Nova espécie descoberta na Caatinga ganha nome de arqueóloga brasileira
Estudo amplia o conhecimento sobre a biodiversidade do bioma e reconhece trajetória da arqueóloga brasileira na Serra da Capivara, onde um dos exemplares estudados da espécie foi encontrado
Uma nova espécie de planta encontrada na Caatinga acaba de ser descrita por pesquisadores brasileiros em artigo científico. Batizada de Machaerium guidone, a planta foi reconhecida a partir da análise de coleções científicas e expedições de campo, reunindo registros que já existiam, mas ainda não haviam sido corretamente interpretados.
O nome homenageia a arqueóloga Niède Guidon, referência nos estudos do Parque Nacional da Serra da Capivara. A escolha dialoga com a importância científica e simbólica da região.
A descoberta foi publicada em 07 de abril de 2026 no artigo Machaerium guidone (Leguminosae, Papilionoideae, Dalbergieae), a remarkable new species from Northeast Brazil, with a revised key to Machaerium species of the Caatinga, que descreve a espécie e revisa o grupo na Caatinga. O artigo foi publicado na revista Kew Bulletin, disponibilizada na plataforma Springer Nature Link, da editora acadêmica germano-britânica, Springer.
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O artigo é assinado por Valner Matheus Milanezi Jordão, doutorando da Escola Nacional de Botânica Tropical (ENBT) do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ); Daniela Sampaio, professora da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Fabiana Luiza Ranzato Filardi, pesquisadora também do JBRJ.
Embora está já estivesse presente na natureza, ainda não havia trabalhos científicos destinados a sua descrição. “A espécie já está ali há milhares de anos. A descoberta é o que nós descrevemos para a ciência”, destaca Matheus.
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‘Machaerium guidone’ e suas características
A Machaerium guidone pertence à família das leguminosas (Fabaceae), típica da Caatinga, com ocorrências no estados do Piauí, Bahia, Ceará, Maranhão e Minas Gerais. Essa espécie se desenvolve como uma trepadeira lenhosa, também conhecida como liana. Seus ramos são cilíndricos e não apresentam espinhos, o que já a diferencia de outras espécies do grupo.
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As folhas são compostas e geralmente apresentam entre 9 e 13 folíolos, com textura mais firme e base levemente arredondada, lembrando um formato de coração. “Um dos aspectos que me chamou a atenção logo no início foi a beleza dessa espécie”, observa Matheus.
Outro ponto intrigante foi a ausência de espinhos. “As trepadeiras geralmente apresentam espinhos para se agarrar em outras plantas, e essa não tem, sendo uma característica bem marcante”, ressalta.
As flores são pequenas e claras, enquanto os frutos são do tipo sâmara, com uma estrutura alada. “Com essa estrutura, esse tipo de fruto é disperso pelo vento, não depende de animais”, detalha o pesquisador.
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A espécie ocorre em áreas típicas da Caatinga e também em regiões de transição com o Cerrado, em ambientes como florestas sazonais secas e vegetações conhecidas como carrasco.
A floração ocorre entre outubro e janeiro, enquanto a frutificação se estende de fevereiro a agosto, acompanhando o regime climático do semiárido.
Descoberta e processo científico
O primeiro indício da nova espécie surgiu por volta de 2020, durante um período de análise que Matheus realizava em coleções do herbário da Universidade de Brasília (UnB). Na época, ele desenvolvia seu mestrado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e analisava um outro grupo vegetal dentro desse mesmo gênero.
“Começamos a olhar esses materiais que os pesquisadores coletaram ao longo de vários anos e achamos essa espécie, mas não havia nomes, nem uma descrição específica. Ela estava ali na coleção, mas ainda não tinha sido descrita”, explica Matheus. Essa confirmação também veio a partir do contato do pesquisador com Fabiana, que já pesquisava outras espécies do mesmo grupo.
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Entre 2020 e 2022, o trabalho avançou com a comparação dos exemplares com outras espécies do gênero. Além disso, Matheus passou a realizar uma revisão de literatura e de registros em diferentes herbários, tanto de forma presencial quanto por meio de plataformas digitais, que reúnem fotos de espécies distribuídas por instituições desse tipo em todo o país.
“Começamos a olhar foto por foto para ver se achávamos essa éspecie de novo. Fomos encontrando registros em diferentes lugares do país”, conta o pesquisador.
Esse levantamento mostrou que a planta já havia sido coletada anteriormente, mas permanecia sem identificação adequada. Em 2023, durante um período de trabalho de campo na Bahia, foi possível observar a espécie em seu ambiente natural. “Foi muito legal, porque consegui confirmar que ela realmente é uma liana. Encontramos a flor, o fruto e pudemos observar outras características, além de identificar mais exemplares”, diz o pesquisador.
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A etapa final envolveu a consolidação dos dados, a elaboração de uma chave de identificação para as espécies do gênero na Caatinga e também a escolha de um material-tipo. A chave é entendida como o coração do trabalho e é uma ferramenta que ajuda a diferenciar uma espécie das demais presentes em um mesmo bioma. Nesse caso, foram analisadas aspectos morfológicos, incluindo desde hábitos até componentes estruturais das 14 espécies que ocorrem na Caatinga.
A chave de identificação e o material-tipo são essenciais nesse tipo de trabalho científico. “Esse material é o que irá referenciar a espécie. É após a análise conjunta da chave e do material que um novo exemplar encontrado pode ser identificado como pertencente a uma determinada espécie ou não, de acordo com a apresentação de características compatíveis com aquilo que é descrito”, explica o pesquisador.
Conservação e ausência de ameaça
Apesar de ter sido descrita recentemente, a Machaerium guidone apresenta um cenário favorável do ponto de vista da conservação. “Essa espécie não está ameaçada, e isso é uma coisa muito boa, porque não é algo muito frequente. Muitas vezes a gente descobre espécies que já estão em risco”, ressalta Matheus.
A espécie foi classificada na categoria de least concern, isto é, “menor preocupação”. Segundo o estudo, a espécie ocorre em diferentes estados e ambientes, o que reduz, por ora, seu risco de extinção. Ainda assim, os pesquisadores destacam que avaliações podem mudar com o tempo, diante da coleta e registro de mais dados sobre a região e a espécie.
Homenagem a Niède Guidon
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A escolha do nome guidone é uma homenagem direta à arqueóloga Niède Guidon, cuja trajetória está profundamente ligada à preservação e à valorização do Parque Nacional da Serra da Capivara. Foi justamente nessa região que o exemplar utilizado como material-tipo, central para o estudo, foi coletado.
“Foi uma escolha também política, de reafirmar a importância dela e da Serra da Capivara. É uma região muito rica, tanto do ponto de vista cultural quanto biológico”, afirma Matheus.
A ideia de prestar a homenagem surgiu ainda quando a arqueóloga estava viva, porém o artigo acabou sendo publicado posteriormente, transformando a nomeação em uma homenagem póstuma à Niède. Para os pesquisadores responsáveis pela pesquisa, nomear uma espécie também é uma forma de reconhecer trajetórias que ajudaram a construir o conhecimento científico no país e valorizar territórios que continuam revelando novas descobertas.
