Reciclagem também é estratégia climática: o elo que ainda falta em muitas jornadas de descarbonização
Quando uma empresa começa a estruturar sua jornada de descarbonização, existe uma sequência que precisa ser respeitada: primeiro medir, depois reduzir e, por fim, compensar aquilo que não foi possível reduzir.
Parece simples, mas colocar essa lógica em prática exige olhar para praticamente toda a operação e cadeia de valor. Energia, matérias-primas, transporte, embalagens, resíduos, fornecedores. No fim, diferentes decisões de sustentabilidade encontram uma linguagem comum: carbono.
É justamente nesse ponto que uma agenda que muitas vezes caminha em paralelo à estratégia climática deveria ganhar mais espaço: a reciclagem.
Em 2025, eureciclo e Planton se uniram para responder a uma pergunta bastante objetiva: qual é o impacto da reciclagem nas emissões de gases de efeito estufa?
O estudo comparou dois caminhos para diferentes materiais. No caminho não circular, o resíduo é destinado ao aterro e uma nova matéria-prima virgem precisa ser extraída e beneficiada. No circular, o material é triado, reciclado e reintroduzido na cadeia produtiva, evitando parte da necessidade de matéria-prima virgem. A metodologia adotou o simple cut-off, recomendado pelo GHG Protocol, e princípios da ISO 14067 em escopo parcial.
O resultado ajuda a dimensionar algo que já sabíamos qualitativamente, mas que precisávamos conseguir medir.
Para cada tonelada de material reciclado, o estudo calculou um benefício médio de 2,059 toneladas de CO₂ equivalente em emissões evitadas.
Nem toda tonelada reciclada tem o mesmo impacto climático
Esse talvez seja um dos aprendizados mais interessantes do estudo.
O benefício varia significativamente de acordo com o material. Para uma tonelada reciclada, foram calculadas emissões evitadas de 0,354 tCO₂e para vidro, 1,348 para papel, 2,128 para plástico e 9,595 para metais. Quando olhamos especificamente para o alumínio, o resultado chega a 10,563 tCO₂e por tonelada.
Isso amplia a discussão sobre reciclagem.
Toneladas recuperadas continuam sendo uma métrica fundamental para entender circularidade. Mas, quando incorporamos a lente climática, conseguimos enxergar uma segunda dimensão daquele mesmo resultado.
Quanto de emissão estamos evitando ao manter esses materiais circulando?
Essa informação pode ajudar empresas a compreender melhor o impacto de suas decisões sobre embalagens, materiais e logística reversa e a conectar áreas que, dentro das organizações, muitas vezes ainda trabalham suas agendas separadamente.
Onde a reciclagem entra na jornada de descarbonização?
Aqui vale separar três frentes que costumam aparecer juntas, mas entram de formas diferentes na conta de carbono de uma empresa.
A primeira, e a de maior impacto de redução direta, é o uso de material reciclado pós-consumo, o PCR, nas próprias embalagens. Ao substituir matéria-prima virgem por material reciclado, a empresa reduz o fator de emissão do que compra e utiliza. Esse efeito aparece no próprio inventário, como redução das emissões de escopo 3.
A segunda é a gestão dos resíduos gerados na própria operação. Quando a empresa destina para reciclagem o que sobra da sua produção, em vez de enviá-lo ao aterro, também pode reduzir as emissões associadas a esses resíduos no seu inventário.
A terceira é a logística reversa de embalagens pós-consumo: a recuperação, por meio da compensação ambiental, de um volume equivalente às embalagens que a empresa colocou no mercado. Aqui existe uma distinção técnica importante. O crédito de reciclagem não deve ser tratado como crédito de carbono, neutralização ou desconto das emissões do inventário. O que ele representa é um impacto climático positivo adicional: emissões evitadas, reportadas separadamente.
Em resumo: o PCR reduz a pegada da embalagem, a gestão de resíduos reduz as emissões dos resíduos da operação e a logística reversa gera emissões evitadas, reportadas à parte, sem descontar o inventário.
Essa diferença não diminui a importância de nenhuma delas. Pelo contrário, torna a comunicação mais transparente. Uma jornada climática consistente começa pelo inventário, avança para a redução das emissões possíveis e usa a compensação de carbono para as residuais. Paralelamente, existem ações capazes de gerar outros benefícios climáticos mensuráveis, e a reciclagem é uma delas.
Uso de PCR: estratégia fundamental para descarbonizar o escopo 3
E é no escopo 3 que o PCR mostra seu maior potencial.
As embalagens aparecem em diferentes momentos da pegada de uma empresa: na compra dos materiais, nos resíduos da produção, no transporte e distribuição e no fim de vida dos produtos vendidos. Boa parte dessa discussão está no escopo 3, justamente onde estão as emissões da cadeia de valor e onde muitas organizações encontram alguns de seus maiores desafios de mensuração e redução.
Nesse contexto, o uso de PCR deixa de ser apenas uma escolha de material e se torna uma das alavancas mais concretas para descarbonizar o escopo 3. Ao substituir matéria-prima virgem por material reciclado, a empresa reduz a pegada associada às embalagens que compra e utiliza, justamente na parte da cadeia em que costuma ter menos controle direto.
Quando esses dados passam a conversar, sustentabilidade deixa de ser um conjunto de iniciativas isoladas e começa a funcionar como sistema.
O próximo passo é transformar impacto em informação útil
Depois da publicação do estudo, percebemos que havia uma oportunidade de avançar.
Saber que a reciclagem gera emissões evitadas é importante. Mas, para uma empresa tomando decisões, o dado se torna muito mais útil quando consegue responder a outra pergunta:
o que isso representa dentro da minha própria operação e da minha estratégia de sustentabilidade?
Por isso, a parceria entre eureciclo e Planton tem evoluído para levar essa inteligência também aos clientes, com relatórios personalizados que traduzem os resultados de reciclagem em informações sobre emissões evitadas.
Isso adiciona uma nova camada de valor à logística reversa.
A empresa não olha apenas para quanto compensou ou reciclou. Passa a ter elementos para compreender também o benefício climático associado àquele resultado, com metodologia e responsabilidade técnica.
Para os times de sustentabilidade, que precisam lidar simultaneamente com resíduos, emissões, água, efluentes, fornecedores, metas e reportes, transformar dados já existentes em informação estruturada pode fazer uma diferença relevante.
E, para a liderança, melhora a qualidade da conversa. Em vez de sustentabilidade aparecer apenas como obrigação ou custo, torna-se possível enxergar conexões entre compliance, circularidade, clima e estratégia.
Circularidade e clima precisam conversar mais
A discussão climática avançou muito na capacidade de medir carbono. A economia circular, por sua vez, nos ajuda a questionar por que continuamos extraindo recursos para produzir novamente aquilo que poderia permanecer em circulação.
Essas agendas não competem. Elas se complementam.
O estudo que desenvolvemos juntos mostrou que essa conexão pode ser quantificada.
O passo seguinte é reunir essas frentes em uma visão única. É nesse caminho que estamos avançando, com uma plataforma que combina reciclagem e carbono, uso de PCR e gestão de resíduos, para que as empresas acompanhem de forma integrada o que recuperam, o quanto incorporam de material reciclado e o quanto reduzem e evitam em emissões.
Quando circularidade e clima passam a ser geridos juntos, a reciclagem deixa de ser apenas uma métrica de toneladas e ganha o lugar que merece na estratégia climática das empresas.
Por Ana Flavia Gomes (LinkedIn), Head de Parcerias Institucionais da eureciclo, e Renan Rodrigues Vargas (LinkedIn), CEO da Planton.
