Sem adaptação urbana, calor extremo pode afetar vida de metade das crianças no país, aponta estudo
Estudo internacional revela que a queima de combustíveis fósseis multiplicou por dez a exposição prolongada ao estresse térmico entre menores de 9 anos no país
As mudanças climáticas impulsionadas pela queima de combustíveis fósseis já impõem uma nova e perigosa realidade para a infância no Brasil. Um estudo da Vrije Universiteit Brussel (VUB), publicado na revista Science Advances, revela que 9,2 milhões de crianças brasileiras de até nove anos — ou 32% dessa população — estão expostas a pelo menos 30 dias adicionais de estresse térmico por ano.
O cenário agrava-se sob exposição prolongada: o número de crianças no país submetidas a cinco meses ou mais de calor perigoso saltou de 300 mil para 3,2 milhões, um aumento alarmante de dez vezes impulsionado unicamente pela ação humana.
A vulnerabilidade infantil ao calor úmido é a principal preocupação da pesquisa. Diferente dos adultos, o corpo das crianças aquece mais rápido e transpira com menos eficiência, dificultando o resfriamento natural e a evaporação do suor. Quando o índice térmico ultrapassa os 28°C à sombra, o estresse prolongado pode desencadear desidratação severa, insolação, falência de órgãos e até comprometer o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem diária.
Globalmente, a crise já expõe 560 milhões de crianças a esse mês extra de calor extremo, atingindo desproporcionalmente países do Sul da Ásia, Sudeste Asiático e África Ocidental. A discrepância geracional é evidente: em números absolutos, o impacto sobre crianças de até nove anos é três vezes maior do que o registrado na população idosa de 60 a 69 anos.
As projeções futuras elaboradas pelos cientistas indicam que o agravamento no Brasil dependerá das metas globais de emissão. Se o aquecimento do planeta for contido em 1,5°C, cerca de 38% das crianças brasileiras enfrentarão esse mês extra de calor. No entanto, caso o aumento atinja 2°C, essa proporção saltará para 49%, afetando praticamente metade das crianças do país.
Para os especialistas, a resposta exige adaptação urbana imediata. O pediatra e sanitarista Daniel Becker defende o investimento urgente em soluções baseadas na natureza. A criação de cidades amplamente arborizadas e com infraestruturas que ofereçam sombra, especialmente em regiões periféricas, é essencial para garantir qualidade de vida. Como destaca Rosa Pietroiusti, coautora do estudo, reduzir a dependência de fontes fósseis e proteger as populações vulneráveis deixou de ser uma meta para o futuro, tornando-se a principal emergência de saúde pública da atualidade.
