Estudo aponta que 1 em 3 crianças brasileiras tem anemia

Estudo aponta que 1 em 3 crianças brasileiras tem anemia

“Crianças com anemia têm maior probabilidade de desenvolver outras doenças na forma mais grave; uma pneumonia em criança não anêmica, por exemplo, costuma ser muito mais branda do que em uma anêmica”, afirma o professor que liderou o estudo

Um estudo, liderado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), apresentou dados alarmantes com relação à saúde dos pequenos. A pesquisa apontou a prevalência de 33% de anemia ferropriva (por falta de ferro) em crianças brasileiras de zero a sete anos — ou seja, um terço das crianças do país. A análise, coordenada por Carlos Alberto Nogueira-de-Almeida, professor do Departamento de Medicina (DMed) da Universidade, contou com 134 estudos anteriores, envolvendo 46.978 crianças, divulgados de 2007 a 2020.

De acordo com os pesquisadores, no Brasil, estima-se que 90% dos casos de anemia são por falta de ferro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a doença como um indicador de pobreza de nutrição e de saúde, comprometendo assim a qualidade de vida e contribuindo para a mortalidade infantil. “No nível populacional, uma prevalência de anemia maior que 4,9% é considerada uma importante questão de saúde pública; quando há prevalência superior a 40%, é classificada como grave problema de saúde pública”, explica Nogueira-de-Almeida.

O professor ainda complementa que, analisando por região, os dados não mostraram diferenças significativas. “Mesmo nas regiões mais ricas do país — sul e sudeste — a prevalência é alta. Estamos diante de um quadro preocupante, tendo em vista que o Brasil é um país em desenvolvimento, mas não de extrema miséria”, afirma Nogueira-de-Almeida.

Os resultados também não sugerem uma tendência temporal da doença. Segundo o pesquisador da UFSCar, o dado é importante ao considerarmos que o Brasil vem adotando ações para prevenir e controlar a anemia, como por exemplo, a criação, em 2015, da Estratégia de Fortificação da Alimentação Infantil com Micronutrientes (vitaminas e minerais) – NutriSUS. “As curvas dos gráficos obtidos na pesquisa comprovam que a prevalência da anemia se mantém estável de 2007 para cá, sem aumentar ou diminuir. Isso significa que as iniciativas para controle da doença parecem não ter tido impacto, o que também nos causa preocupação”, aponta.

Para o professor, diversas hipóteses podem explicar o fato de a prevalência de anemia ferropriva no Brasil ser tão alta como: elevado índice de mães com anemia, o que acarreta passagem de quantidade insuficiente de ferro para a placenta.

“Muitas vezes, as crianças que não recebem leite materno acabam consumindo leite de vaca antes de um ano. Além de não ter ferro, este leite ajuda a perdê-lo do organismo, já que provoca pequenas hemorragias na mucosa intestinal e o seu cálcio também acaba levando o ferro para as fezes”, explica o professor. No entanto fique atento! Segundo o pesquisador, a alimentação complementar, a partir dos seis meses, também pode causar anemia. “Não temos hábito de usar cereais fortificados, por exemplo. Muitas famílias utilizam uma alimentação com base na farinha de fubá e outros ingredientes caseiros, que não contêm ferro.”

Vale lembrar também que quando a criança cresce, o ideal é consumir ferro de origem animal, proveniente das carnes, algo que também não acontece com frequência. “As carnes no Brasil possuem altos custos e o seu consumo é baixo. O ferro na alimentação da criança brasileira acaba vindo muito dos vegetais, do feijão. É importante, mas é um ferro que o corpo humano não aproveita tão bem quanto o da carne”, diz o pesquisador. De acordo com ele, uma criança com baixos índices de ferro e considerada anêmica pode ter muitos prejuízos, como falta de disposição para brincar e isolamento; déficit de aprendizado e prejuízos para o desenvolvimento intelectual e prejuízo imunológico. “Crianças com anemia têm maior probabilidade de desenvolver outras doenças na forma mais grave; uma pneumonia em criança não anêmica, por exemplo, costuma ser muito mais branda do que em uma anêmica”, ressalta Nogueira-de-Almeida.

Diante desse quadro, o professor apela para que as autoridades públicas sejam ativas para evitar esse tipo de cenário. “A anemia não se resolve com estratégias individuais. Algumas ações urgentes consistem na criação e no fortalecimento de políticas públicas – de distribuição de renda, para se obter recursos para compra de alimentos fortificados em ferro; e de educação nutricional, para fomentar uma conscientização sobre a importância dos alimentos, seus nutrientes e vitaminas, que muitas famílias não têm”. São imprescindíveis também ações de saúde, como, por exemplo, disponibilizar pré-natal gratuito e de boa qualidade às mães sem condições financeiras e estimular o aleitamento materno sempre que possível, por meio de campanhas de conscientização e disseminação de conhecimento.