Poluição do ar pode agravar casos de covid-19, mostra estudo

Poluição do ar pode agravar casos de covid-19, mostra estudo

Exposição prolongada à poluição atmosférica pode levar ao agravamento do quadro clínico da covid-19. É o que mostra um estudo espanhol publicado neste mês na revista científica Environmental Health Perspectives.

A poluição do ar, principalmente nas grandes cidades, é um problema que pode trazer muitos efeitos adversos à saúde humana. Esse é o primeiro trabalho a realizar um estudo massivo de anticorpos contra covid-19 e associá-lo aos dados de exposição à poluição. O estudo partiu de uma amostra de mais de nove mil adultos, dos quais quatro mil foram convidados a doarem sangue para a pesquisa.

No total, 1 em cada 5 participantes tiveram resultados positivos nos testes sorológicos, que medem a presença de anticorpos no organismo. Dentre esses, 5% (cerca de 480) tiveram casos de covid-19 confirmados por testes clínicos ou pelo surgimento de sintomas. Cerca de 40% dos casos identificados entre os participantes do estudo eram assintomáticos.

A exposição dessas pessoas à poluição foi estimada a partir dos endereços dos participantes para o período de 2018 a 2019, antes da pandemia.

Profissional higieniza ambiente durante a pandemia de covid.19. Pessoas expostas à poluição desenvolvem casos mais severos de covid-19 (Fonte: Shutterstock)Profissional higieniza ambiente durante a pandemia de covid.19. Pessoas expostas à poluição desenvolvem casos mais severos de covid-19 (Fonte: Shutterstock)Fonte:  Shutterstock 

A avaliação da poluição foi feita usando quatro diferentes parâmetros: concentração de dióxido de nitrogênio (NO2), partículas finas, gás ozônio e carbono negro — este último, uma forma impura de carbono produzida durante a queima incompleta de combustíveis fósseis.

Além disso, o trabalho fez uso de dados recentes e de alta qualidade de vigilância climática em uma área geográfica relativamente pequena. Essas características garantem maior precisão dos resultados observados e são um avanço na metodologia usada na pesquisa.

A concentração de NO2 e de partículas de poeira foram os fatores mais associados ao agravamento da doença.

O dióxido de nitrogênio é liberado pelo escapamento de carros e foi um dos indicadores de poluição do artigoO dióxido de nitrogênio é liberado pelo escapamento de carros e foi um dos indicadores de poluição do artigoFonte:  Shutterstock 

Manolis Kogevinas, primeiro autor do artigo, conta que entre os cientistas havia uma desconfiança da relação entre esses dois fatores. Porém, o fenômeno é difícil de ser observado.

“O problema é que os estudos prévios eram baseados nos casos notificados, mas deixavam de fora os pacientes assintomáticos ou sem diagnóstico”, diz o pesquisador, que também é membro do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal).

Outra vantagem apontada do estudo foi que os pesquisadores conseguiram fazer um acompanhamento individual dos participantes e coletar dados antes do início das vacinações — que teriam dificultado as análises, caso contrário.

Não se sabe quais os motivos que podem levar ao agravamento da doença por esses fatores.

Uma teoria supõe que a poluição pode aumentar a suscetibilidade das pessoas ao desenvolvimento de sintomas respiratórios graves, incluindo a redução da resposta imune do organismo.

Outra, associa comorbidades decorrentes do contato com a poluição, como a diabetes e doenças cardiorrespiratórias, à piora dos sintomas.

Anna Hansell, pesquisadora da Universidade de Leicester, no Reino Unido, afirma que esse estudo representa um grande avanço na compreensão da covid-19.

Mas ela ressalta a necessidade de medidas de contenção da doença: “Da perspectiva de saúde pública, a vacinação e o uso de máscara representam medidas mais efetivas e poderosas para nos ajudar a sair dessa pandemia.”

Surpreendente também, para ela, foi a descoberta de que a poluição do ar não leva ao aumento no número de casos de infecção pela doença.

Pesquisas haviam mostrado, em animais, que a poluição favorece a entrada o coronavírus nas células, mas os dados não mostraram diferenças significativas do número total de infectados residindo em diferentes bairros, com maior ou menor poluição.

ARTIGO Environmental Health Perspectives: doi.org/10.1289/EHP9726