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Consumir menos açúcar na infância diminui risco de demência na velhice

Consumir menos açúcar na infância diminui risco de demência na velhice

Cientistas identificaram consequências a longo prazo a partir do consumo alto e precoce de açúcar, que pode começar antes mesmo do nascimento

O hábito de comer um docinho é prazeroso porque mexe com nosso cérebro. O açúcar é capaz de ativar nosso sistema cerebral de recompensa e liberar dopamina, o que gera prazer e vontade de consumir mais. Mas quais são, afinal, os malefícios do excesso de doces para a saúde a longo prazo?

Segundo um novo estudo, limitar o consumo de açúcar já nos primeiros anos de vida pode estar associado a um menor risco de desenvolvimento de demência na fase adulta. A partir de um experimento com 64.737 pessoas, pesquisadores verificaram que consumir menos açúcar antes mesmo do nascimento pode ser benéfico para a saúde cerebral.

“Esses resultados destacam a importância potencial da nutrição nos primeiros anos de vida para reduzir o risco de demência décadas depois”, diz Jiazhen Zheng, um dos autores do estudo, publicado hoje na revista científica Neurology.

Problema maior que um docinho

Para chegar à associação do consumo de açúcar e o risco de demência, os cientistas selecionaram um característica bem específica de avaliação para essas mais de 64 mil pessoas: nascer antes ou depois do racionamento de açúcar no Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial.

O alimento chegou a ser racionado durante e após o conflito, de forma que muitas pessoas nasceram e cresceram em um ambiente com pouco consumo de açúcar. O racionamento só se encerrou em setembro de 1953. Partindo desse dado, os indivíduos foram divididos em três grupos: racionamento de açúcar antes do nascimento e durante o primeiro ano de vida, racionamento antes do nascimento e até os dois anos de idade, ou sem racionamento de açúcar.

Com a chegada de idade média de 55 anos por parte dos participantes, o estudo avaliou registros médicos para identificar diagnósticos de demência. Das 15.025 pessoas que passaram por racionamento de açúcar antes do nascimento e durante o primeiro ano de vida, 388 desenvolveram demência, enquanto das 15.256 pessoas limitadas em açúcar antes do nascimento e durante os dois primeiros anos de vida, 456 foram diagnosticadas com a condição.

Altos teores de açúcar podem ser encontrados em alimentos “menos óbvios” e não necessariamente doces, como o pão de forma industrializado — Foto: mdjaff/Magnific
Altos teores de açúcar podem ser encontrados em alimentos “menos óbvios” e não necessariamente doces, como o pão de forma industrializado — Foto: mdjaff/Magnific

Por fim, das 23.774 pessoas nascidas após o racionamento de açúcar, 504 desenvolveram demência. Após ajustes e considerações sobre condições de saúde de participantes – como hipertensão e diabetes –, chegou-se ao dado que “pessoas que vivenciaram o racionamento de açúcar antes do nascimento e até um ano de idade apresentaram um risco 21% menor de demência em comparação com pessoas nascidas após o racionamento de açúcar”. Em relação ao grupo de antes do nascimento e até dois anos, o número sobe para 23%.

Um complemento do estudo foram exames de imagem cerebral feitos por alguns participantes. Como explica um comunicado, foi observado que aqueles com menor consumo de açúcar no início da vida apresentaram um maior volume de massa cinzenta e menores índices de danos no tecido cerebral.

“Limitar o consumo de açúcares adicionados durante a gravidez e a infância pode ser uma medida benéfica que famílias e comunidades podem adotar, mas são necessárias mais pesquisas para entender melhor como essas exposições precoces influenciam o risco de demência e para orientar as estratégias de saúde pública”, sugere Zheng.