Com megabiorreatores, EUA abrem caminho para revolução da carne cultivada em laboratório

Com megabiorreatores, EUA abrem caminho para revolução da carne cultivada em laboratório

Inovação na indústria de proteína pretende colocar a “carne de animais abatidos” no passado, produzindo em grande escala opções idênticas feitas a partir de células

Que tal comer aquele bife suculento no almoço sem que nenhum animal precise morrer para saciar o apetite humano? Em breve, os consumidores americanos poderão encontrar nos mercados cortes de frango e carne bovina “cultivadas” em laboratório a partir de amostras de células dos animais.

Cerca de 170 empresas no mundo trabalham na pesquisa, desenvolvimento e produção de carne cultivada. A Good Meat foi a primeira a colocar o produto no mercado. Recebeu aprovação regulatória em Cingapura em 2020 para seu frango à base de células animais e fez parceria com vários fornecedores de serviços de alimentação e distribuição nos anos seguintes.

Agora, a startup dá um passo ainda mais corajoso, ao anunciar a instalação de megabiorreatores para dar escala à produção. Ao todo, 10 novos biorreatores estão sendo construídos, cada um com capacidade de 250 mil litros e quatro andares de altura. “Os biorreatores serão de longe os maiores, não apenas na indústria de carne cultivada, mas também na indústria biofarmacêutica”, disse ao The Guardian Josh Tetrick, cofundador e CEO da Eat Just, “empresa mãe” dona da marca Good Meat.

Frango cultivado da GoodMeat, controlada pela Just Eat: megabiorreatores prometem escala inédita para a produção. — Foto: Divulgação/GoodMeat

Frango cultivado da GoodMeat, controlada pela Just Eat: megabiorreatores prometem escala inédita para a produção. — Foto: Divulgação/GoodMeat

A expectativa é de que a instalações sejam concluídas ainda neste ano e as operações comecem até 2024. Quando estiverem totalmente operantes, os biorreatores poderão entregar mais de 30 mil toneladas de carne cultivada por ano. “Acho que nossos netos vão nos perguntar por que ainda comíamos carne de animais abatidos em 2022”, comentou Tetrick.

O CEO destaca que a proteína animal cultivada é um caminho para as pessoas comerem carne sem os atuais passivos da produção, como o desmatamento associado às cadeias sem monitoramento adequado, a necessidade de usar antibióticos para tratar doenças nos animais e, mais ainda — nenhum animal precisará morrer para garantir o filé no prato.

Em paralelo à construção dos biorreatores, a empresa aguarda a aprovação regulatória nos EUA, que pode levar de 18 a 24 meses, para lançar seus produtos por lá. Carne de frango e bovina serão os primeiros na lista. Toda parte de design e engenharia da empreitada é encabeçada pela empresa ABEC, que fabrica biorreatores desde a década de 1980.

A Good Meat não está sozinha na corrida para escalar comercialmente a carne de laboratório, mas é a que promete maior escala. Recentemente, a Upside Foods levantou US$ 400 milhões, em parte para financiar uma instalação comercial para produzir carne cultivada, mais ainda não anunciou o tamanho nem a quantidade de biorreatores. Outras iniciativas de foodtechs em menor escala também estão em andamento no país.

“A escala das instalações [da Good Meat] representa uma confiança real e crescente das empresas no potencial comercial da carne cultivada. Com seu potencial para diminuir os custos de produção, pode ser um divisor de águas na corrida para levar a carne cultivada para restaurantes, supermercados e mesas de jantar”, avalia Caroline Bushnell, vice-presidente do Good Food Institute, organização que promove o mercado de proteínas alternativas.