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‘Fome oculta’: Crise climática reduz nutrientes dos alimentos e amplia desigualdades globais

‘Fome oculta’: Crise climática reduz nutrientes dos alimentos e amplia desigualdades globais

Enquanto eventos como furacões, grandes secas e calor extremo dominam as manchetes, um efeito silencioso da crise climática avança pelo mundo, de forma desigual. Além dos impactos mais conhecidos do aquecimento global, o aumento do dióxido de carbono (CO2) na atmosfera também tem reduzido significativamente a qualidade nutricional de alimentos básicos, um cenário que afeta com mais força populações vulneráveis e contribui para o avanço da chamada “fome oculta” — quando não se consomem nutrientes suficientes para se manter saudável. Estima-se que mais de 2 bilhões de pessoas (ou uma em cada três) já sofram desse problema, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Um levantamento abrangente publicado no ano passado pelo Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, que analisou pesquisas realizadas ao longo de duas décadas, identificou uma queda média de 3,2% nos níveis de nutrientes das plantas observadas nesse período, incluindo micronutrientes importantes para a saúde humana, como zinco, ferro e proteínas.

Entre as culturas mais afetadas estão arroz e trigo, alimentos que fazem parte da dieta diária de bilhões de pessoas — segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o arroz é consumido por mais da metade da população mundial, especialmente na Ásia, África e América Latina, enquanto o trigo é considerado alimento básico para mais de 2,5 bilhões de pessoas.

Outros alimentos amplamente consumidos também aparecem nas pesquisas com perdas nutricionais, entre eles soja, ervilha, grão-de-bico, feijão e batata.

Essa queda nos nutrientes é explicada, em parte, pelo chamado “efeito de diluição” do carbono, como explicou ao GLOBO Timothy Sulser, cientista sênior no Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares (IFPRI). Com mais CO2 disponível, as plantas produzem mais carboidratos, como amido e açúcares, que funcionam como combustível para seu crescimento. No entanto, esse crescimento não é acompanhado por uma absorção proporcional de minerais do solo. Como resultado, os alimentos podem apresentar maior teor energético, mas menor concentração de nutrientes essenciais.

— Varia um pouco, claro, com alguns minerais em determinadas culturas e locais sendo menos ou mais afetados, mas, em geral, essa relação negativa se mantém — diz Sulser. — Mas não é só isso. Alguns processos biofísicos das plantas que regulam o acúmulo de minerais nas partes comestíveis das culturas também estão sendo afetados. Vale destacar que níveis elevados de CO2 atmosférico têm efeitos mistos sobre o conteúdo de vitaminas e outros componentes sintetizados pela planta, em vez de absorvidos do ambiente, como ocorre com os minerais. Trata-se de uma questão complexa que exige mais pesquisas, e pesquisas particularmente desafiadoras.

Populações mais vulneráveis

Apesar de a média de perda nutricional apontada pela pesquisa parecer ser pequena numa análise mais superficial, o quadro se agrava quando se observa a distribuição desigual dos padrões alimentares no mundo, destaca uma das autoras do estudo, Sterre ter Haar.

Em países de renda mais alta, o acesso a uma variedade maior de alimentos — incluindo múltiplas fontes de proteína animal, frutas e vegetais — tende a diluir os efeitos de mudanças na composição nutricional de um único grupo alimentar. Nos países de baixa renda, entretanto, a dependência de grãos básicos torna a população mais suscetível a variações na qualidade nutricional.

— Pessoas que já enfrentam dificuldades para acessar uma alimentação suficiente, diversificada e nutritiva são mais vulneráveis. Aqueles que já estão desnutridos ou próximos de uma deficiência nutricional tendem a ter menor capacidade de lidar com esses efeitos do que indivíduos com dietas variadas e adequadas — explica ter Haar ao GLOBO.

Atualmente, as populações de sete países no mundo já estão sob risco alarmante no índice de má-nutrição do Global Hunger Index: Somália (53,2%), Madagascar (39,5%), Síria (39%), República Democrática do Congo (38,5%), Zâmbia (37,2%), Quênia (36,8%) e Libéria (35,5%). Outros 35 países estão sob risco sério, segundo o levantamento de 2025. A maioria está localizada nos continentes africano e asiático.

De acordo com o relatório sobre o estado da segurança alimentar e nutricional da FAO publicado no ano passado, cerca de 2,6 bilhões de pessoas no mundo não têm recursos financeiros para arcar com uma dieta saudável e nutritiva. Pouco mais de um bilhão estão no continente africano, o que corresponde a 66,6% da população, segundo os dados coletados em 2024. Globalmente, o custo diário de uma dieta saudável por pessoa é estimado em US$ 4,46 (R$ 21,98), diz o documento.

Entre os grupos mais afetados em nível mundial, estão as mulheres e crianças. De acordo com o documento, cerca de um terço das crianças de 6 a 23 meses e dois terços das mulheres de 15 a 49 anos atingiram a diversidade alimentar mínima no período analisado.

As consequências dessa disparidade se manifestam diretamente na saúde pública. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a deficiência de ferro é uma das principais causas de anemia no mundo — afetando principalmente crianças, gestantes e mulheres em idade reprodutiva —, enquanto a deficiência de zinco está associada à redução da função imunológica e maior suscetibilidade a infecções. Em crianças, a ingestão inadequada desses nutrientes pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento cognitivo, com efeitos que se estendem ao desempenho escolar e à capacidade produtiva ao longo da vida.

Além disso, estimativas da OMS apontam a desnutrição — incluindo as deficiências de micronutrientes —, que afetou 673,2 milhões de pessoas no mundo em 2024 (a maioria na Ásia e na África), como um dos principais fatores de risco para mortalidade e perda de anos de vida saudáveis. Ao mesmo tempo, dados do Banco Mundial associam a má nutrição a perdas econômicas, por meio da redução da produtividade e do aumento de custos em saúde.

Além do CO2

Os impactos da crise climática sobre os alimentos vão além do aumento de CO2 na atmosfera, destaca ao GLOBO o pesquisador em mudanças climáticas globais Carlos Eduardo Pacheco Lima, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Hortaliças. Segundo o professor, fatores como calor extremo, secas e chuvas intensas — embora possam, em alguns casos, resultar no aumento da produtividade — também podem afetar a qualidade nutricional das culturas.

— Também há a possibilidade de aumento da incidência de pragas e doenças, inclusive aquelas emergentes (que não são importantes atualmente, mas podem se tornar no futuro) — destaca Pacheco Lima. — O IPCC ainda enfatiza que fenômenos como ondas de calor, secas e inundações não estão ligados apenas à redução da quantidade e qualidade nutricional, mas também sanitária, como a presença de microtoxinas, algumas vezes tornando os alimentos não-comercializáveis e aptos ao uso humano.

Diante desse cenário, os pesquisadores afirmam que a adaptação dos sistemas agrícolas pode ser decisiva para evitar o agravamento da insegurança alimentar no mundo. Entre as estratégias estudadas estão o desenvolvimento de variedades mais resistentes à crise climática e capazes de manter maior valor nutricional mesmo sob concentrações elevadas de CO2.

Segundo Sulser, porém, medidas de adaptação sozinhas não devem interromper o avanço do problema caso as emissões continuem aumentando. O alerta ocorre em um momento em que a meta internacional de limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais é considerada cada vez mais difícil de alcançar.

— Para que essas variedades cheguem às populações vulneráveis, é necessário um esforço coordenado entre instituições públicas e privadas do sistema agroalimentar — destaca. — Mas a única forma de evitar novos efeitos negativos do CO2 elevado é interromper ou reverter a trajetória atual das emissões.

O Globo