Em Manaus, uma creche mostra que formar cidadãos ambientalmente conscientes começa antes da alfabetização
Projeto transforma a relação de crianças de até 3 anos com a natureza e leva novos hábitos para dentro das famílias, tendo a primeira infância como ponto de partida para a educação ambiental
A legislação brasileira prevê, desde 1999, que a educação ambiental faça parte da formação de crianças e jovens em todos os níveis de ensino. Na prática, porém, experiências contínuas na primeira infância ainda são exceção. Em Manaus, uma creche pública que recebe crianças de 0 a 3 anos de idade vem mostrando como esse aprendizado pode começar antes da alfabetização, ainda nos primeiros anos de vida.
Na Creche Municipal Professora Eliana de Freitas, na zona Norte da capital amazonense, cuidar da natureza faz parte da rotina escolar. As crianças plantam hortaliças, acompanham a compostagem dos restos de alimentos da cozinha, exploram ervas aromáticas e texturas de diferentes tipos de solo em um parque sensorial, tomam banho de ervas inspirado em saberes tradicionais amazônicos, aprendem a reutilizar materiais que iriam para o lixo e participam de mutirões de limpeza no entorno da escola ao lado das famílias.
As iniciativas renderam à unidade o reconhecimento de Creche Sustentável 2026, concedido pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mas o prêmio é apenas consequência de um trabalho que começou anos antes, por iniciativa da própria creche.
“A gente fazia algumas ações ambientais, mas elas eram pontuais. Percebemos que precisávamos organizar tudo isso em um projeto permanente. A nossa intenção era que a educação ambiental deixasse de aparecer apenas em datas comemorativas e passasse a fazer parte da vida das crianças”, afirma ao Um Só Planeta a diretora Nelciane Alencar.
Foi assim que nasceu o projeto Anhangá: Guardiões da Natureza. Inspirado na figura do imaginário amazônico associada à proteção da floresta e dos animais, o nome traduz a proposta pedagógica de colocar as crianças como protagonistas do cuidado com o ambiente onde vivem.
A consciência ambiental está presente em diferentes momentos do dia. Um dos espaços mais frequentados é a horta pedagógica, que fornece cebolinha, coentro, alho-poró, chicória e outras hortaliças utilizadas na própria merenda das crianças. Os resíduos orgânicos da cozinha retornam ao solo por meio da compostagem. Outra atividade que costuma fazer sucesso entre os pequenos são os banhos de ervas, que aproximam as crianças dos conhecimentos tradicionais profundamente ligados à cultura amazônica.
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“Elas aprendem vivendo essas experiências. Quando plantam, observam o crescimento das hortaliças, cuidam da compostagem ou sentem o cheiro das ervas, a educação ambiental deixa de ser um conteúdo e passa a ser uma maneira de enxergar e de se relacionar com o mundo”, diz Alencar.
Segundo a diretora, as atividades despertam curiosidade, autonomia e senso de responsabilidade desde muito cedo. “O período da primeira infância é quando valores, hábitos e atitudes começam a ser construídos. Queremos que essas crianças levem essas experiências para toda a vida e que sejam multiplicadoras dentro das próprias famílias. Quando oferecemos vivências ambientais desde cedo, estamos formando cidadãos mais conscientes, sensíveis e responsáveis”.
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Quando a criança passa a ensinar os adultos
Os resultados mais visíveis nem sempre se restringem aos muros da escola. Muitas vezes, são sentidos pelas famílias das crianças. Foi o que aconteceu na casa da dona de casa Salma de Jesus de Souza Batista, mãe de Eloíse, de 3 anos. A menina entrou na creche com pouco mais de um ano e, desde então, passou a levar novos hábitos para dentro de casa.
“Ela chega contando tudo. Diz que plantou cebolinha, que cuidou da horta, que fez brinquedo com papelão. Hoje, quando vamos ao supermercado, ela pede para pegar caixas para brincar. Ela prefere inventar brinquedos com material reciclável do que brincar com alguns brinquedos comprados. Se vê lixo na rua, já fala: ‘Mamãe, tem que jogar no lixo’. É um aprendizado que acaba mudando a rotina da família inteira.”
Embora a família já tivesse alguma preocupação com questões ambientais, Salma afirma que foi a vivência diária na creche que aprofundou esse interesse.
“A escola anterior da minha filha mais velha também falava sobre meio ambiente, mas era uma atividade de vez em quando. Aqui é diferente. O assunto faz parte do cotidiano. Elas aprendem plantando, colhendo, reciclando, brincando. Isso faz muita diferença porque a criança absorve tudo nessa idade.”
Ela conta que até os momentos compartilhados entre pais e filhos ganharam um novo significado. Caixas de papelão, embalagens de ovos e potes plásticos passaram a ser matéria-prima para brinquedos construídos em família. “Une todo mundo. As meninas gostam de criar, a gente participa junto. É uma brincadeira que aproxima a família e ainda ensina que nem tudo precisa ser descartado.”
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As famílias também participam de caminhadas promovidas pela creche durante a Semana do Meio Ambiente, realizado no mês de junho. Pais, professores e crianças percorrem as ruas próximas recolhendo resíduos e distribuindo mudas de plantas à comunidade.
Segundo Nelciane, esse movimento começou a produzir mudanças visíveis no entorno da escola. “A gente percebeu que algumas pessoas passaram a cuidar mais dos espaços próximos da creche. O descarte irregular [de lixo] ainda existe, mas houve uma sensibilização da comunidade. Os próprios moradores começaram a limpar alguns pontos.”
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Muito além da horta
Para o professor Marco Antônio de Freitas Mendonça, da Faculdade de Ciências Agrárias da UFAM, parceiro da iniciativa, a horta é apenas a porta de entrada de um processo muito mais amplo de conscientização.
“A escola é o maior espaço multiplicador que existe. Quando a criança participa do plantio, acompanha o desenvolvimento das plantas e leva isso para casa, ela influencia a família inteira. Não estamos falando apenas de produzir alimentos. Estamos formando cidadãos, fortalecendo a segurança alimentar, valorizando conhecimentos tradicionais e criando uma relação afetiva com a natureza.”
Por meio do projeto de extensão Hortas Urbanas e Periurbanas, a universidade orienta a construção dos canteiros, acompanha o manejo das hortaliças e oferece suporte técnico à escola. Mas, segundo o professor, o principal diferencial da creche foi incorporar essas atividades ao projeto pedagógico.
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“A horta, por si só, é simples de fazer. O desafio é mantê-la viva. Ela exige cuidado diário, acompanhamento e envolvimento das pessoas. O que faz diferença na Creche Eliana de Freitas é justamente o comprometimento da equipe. A sustentabilidade deixou de ser um projeto paralelo e passou a fazer parte da rotina.”
Esse envolvimento também modificou o trabalho dos próprios professores. Aos poucos, materiais como EVA e TNT foram sendo substituídos por papelão e outros itens reaproveitados na confecção de recursos pedagógicos e atividades artísticas, reduzindo o desperdício e incorporando a lógica da reutilização ao cotidiano escolar.
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Um exemplo que ainda é exceção
Apesar da Política Nacional de Educação Ambiental determinar, desde 1999, que o tema seja desenvolvido de forma transversal em todos os níveis de ensino, experiências estruturadas na educação infantil ainda são raras no país. Na avaliação de Mendonça, exemplos como a da creche de Manaus mostram um caminho possível, mas ainda dependem muito mais do esforço de educadores e parceiros do que de políticas públicas permanentes.
“Existem ações importantes sendo desenvolvidas por diferentes órgãos, mas elas ainda acontecem de forma muito fragmentada. Precisamos de políticas públicas consistentes, articuladas e permanentes. Não basta implantar uma horta durante um projeto piloto. É preciso garantir acompanhamento, formação dos professores e integração com a comunidade para que essas experiências continuem existindo.”
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A diretora da creche compartilha da mesma avaliação. Para ela, investir em educação ambiental desde a primeira infância significa enfrentar problemas que a cidade convive diariamente, como o descarte inadequado de resíduos e a degradação de igarapés e áreas verdes.
“As famílias muitas vezes estão perdidas em relação às questões ambientais. Quando a criança aprende isso na escola, ela também educa os adultos. A gente vive em um estado com uma das maiores riquezas ambientais do planeta. Precisamos formar crianças que entendam, desde cedo, que cuidar da natureza é cuidar da própria casa”, afirma Alencar.
Além da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que acompanha o manejo da horta e integra a experiência às atividades de extensão universitária, o projeto Anhangá: Guardiões da Natureza conta com apoio de diferentes instituições. A Secretaria Municipal de Educação (Semed), por meio do programa Ocas do Conhecimento Ambiental, dá suporte às ações de educação ambiental na rede. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) contribui com doação de mudas e atividades educativas sobre preservação, reciclagem e destinação correta dos resíduos. Já a Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror) oferece orientação técnica para o fortalecimento da horta pedagógica e o cultivo de hortaliças e plantas medicinais.
