Derretimento de ‘Geleira do Juízo Final’ pode ter impacto duas vezes maior do que se imaginava no nível do mar, aponta estudo
Pesquisa publicada na revista científica “Nature Communications” estima que a geleira localizada na Antártida Ocidental pode contribuir em até três centímetros para a elevação média global do nível do mar até 2100.
O derretimento da geleira Thwaites, conhecida como a “Geleira do Juízo Final”, pode ter um impacto bem maior do que se imaginava na elevação do nível do mar.
Segundo uma pesquisa publicada na revista científica “Nature Communications” a geleira, localizada na Antártida Ocidental, pode contribuir em até três centímetros para a elevação média global do nível do mar até 2100.
⚠️O valor é aproximadamente o dobro da média de projeções anteriores consideradas pelos pesquisadores, mesmo em um cenário sem aquecimento climático adicional.
“Há décadas documentamos e quantificamos os impactos das mudanças climáticas sobre os mantos de gelo sensíveis do nosso planeta, mas a percepção crescente, nos últimos anos, do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites está provocando uma sensação ainda maior de preocupação”, afirmou Eric Rignot, coautor do estudo e professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia, em Irvine.
De acordo com Rignot, o novo modelo desenvolvido pelo grupo traz uma representação física mais completa da região e foi capaz de mostrar que a entrada de água do oceano sob o gelo tem um papel importante no recuo da geleira.
Ao incorporar esse processo a um modelo computacional e compará-lo com observações de quase três décadas, os cientistas conseguiram reproduzir melhor as mudanças registradas na velocidade, na espessura e na posição da geleira.
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Como a água do mar acelera o derretimento
A geleira Thwaites é conhecida como “Geleira do Juízo Final” pelo risco que seu derretimento representa ao planeta. Mas o tamanho da contribuição desse processo à elevação do nível do mar ainda é muito incerta.
Desde meados da década de 1990, a parte ocidental do bloco, por onde o gelo escoa mais rapidamente, recuou cerca de 25 quilômetros.
Esse recuo é impulsionado, em parte, pela água relativamente quente do oceano, que derrete a parte inferior do gelo. O processo ocorre especialmente na chamada “zona de aterramento”, região de transição em que a geleira deixa de estar apoiada no fundo do mar e passa a flutuar.
Segundo os pesquisadores, muitos modelos computacionais tratam essa transição como uma fronteira estreita entre o gelo apoiado no leito marinho e o gelo flutuante, quase como uma linha. Com isso, deixam de representar adequadamente a entrada de água do mar por quilômetros sob a geleira e o derretimento provocado por essa infiltração.
Mattia Poinelli, autor principal do estudo e também pesquisador da Universidade da Califórnia explica que, para corrigir essa limitação, a equipe desenvolveu um modelo que considera zonas de aterramento com entre dois e cinco quilômetros de largura.
“Observações por satélite demonstram a existência de uma ‘zona de aterramento’, que às vezes tem vários quilômetros de largura, onde a água quente do oceano alcança regiões profundas sob os mantos de gelo e provoca um derretimento intenso”, detalha, em comunicado.
Os resultados indicaram que essa abordagem foi fundamental para reproduzir as mudanças observadas na Thwaites entre 1996 e 2023.
Geleira pode se desprender de elevação submarina
O estudo também aponta que a Thwaites permanece parcialmente estabilizada pela Crista Mouginot, uma elevação do fundo do mar que funciona como um ponto de apoio para o gelo.
Com o avanço do derretimento, a geleira pode perder esse apoio e recuar em direção a outra elevação submarina, chamada Crista Sul.
🗻Nas simulações, a probabilidade de a geleira se desprender da Crista Mouginot até 2100 chegou a aproximadamente 60% quando o modelo considerou zonas de aterramento de quatro a seis quilômetros, dimensão compatível com observações recentes por satélite. Nesse conjunto de simulações, o desprendimento poderia ocorrer já em 2038.
O momento em que isso acontecer influencia a quantidade de gelo perdida e, consequentemente, a contribuição da geleira para a elevação do nível do mar.
O que muda nas projeções para o nível do mar
Os pesquisadores estimaram diferentes contribuições da geleira para a elevação média global do nível do mar até o fim do século, conforme a largura considerada para a zona de aterramento.
➡️As principais conclusões foram:
- Sem representar a zona de aterramento: contribuição estimada de 8,3 milímetros
- Com uma zona de aterramento de aproximadamente um quilômetro: 1,43 centímetros
- Com uma zona de aproximadamente três quilômetros: 1,94 centímetros
- Com uma zona de aproximadamente cinco quilômetros: 3,01 centímetros, com incerteza de 5,7 milímetros.
A última projeção é aproximadamente o dobro da contribuição média de 1,52 centímetros estimada pelo conjunto de modelos internacionais usados como referência no estudo.
Os cálculos foram feitos considerando condições climáticas médias do período de 1996 a 2023 mantidas ao longo das simulações.
Portanto, o cenário funciona como uma estimativa de limite inferior, que permite isolar o efeito do derretimento na zona de aterramento sem incorporar um aquecimento futuro adicional do clima.
Limitações do estudo
Os autores ressaltam que o modelo não representa todos os processos que podem influenciar a evolução da geleira.
Entre as limitações estão a ausência de mudanças na posição da frente de gelo provocadas pelo desprendimento de blocos e o uso de uma representação simplificada do derretimento causado pelo oceano, em vez de uma simulação completa da circulação da água sob a plataforma de gelo.
Além disso, a extensão da zona de aterramento foi mantida fixa nas simulações, embora possa variar conforme as características do fundo marinho, a inclinação do gelo, as marés e a pressão da água sob a geleira.
Os pesquisadores defendem que novas medições diretas de temperatura, salinidade e circulação da água sob o gelo são necessárias para reduzir essas incertezas e aperfeiçoar as projeções.
