Como o país que alimenta o mundo pode estar entre os mais vulneráveis à crise global de alimentos?
Novo estudo mostra como El Niño, conflitos geopolíticos, energia e fertilizantes podem elevar a inflação mundial de alimentos a 5% no próximo ano.
1. Quando todos os choques chegam juntos ao prato
O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do planeta. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, quase metade de tudo o que o país vendeu ao exterior. Produzimos soja, milho, café, açúcar, carnes e alimentos para centenas de milhões de pessoas. Por isso, quando se fala em uma nova crise global de alimentos, nossa reação intuitiva é imaginar que estamos protegidos.
Um novo relatório do J.P. Morgan mostra exatamente o contrário. Brasil, Índia, Indonésia e Colômbia aparecem entre as economias mais expostas à próxima onda de inflação alimentar. A pergunta inevitável é: como o país que alimenta o mundo pode estar entre os mais vulneráveis a uma crise global de alimentos?
A resposta começa pela sobreposição dos choques.
O estudo estima que um El Niño excepcionalmente forte poderia, sozinho, acrescentar cerca de 0,7 ponto percentual à inflação mundial de alimentos. Combinado à alta da energia provocada pelo conflito no Irã, que encarece petróleo, diesel, gás, fertilizantes, embalagens e transportes, o impacto pode chegar a algo entre 1,3 e 1,5 ponto percentual.
Nesse cenário, a inflação global de alimentos alcançaria uma taxa anualizada próxima de 5% no primeiro semestre de 2027. Isso poderia adicionar 0,6 ponto percentual à inflação mundial no pico e aproximadamente 0,3 ponto percentual à média da inflação global em 2027.
O alerta não significa necessariamente que o mundo ficará sem comida. Os estoques atuais de grãos e arroz ainda oferecem alguma proteção. O risco mais imediato é a combinação de perdas produtivas, restrições de oferta, aumento expressivo de preços e agravamento da insegurança alimentar, principalmente nos países em que os alimentos representam uma parcela maior do orçamento das famílias.
Há ainda uma defasagem perigosa. O maior impacto de um El Niño sobre os preços costuma aparecer entre quatro e oito meses depois do choque climático. O que acontece hoje no Pacífico, no Estreito de Ormuz ou no preço do gás pode aparecer com toda força no supermercado apenas em 2027.
No Brasil, essa vulnerabilidade tem uma explicação adicional. Somos gigantes na produção do alimento final, mas importamos aproximadamente 85% dos 41 milhões de toneladas de fertilizantes utilizados anualmente. Em 2025, estima-se que 41% da ureia importada pelo país, quase 3 milhões de toneladas, tenha atravessado o Estreito de Ormuz.
A cadeia de transmissão é direta: conflito no Oriente Médio, risco logístico em Ormuz, gás e ureia mais caros, aumento do custo do produtor, pressão sobre a produtividade e, finalmente, comida mais cara.
Ser potência agrícola, portanto, não é sinônimo de ter segurança alimentar. O Brasil construiu uma extraordinária capacidade de produzir e exportar commodities, mas ainda não garantiu a mesma resiliência para os insumos necessários à produção nem para o acesso da população brasileira aos alimentos.
2. Três sinais que já estavam diante de nós
Nas minhas últimas colunas, tratei separadamente de três movimentos que agora aparecem reunidos em uma mesma cadeia de riscos. Eles pareciam histórias diferentes: uma guerra no Oriente Médio, uma decisão estratégica da China e um fenômeno climático no Pacífico. Na realidade, eram capítulos da mesma história.
O primeiro sinal foi a crise de Ormuz, que escancarou nossa dependência de fertilizantes.
Quando escrevi sobre o conflito no Irã e o Estreito de Ormuz, o debate parecia concentrado no preço do petróleo e da energia. Mas Ormuz não termina no posto de gasolina. Pelo estreito circulam petróleo, gás, fertilizantes e matérias-primas necessárias à sua produção.
O gás natural é um dos principais insumos dos fertilizantes nitrogenados. O diesel move máquinas, caminhões e navios. A energia entra na produção, no beneficiamento, na refrigeração, na embalagem e na distribuição. Uma crise energética, portanto, transforma-se também em crise agrícola e alimentar.
O segundo sinal veio da China.
O 15º Plano Quinquenal chinês colocou a segurança alimentar no centro da estratégia nacional. O país estabeleceu a meta de ampliar sua capacidade de produção de grãos para aproximadamente 725 milhões de toneladas, investindo em produtividade, sementes, biotecnologia, recuperação do solo, agricultura digital, proteínas alternativas e diversificação de fornecedores.
O relatório China’s Food Future, publicado pela Systemiq, mostra que a China pode estar começando a aplicar à agricultura parte da mesma estratégia industrial que utilizou para conquistar liderança mundial em energia solar e veículos elétricos: alinhamento entre planejamento público, capital, tecnologia e escala.
A análise projeta uma possível redução de 25% nas importações chinesas de soja até 2030. Isso representaria uma mudança estrutural para o Brasil, que hoje fornece 71% da soja importada pela China e 54% de suas importações de carne bovina.
A China entendeu que depender excessivamente de outros países para alimentar sua população é um risco estratégico. Embora continue importando enormes volumes de alimentos, está buscando construir uma dependência mais segura: menos concentrada, mais diversificada e sustentada por maior capacidade tecnológica e produtiva doméstica.
O Brasil parece estar fazendo o caminho inverso. Somos grandes exportadores, mas mantemos uma dependência externa extraordinária justamente em um dos insumos mais críticos da produção.
O terceiro sinal foi o retorno do El Niño.
O fenômeno altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. No Brasil, pode provocar excesso de chuvas e inundações no Sul, calor e seca em partes do Norte e do Nordeste, deslocamento das janelas de plantio, aumento de pragas e doenças e perdas localizadas de produtividade.
Cada um desses riscos, isoladamente, poderia ser administrável. O problema aparece quando todos chegam juntos.
O petróleo de Ormuz não fica no mercado de energia. O gás não fica na indústria de fertilizantes. O fertilizante não fica dentro da porteira. O El Niño não fica na meteorologia.
Todos eles acabam no prato.
3. Do risco à oportunidade: uma estratégia brasileira de segurança alimentar
Esse alerta não deveria ser lido pelo Brasil apenas como uma projeção inflacionária. Ele deveria servir como ponto de partida para uma estratégia nacional de segurança alimentar, resiliência produtiva e agregação de valor.
A primeira frente é transformar nossa capacidade agrícola em capacidade agroindustrial.
O Brasil ainda exporta grandes volumes de produtos básicos e captura uma parcela relativamente pequena do valor gerado nas etapas seguintes. Soja, milho e outras commodities continuarão sendo fundamentais. Mas deveríamos ampliar o processamento doméstico, a produção de ingredientes, alimentos, proteínas, biomateriais, bioenergia e produtos de maior conteúdo tecnológico.
Se a China está investindo para reduzir sua dependência da soja importada e aumentar a eficiência no uso de proteína, o Brasil não pode responder apenas procurando outro comprador para o mesmo grão. Precisa aproveitar sua biodiversidade, sua base científica e sua experiência em agricultura tropical para diversificar produtos, mercados e fontes de receita.
A segunda frente é tratar fertilizantes como infraestrutura estratégica.
Isso significa estabelecer metas mais rápidas e concretas para a produção doméstica de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos onde houver viabilidade econômica, ambiental e social. Significa também acelerar bioinsumos, remineralizadores, reciclagem de nutrientes, aproveitamento de resíduos orgânicos e tecnologias capazes de aumentar a eficiência no uso dos fertilizantes.
Não se trata de buscar uma autossuficiência absoluta e economicamente artificial. Trata-se de reduzir uma dependência externa de 85%, diversificar fornecedores e rotas logísticas, desenvolver capacidade produtiva nacional e evitar que um único conflito ou corredor de transporte coloque toda a agricultura brasileira sob pressão.
A terceira frente é diversificar o próprio sistema alimentar.
Ser líder em soja, milho, açúcar e proteína animal não garante, sozinho, uma alimentação acessível, saudável e resiliente para a população. Precisamos fortalecer as cadeias de frutas, legumes, verduras, feijão, mandioca, alimentos regionais, sistemas agroflorestais e produtos da sociobiodiversidade. Precisamos reduzir perdas, melhorar a armazenagem, ampliar a adaptação climática e conectar a produção regional ao consumo regional.
O Brasil tem condições únicas de transformar esse risco em oportunidade. Pode ser uma potência em agricultura regenerativa, bioinsumos, fertilizantes de baixo carbono, alimentos diversificados e industrialização verde. Pode produzir mais valor por hectare, mais tecnologia por tonelada e mais segurança alimentar para sua própria população.
Mas isso exige reconhecer a diferença entre exportar alimentos e construir segurança alimentar.
Enquanto a China já incorporou o tema à sua estratégia nacional, o Brasil continua reagindo separadamente a problemas que fazem parte da mesma cadeia. A pergunta é simples: vamos esperar que clima, guerra, energia e fertilizantes cheguem juntos ao supermercado ou vamos usar nossa força agrícola para construir, enquanto ainda há tempo, uma verdadeira estratégia nacional de segurança alimentar?
