Nova espécie de dinossauro quase não foi descoberta por erro de armazenamento

Nova espécie de dinossauro quase não foi descoberta por erro de armazenamento

Uma nova espécie de dinossauro foi identificada como o carnívoro mais antigo do Reino Unido, tendo vivido há cerca de 200 milhões de anos no que hoje corresponde à região do País de Gales, no sudoeste da Grã-Bretanha. Mas essa nova espécie quase caiu no esquecimento, após um erro de armazenamento colocar o fóssil, literalmente, em uma gaveta errada.

Agora catalogado como “Pendraig milnerae”, o exemplar foi descoberto, originalmente, em uma mina nos anos de 1950. Na ocasião (e até agora), pensava-se tratar de um dinossauro diferente dentro de algum grupo já conhecido dos animais extintos. Hoje, porém, análises mais aprofundadas confirmam tratar-se de uma espécie exclusiva, segundo novo estudo.

Ossos do "Pendraig milnerae", nova espécie de dinossauro que quase se perdeu por um erro de armazenamento
Os ossos do Pendraig milnerae, nova espécie de dinossauro tida como o carnívoro mais antigo do Reino Unido. Por pouco, nós não o perdemos por um erro trivial de armazenamento: eles foram guardados na gaveta errada (Imagem: Museu de História Natural de Londres/Divulgação)

O nome “Pendraig milnerae” serve para prestar homenagem a Angela Milner, uma paleontóloga do Museu de História Natural de Londres, que morreu em agosto deste ano. Foi Angela que, em 1986, identificou o gênero “Baryonix” de dinossauros. Já o “Pendraig” vem da palavra homônima do idioma gaulês antigo, que pode ser traduzida para “Chefe dos Dragões”.

Contrário ao seu nome de proporções épicas, porém, o Pendraig milnerae não era ele próprio muito imponente: embora suas proporções não possam ser estimadas pelo fóssil (especialistas indicam tratar-se de um animal que morreu jovem e, portanto, subdesenvolvido), é claro que o dinossauro tinha proporções menores, e provavelmente alimentava-se de animais rasteiros de pequeno porte.

Não ajuda o tamanho da nova espécie o fato de que ela presumidamente viveu em uma ilha, o que altera consideravelmente o crescimento de animais: a ausência de predadores maiores e de recursos de alimentação fazem com que eles não cresçam da mesma forma que seus congêneres em continentes – um efeito conhecido como “nanismo insular”.

A história deste fóssil é um tanto conturbada: ele foi descoberto originalmente em Pant y FFynnon, ao sul do País de Gales, dentro de uma fissura terrestre que, eventualmente, acabou coberta de sedimentos, fossilizando o animal. Em 1952, alguns de seus ossos – partes do quadril, costas e pernas – foram escavados da fissura e levados ao museu. Embora sem muitos detalhes, cientistas da época afirmaram tratar-se de um membro da superfamília “Coelophysoidea”, composta de dinossauros terópodes com características específicas, como o focinho estreito e alongado.

De acordo com o doutor Stephan Spiekman, “não há nenhuma característica óbvia que destaca essa espécie em particular. Ela tem é uma certa combinação de diversos tratos físicos que são únicos entre membros desse grupo, o que nos mostrou que, claramente, estávamos olhando para uma nova espécie”.

Angela Milner, paleontóloga falecida em agosto de 2021
Angela Milner, uma das mais renomadas paleontólogas do mundo, falece em agosto de 2021. Ela, porém, conseguiu encontrar os ossos perdidos do que hoje sabemos se tratar de uma nova espécie de dinossauro (Imagem: Museu de História Natural de Londres/Divulgação)

Por anos, esse exemplar foi também classificado como membro do grupo conhecido como “Syntarsus”, mas essa própria classificação seria reformulada e posicionada sobre outras, diferentes espécies anos mais tarde, então o Pendraig milnerae mais uma vez se viu sem um “guarda-chuva” próprio para chamar de seu.

Diante da necessidade de maiores estudos, os cientistas resolveram revisitar os ossos, apenas para descobrir que eles não estavam onde deveriam. Foi aí que Angela Milner entrou em cena: “Angela foi extremamente importante para o museu”, disse a doutora Susannah Maidment, pesquisadora sênior e, antes, uma aluna de Milner. “Não só ela era a principal autoridade em dinossauros, mas também ocupava uma posição de liderança quando mulheres não tinham tal prestígio no museu”.

Maidment disse ter comunicado a Milner sobre o “sumiço” do dinossauro do armazenamento do museu. Ela conta que, depois disso, a própria Milner sumiu e, três horas depois, chegou com os ossos perdidos. “Ela os encontrou em uma gaveta com materiais de crocodilos, e ela deve ter memorizado o espécime de quando ela própria o examinou. Sem ela, esse paper não existiria”.

A nova espécie de dinossauro foi descrita em paper publicado no jornal Royal Society Open Science.