Empresas, governo e universidades articulam agenda para impulsionar economia circular no setor têxtil
Iniciativa reúne indústria, academia e poder público para buscar soluções que ampliem a reciclagem de resíduos têxteis e fortaleçam a circularidade da moda no Brasil
Representantes da indústria da moda, do governo federal, da academia e de empreendimentos da economia circular deram início a uma articulação para ampliar o reaproveitamento de resíduos têxteis no Brasil. O movimento foi lançado nesta quarta-feira (15), em São Paulo, durante um encontro promovido pela executiva Rachel Maia, sócia-fundadora da RM International, com o objetivo de aproximar diferentes atores da cadeia e construir uma agenda conjunta para transformar resíduos em novas matérias-primas.
A iniciativa surge em um cenário de grande desperdício. Embora o Brasil possua uma das maiores cadeias têxteis do Ocidente, o país gera mais de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano — cerca de 5% dos resíduos sólidos urbanos. Segundo levantamento da consultoria S2F Partners, cada domicílio brasileiro descartou, em média, 44 quilos de roupas e calçados em 2024. Apesar desse volume, apenas 6,9% desses materiais retornam à cadeia produtiva como matéria-prima secundária.
Além da geração de resíduos, a indústria da moda responde por entre 2% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O setor também está associado ao consumo de cerca de 215 trilhões de litros de água por ano e é responsável por aproximadamente 9% da poluição por microplásticos que chega aos oceanos.
Segundo Rachel Maia, o desafio deixou de ser apenas ambiental para se tornar também uma questão de competitividade e inovação. A proposta do grupo é iniciar um processo de escuta entre empresas, pesquisadores, governo e empreendedores para identificar gargalos, mapear oportunidades de colaboração e definir ações capazes de ampliar a circularidade do setor.
“O objetivo é construir uma agenda baseada em evidências, reunindo diferentes perspectivas antes mesmo de discutir soluções”, afirmou a executiva ao Um Só Planeta.
O primeiro encontro reuniu representantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Ministério da Fazenda, de empresas como C&A, Grupo Shoulder, Veste e Pernambucanas, além de cooperativas e negócios voltados à economia circular.
Obstáculos vão além da tecnologia
Para o pesquisador André Helleno, coordenador do mestrado profissional em Engenharia de Produção da Universidade Presbiteriana Mackenzie, transformar resíduos têxteis em novos produtos é mais complexo do que reciclar materiais como alumínio ou vidro.
Isso porque uma peça de roupa reúne diferentes fibras e componentes — como algodão, poliéster, zíperes, botões e linhas —, tornando a separação dos materiais um processo caro e de difícil escalabilidade. Segundo ele, embora existam tecnologias em desenvolvimento para reciclagem mecânica e química, o maior desafio atualmente é coordenar toda a cadeia produtiva.
O professor explica que a reciclagem mecânica ainda enfrenta limitações para lidar com produtos complexos, enquanto a reciclagem química, apesar dos avanços tecnológicos, “tem sérias dificuldades” com relação a contaminantes emergentes ou aos resíduos que também gera nesse processo.
Do ponto de vista tecnológico, Helleno pontua que, no Brasil, ainda há mais soluções de reciclagem têxtil em estágios intermediários de maturidade de aplicação. “A questão não é se é possível fazer ou não, é a discussão da escalabilidade do custo envolvido nesses processos”, afirma.
O pesquisador destacou ainda que cooperativas de reciclagem precisam ser incorporadas de forma estruturada às políticas de economia circular. “Muitas vezes o problema não é tecnológico, mas de regulamentação, comunicação e integração entre os diferentes atores”, afirmou Helleno.
No cenário internacional, enquanto a União Europeia avança em regulamentações voltadas ao ecodesign, rastreabilidade e passaporte digital de produtos na estratégia 2030, e a China investe em políticas industriais para reciclagem e ecoparques voltados ao reaproveitamento de fibras. “E o Brasil está em transição: temos a Política Nacional de Resíduos Sólidos, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos e, como decreto, a nossa Estratégia Nacional de Economia Circular”, diz.
O potencial econômico da circularidade também aparece em estimativas de consultorias. Pela conta da McKinsey, práticas circulares podem cortar até 20% dos custos de produção e elevar a receita em até 15%. Para a Accenture, esses modelos podem movimentar US$ 4,5 trilhões até 2030 — cifra que ganha concretude num exemplo nacional: a Fundação Getulio Vargas (FGV) mediu redução de até 38% nos custos operacionais de empresas que compartilharam paletes entre distribuidores e varejistas.
Na avaliação da subsecretária de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, Carolina Grottera, em entrevista ao Um Só Planeta, a cadeia têxtil reúne características que podem transformá-la em um exemplo para outros segmentos da economia brasileira.
Segundo ela, embora o país ainda não tenha um sistema específico de logística reversa para produtos têxteis, já existem instrumentos capazes de estimular essa transformação, como linhas de financiamento, incentivos à inovação e a futura Taxonomia Sustentável Brasileira, que poderá orientar investimentos voltados à reciclagem, ao ecodesign e à reutilização de materiais.
A subsecretária também destacou o potencial social da economia circular. Como aproximadamente 60% dos trabalhadores da indústria têxtil são mulheres, iniciativas ligadas ao reaproveitamento de resíduos podem fortalecer atividades como brechós, customização, reparo de roupas e projetos de upcycling.
Lembra ainda que o governo já dispõe de instrumentos capazes de apoiar essa transformação, mas ainda falta direcioná-los especificamente para o setor têxtil. Carolina cita a Lei de Incentivo à Reciclagem: em 2025, foram disponibilizados R$ 345 milhões em incentivos fiscais, diante de uma demanda de R$ 2,2 bilhões em projetos — um descompasso que, segundo ela, mostra o tamanho do apetite ainda represado. O próximo passo, na avaliação da subsecretária, é converter esses instrumentos gerais em uma iniciativa estruturada para a cadeia têxtil, com projetos-piloto, linhas de financiamento para inovação tecnológica e rastreabilidade, compras públicas e mecanismos específicos de logística reversa.
A Taxonomia Sustentável Brasileira é outro instrumento que, segundo a subsecretária , “pode orientar bancos e investidores, reduzir o risco de greenwashing e facilitar o acesso a crédito para projetos de ecodesign, reparo, reutilização, reciclagem de fibras, biomateriais e inclusão produtiva”.
Empresas ampliam iniciativas de circularidade
Enquanto políticas públicas e novas regulamentações são discutidas, parte da indústria já vem testando modelos para reduzir resíduos e ampliar o uso de matérias-primas recicladas.
A C&A informou que já produziu mais de 250 mil peças por meio do programa Jeans Circular, desenvolvido com fibras reaproveitadas, e mantém desde 2017 um sistema de coleta de roupas usadas que já recebeu mais de 410 mil peças.
A Insider apresentou um biocouro produzido a partir de borra de café, ainda em fase de patenteamento, enquanto o Grupo Malwee destacou o Fio do Futuro, confeccionado com roupas descartadas, além da malha Ar.voree, desenvolvida para capturar dióxido de carbono durante o uso das peças.
Outras varejistas também apresentaram iniciativas voltadas à circularidade, como Riachuelo, Hering e Youcom, com projetos que incorporam fibras recicladas, reduzem o consumo de água e energia e diminuem as emissões de gases de efeito estufa.
Reciclagem ainda ocorre em pequena escala
Apesar do avanço de iniciativas empresariais, especialistas avaliam que elas ainda representam uma parcela reduzida diante do volume de resíduos gerados pela indústria.
Estimativas da Associação Brasileira do Trade de Têxteis e Moda (ABTT) indicam que cerca de 20% dos resíduos têxteis são reciclados no Brasil, mas apenas 1% retorna à produção de novas roupas. A maior parte é destinada ao chamado downcycling, sendo transformada em produtos de menor valor agregado, como enchimentos e estopas.
O desafio acompanha uma tendência mundial. Dados da Fundação Ellen MacArthur mostram que, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de roupas é descartado no planeta. Menos de 1% das fibras têxteis é reciclado para produzir novas roupas, enquanto parte dos materiais é destinada ao chamado downcycling, quando é transformada em produtos de menor valor agregado, como enchimentos e forros.
Entre os principais entraves apontados aqui no Brasil estão a ausência de um sistema nacional de logística reversa para produtos têxteis, limitações tecnológicas para separar materiais compostos por diferentes fibras, baixa infraestrutura de coleta e triagem e barreiras tributárias que dificultam a competitividade das matérias-primas recicladas.
Após o encontro desta semana, o grupo pretende dar continuidade às discussões com novas reuniões previstas para agosto, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, e setembro, no Ministério da Fazenda, em Brasília. A expectativa é ampliar a participação de outros elos da cadeia produtiva e definir prioridades para acelerar a implementação da economia circular no setor têxtil.
