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Ebola: entenda tudo sobre a doença e a atual onda de preocupação global

Ebola: entenda tudo sobre a doença e a atual onda de preocupação global

Avanço de um surto na África Central, casos investigados no Brasil e desafios científicos colocaram novamente o vírus no centro das atenções

O ebola voltou ao centro das preocupações sanitárias globais após um surto na República Democrática do Congo e em Uganda levar a OMS (Organização Mundial da Saúde) a decretar uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, o mais alto nível de alerta da entidade. Embora o risco global permaneça classificado como baixo, autoridades de saúde monitoram atentamente a evolução dos casos, impulsionada por uma variante rara do vírus para a qual ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos aprovados.

Nesta semana, a OMS revisou significativamente o número de casos suspeitos monitorados na África Central. A contagem caiu de 906 para 116 após centenas de notificações serem descartadas por exames laboratoriais que identificaram outras doenças, como malária, meningite e síndromes febris sem relação com o ebola. Ao mesmo tempo, o total de casos confirmados continuou aumentando e chegou a 330 — sendo 321 na República Democrática do Congo e nove em Uganda. Entre os pacientes diagnosticados, foram registradas 49 mortes.

A redução no número de casos suspeitos já era esperada, uma vez que todos os pacientes com sintomas compatíveis com a doença são inicialmente classificados como suspeitos até a conclusão dos exames. “Qualquer pessoa detectada por meio de vigilância ou que procure um centro de saúde com sintomas que possam ser semelhantes aos do ebola é considerada um caso suspeito até a conclusão dos testes”, explicou Christian Lindmeier, porta-voz da OMS, à AFP.

Medidas de combate à doença

O surto foi oficialmente declarado em 15 de maio na província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo, região marcada por conflitos armados, deslocamentos populacionais e dificuldades de acesso para equipes médicas. Especialistas acreditam, no entanto, que o vírus já circulava silenciosamente semanas antes da identificação oficial dos primeiros casos.

A preocupação internacional não se deve apenas ao avanço das infecções, mas também às características da variante responsável pelo surto. A cepa Bundibugyo, considerada rara, não é contemplada pelas vacinas atualmente aprovadas e apresenta desafios adicionais para o diagnóstico. Segundo a BBC, alguns pacientes chegaram a apresentar resultados negativos nos testes iniciais porque muitos dos exames disponíveis foram desenvolvidos para detectar variantes mais comuns do vírus.

Enfermeiras trocando lençóis em uma ala de isolamento durante o surto de Ebola em Kikwit, em 1995 — Foto: Wikimedia Commons
Enfermeiras trocando lençóis em uma ala de isolamento durante o surto de Ebola em Kikwit, em 1995 — Foto: Wikimedia Commons

Diante desse cenário, governos, organismos multilaterais e instituições científicas aceleraram iniciativas de pesquisa e resposta. Nesta semana, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou que Washington voltará a se envolver com a aliança internacional de vacinação Gavi, em meio aos esforços para conter a emergência sanitária. A decisão ocorre em um momento em que a própria OMS alerta para dificuldades financeiras na resposta ao surto.

Paralelamente, a farmacêutica Moderna anunciou uma parceria com a CEPI (Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias) para desenvolver uma vacina contra a variante Bundibugyo. O projeto poderá receber até US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões) para financiar pesquisas pré-clínicas e os primeiros ensaios clínicos, aponta o g1.

Após a declaração da emergência internacional, diversos países reforçaram seus mecanismos de vigilância epidemiológica. No Brasil, dois casos suspeitos investigados recentemente — um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo — foram descartados após exames laboratoriais. No primeiro caso, o diagnóstico confirmado foi malária; no segundo, doença meningocócica. Vale lembrar que, segundo o Ministério da Saúde, o país nunca registrou um caso confirmado de ebola.

Carregamento de uma aeronave equipada com um sistema de biocontenção em contêineres em Freetown, Serra Leoa, em 17 de abril de 2017, após o surto de Ebola de 2014 na África Ocidental — Foto: Wikimedia Commons
Carregamento de uma aeronave equipada com um sistema de biocontenção em contêineres em Freetown, Serra Leoa, em 17 de abril de 2017, após o surto de Ebola de 2014 na África Ocidental — Foto: Wikimedia Commons

Apesar de considerar baixo o risco de transmissão em território nacional, o governo brasileiro ativou o Plano de Contingência Nacional para Febres Hemorrágicas Virais. A medida prevê o reforço do monitoramento de viajantes procedentes de áreas afetadas, protocolos de isolamento para casos suspeitos e rastreamento de contatos.

A declaração de emergência internacional pela OMS, contudo, não significa necessariamente que o mundo esteja diante de uma nova pandemia. De acordo com própria autoridade de saúde, o objetivo da medida é mobilizar recursos, fortalecer a coordenação entre os países e acelerar ações de vigilância, pesquisa e resposta sanitária diante de uma ameaça considerada relevante para a saúde pública global.

Afinal, o que é o ebola?

A doença causada pelo vírus ebola foi identificada pela primeira vez em 1976, durante surtos simultâneos no então Zaire — atual República Democrática do Congo — e no Sudão. O nome deriva do Rio Ebola, localizado próximo a uma das áreas atingidas. Desde então, dezenas de surtos da enfermidade foram registrados no continente africano.

O vírus pertence à família Filoviridae e ao gênero Ebolavirus sp. Atualmente, são conhecidas cinco espécies: Zaire, Sudão, Bundibugyo, Taï Forest e Reston. Quatro delas podem infectar seres humanos. A espécie Zaire é historicamente a mais letal, mas o surto atual é provocado pela variante Bundibugyo.

Um dos principais desafios para o controle da doença é que seus sintomas iniciais são semelhantes aos de infecções relativamente comuns em regiões tropicais. Febre alta, dor de cabeça, dores musculares, fadiga, náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal estão entre as manifestações mais frequentes, aponta a Agência Fiocruz.

O período de incubação varia entre dois e 21 dias. Nos casos graves, a infecção pode evoluir para hemorragias, comprometimento dos rins e do fígado, coagulação intravascular disseminada e falência múltipla de órgãos.

O ebola não é transmitido pelo ar. A infecção ocorre por meio do contato direto com sangue, secreções, tecidos ou outros fluidos corporais de pessoas ou animais infectados. Também pode haver transmissão por objetos contaminados, como roupas de cama, agulhas e superfícies que tiveram contato com esses materiais biológicos.

Especialistas destacam que uma pessoa infectada só se torna contagiosa após o aparecimento dos sintomas. Cerimônias fúnebres que envolvem contato direto com o corpo da vítima também podem representar um fator de disseminação da doença.