonn. O sucesso – ou não – dessas iniciativas talvez só fique evidente no próximo Balanço Global. Mas elas nos colocaram falando sobre implementação real todos os dias, em todas as reuniões em Bonn, e isso já é significativo.”
“Bonn reforçou a importância do multilateralismo como um caminho para enfrentar uma crise que não conhece fronteiras. Em um cenário geopolítico cada vez mais complexo e difícil, ter 184 países, de um total de 194 Partes, presentes e engajados no processo é um sinal positivo de que existe disposição para construir soluções coletivas. Agora, o desafio é transformar esse engajamento político em resultados concretos, especialmente quando falamos de financiamento climático, que continua sendo uma agenda sem entregas concretas, embora seja um elemento central para viabilizar a implementação das ações de mitigação e adaptação nos países e comunidades que mais precisam”, destacou Tatiana Oliveira, líder de estratégia internacional do WWF-Brasil.
A agenda de adaptação esteve no centro dos debates em Bonn, em um momento em que os impactos da crise climática se tornam cada vez mais intensos e evidentes. Embora as negociações tenham refinado a Visão Belém-Addis, cujo objetivo é aprimorar os indicadores temáticos da Meta Global de Adaptação (GGA) até a COP32 na Etiópia, houve fortes divergências sobre o financiamento da adaptação e sobre o desenho da força-tarefa responsável pelos indicadores.
“O debate a respeito da composição da força-tarefa que vai refinar os 59 indicadores aprovados em Belém mostra a complexidade do processo de negociação, que foi tomado pelas divergências de visões entre países sobre financiamento para adaptação. Financiamento e apoio aos países em desenvolvimento é um debate central para a agenda climática e para a implementação de medidas adaptativas”, afirmou Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil.
Por outro lado, os oceanos mantiveram relevância política do último ano durante as negociações em Bonn, impulsionados pelo trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos por muitos governos e pelo forte engajamento da sociedade civil. Embora a agenda oceânica ainda enfrente desafios para ganhar espaço permanente nas negociações formais da UNFCCC, houve avanços no Diálogo sobre Oceanos e Mudanças Climáticas, que continuou mobilizando governos e organizações em torno da necessidade de integrar as soluções baseadas no oceano às estratégias globais de enfrentamento da crise climática.
“A liderança do Brasil no último ano foi fundamental para manter os oceanos no centro do debate climático. O esforço conjunto da sociedade civil ampliou esse espaço na vontade política da UNFCCC, e vimos esse impulso se refletir em Bonn. Agora, o desafio é garantir integração nas negociações e financiamento climático adequado para fortalecer soluções baseadas no oceano para mitigação, adaptação, resiliência e transição justa para as populações costeiras. Esperamos que as Presidências da COP31 transformem seu apoio em uma iniciativa de alto nível que incorpore o oceano de forma transversal às discussões com um caminho claro para a implementação”, frisou Marina Corrêa, líder da agenda de Oceanos do WWF-Brasil.
