Florestas submersas há milhares de anos na costa da África se tornam refúgio para espécies
Estudo revela que antigas florestas costeiras deram origem a recifes de turfa que hoje abrigam dezenas de espécies marinhas, em um ecossistema ainda pouco conhecido pela ciência
Nas águas rasas do arquipélago de Bazaruto, no oceano Índico Ocidental, pesquisadores identificaram vestígios de florestas que cresceram entre aproximadamente 300 e 5 mil anos atrás na costa de Moçambique, na África, e acabaram submersas. A equipe do Observatório Oceanográfico do Centro de Estudos Científicos de Bazaruto (BCSS) descobriu que essas antigas florestas deram origem a recifes de turfa — ecossistemas que funcionam como refúgios para a biodiversidade marinha, de maneira semelhante aos recifes de coral.
A equipe analisou três recifes de turfa e um recife de coral verdadeiro próximo, comparando a cobertura do fundo do mar, invertebrados, peixes pequenos e animais maiores, como tubarões, raias e tartarugas. Os recifes de turfa apresentam ervas marinhas e algas que crescem diretamente sobre a turfa. As fendas e saliências abrigam lagostas, ostras, cracas e peixes juvenis.
Cada recife de turfa abrigava de 26 a 36 espécies de peixes pequenos, com uma diversidade de espécies comparável à dos recifes de coral. Os pesquisadores chegaram a avistar neles até espécies maiores como tubarões, raias e tartarugas.
“Ficamos surpresos com a quantidade de vida que esses antigos depósitos de turfa sustentam e com a quantidade de espécies que transitam entre eles e os recifes de coral próximos”, afirma em comunicado Mario Lebrato, autor principal e cofundador do BCSS. “Esta costa tem muito pouco fundo marinho rígido natural, sendo composto principalmente de areia movediça. Quando a elevação do nível do mar expõe essas antigas camadas de turfa, elas criam um habitat sólido e raro onde a vida marinha pode se fixar, se esconder e se alimentar.”
Os resultados foram publicados em 30 de setembro em dois artigos na revista Frontiers in Marine Science. Além de revelar um ecossistema marinho pouco conhecido, a descoberta sugere que outros recifes de turfa ainda não identificados podem estar escondidos em regiões costeiras ao redor do mundo.
Acredita-se que este seja o primeiro estudo ecológico de recifes de turfa em qualquer região tropical e, globalmente, sob a perspectiva da biodiversidade. A investigação foi conduzida em parceria com instituições de pesquisa do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá.
A formação das florestas
Os recifes de turfa são restos compactados e ricos em carbono de pântanos e florestas costeiras. Essas paisagens foram inundadas pela elevação do nível do mar nos últimos milhares de anos. As ondas removeram a areia que as cobria, deixando plataformas firmes de turfa expostas no fundo do mar. O substrato foi então colonizado por vida marinha.
Os pântanos de turfa podem armazenar de 1.000 a 2.000 toneladas de carbono por hectare no subsolo, mas ainda não se sabe quanto carbono os recifes armazenam, ou se estão armazenando ou liberando esse carbono atualmente.
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Os recifes de turfa ficam a apenas 2 a 4 metros de profundidade, regularmente expostos pelas marés. Sua temperatura varia entre 24,5 e 28,6 °C ao longo do dia e recebem muito mais luz solar do que os recifes de coral mais profundos. Tempestades e ciclones os soterraram, desenterraram e fragmentaram com frequência. Muitos deles chegam a desaparecer devido à erosão e aos movimentos da areia.
A idade da turfa foi estimada pelos pesquisadores com datação por radiocarbono e análises químicas confirmam que ela se originou principalmente de plantas e árvores costeiras. Algumas amostras chegam a ter até 40% de carbono orgânico em peso seco.
No entanto, mais pesquisas ainda são necessárias para saber se esses sistemas podem funcionar como um reservatório de carbono a longo prazo. Os cientistas ainda estão incertos se podem classificar os recifes de turfa como habitats de “carbono azul”. Esse tipo de carbono é aquele comumente capturado e armazenado por ecossistemas costeiros e marinhos, como em manguezais ou pradarias marinhas.
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Estabelecido no Arquipélago de Bazaruto, em Moçambique, em 2017, o BCSS é o primeiro observatório oceanográfico permanente da África e gerou mais de 22 milhões de medições em mais de 30 variáveis químicas, ambientais e de biodiversidade, abrangendo seis ecossistemas interconectados e 14 estações de monitoramento de longo prazo em uma área de monitoramento de aproximadamente 6.850 km².
Especialistas costeiros e ambientalistas raramente mapeiam ou protegem recifes de turfa, e habitats semelhantes podem permanecer desconhecidos no sudeste asiático, Caribe e África ocidental. Com o declínio dos recifes de coral, esses habitats negligenciados podem oferecer refúgios alternativos para algumas espécies.
Os resultados indicam que os recifes de turfa devem ser incluídos nos mapas de habitats costeiros, nos planos de conservação e nas avaliações do legado de carbono costeiro. “A sua contribuição para a biodiversidade, para o habitat da pesca e para a potencial preservação do carbono como legado deve ser reconhecida nas estratégias de gestão e conservação costeira, particularmente em regiões onde a saúde dos recifes de coral está a diminuir”, considera Lebrato.
