Emissões de carbono das hidrelétricas estão superestimadas, dizem cientistas
As emissões de gases de efeito estufa produzidas pelas barragens de hidrelétricas são muito menores do que os cientistas vinham calculando até agora – menos de um quinto do valor usado para medir o impacto dessa fonte limpa de eletricidade.
A descoberta surgiu quando os cientistas incorporaram um dado essencial, mas que vinha sendo negligenciado pelos modelos: As emissões de referência da mesma região caso as barragens não existissem. Mesmo sem barragens, o carbono orgânico gerador de emissões ainda se decomporia e emitiria CO2 ou CH4 durante o transporte rio abaixo e após a deposição em estuários.
A energia hidrelétrica tem crescido em popularidade no mundo todo porque é uma opção muito mais limpa do que outras alternativas de geração de eletricidade em larga escala. Mas as usinas não são inteiramente limpas: Embora retenham carbono orgânico, desse depósito emite metano e dióxido de carbono. “As altas emissões de carbono dos reservatórios têm gerado controvérsia sobre as barragens e até mesmo levantado questões sobre as credenciais ecológicas da energia hidrelétrica,” escrevem Wenqing Shi e seus colegas da Fundação Nacional de Ciências Naturais da China.
Só que essas emissões não são tão altas quanto vinha sendo considerado. E as conclusões foram tiradas sobre dados robustos: A equipe simulou as emissões de reservatórios represados e não represados globalmente, cobrindo 5.346 reservatórios. A conclusão é que as estimativas da contribuição das barragens para os gases de efeito estufa são superestimadas.
Essa imprecisão ocorreu porque as técnicas convencionais não consideram as emissões de referência dos cursos d’ água represados em condições sem barragens. Ao incorporar essa linha de base, as barragens aumentam as emissões de carbono em uma média de 21,5% em CO2-equivalente, chegando a um total que representa apenas 18,6% das emissões estimadas usando a abordagem convencional de contabilização baseada em reservatórios.
“O planejamento futuro de barragens e as avaliações de impacto ambiental devem avaliar as consequências para o carbono na escala do contínuo rio-estuário integrado,” escreveu a equipe. “Essa perspectiva holística facilitará o desenvolvimento de sistemas hidrelétricos de baixo carbono e fornecerá uma base científica para equilibrar a expansão da energia renovável com as metas de mitigação das mudanças climáticas.”
Artigo: Dams not to blame for all reservoir carbon emissions from retained organic carbon
Autores: Wenqing Shi, Xiangyu Min, Ziqian Li, Kun Shi, Lin Zhu, Qingji Zhang, Hans W. Paerl, Erik JeppesenX, Boqiang Qin
Revista: Science Advances
DOI: 10.1126/sciadv.aeg7676
