Sintomas da depressão atingem 25% dos jovens, mostra estudo
Uma em cada quatro crianças e adolescentes do mundo possui sintomas clínicos de depressão, e uma em cada cinco apresenta sinais de ansiedade, indica uma pesquisa que agregou 29 estudos numa amostra de 80 mil crianças no planeta todo. O trabalho, liderado por cientistas do Canadá, sugere que a prevalência de problemas mentais dobrou nesse grupo de jovens, em relação ao período anterior ao da pandemia de Covid-19.
O resultado foi publicado ontem na revista JAMA Pediatrics, da Associação Médica Americana. Liderados pela psicóloga Sheri Madigan, da Universidade de Calgary, no Canadá, os autores do artigo dizem que os serviços de atendimento à saúde mental infanto-juvenil precisam ser ampliados para lidar com o problema.
— Muitas pessoas no mundo, em todas as faixas etárias, estão enfrentando problemas de saúde mental, mas os estudos que olharam para esses grupos separadamente mostram que o problema tende a ser maior com três grupos: em mães e pais; em estudantes universitários; e em crianças e adolescentes, que foi o recorte que estudamos — disse a psicóloga Madigan ao EXTRA.
Nos casos mais problemáticos, algumas crianças ficaram até sem acesso a ensino, por não poderem acompanhar aulas on-line, e em casas onde os pais não conseguiam dar atenção necessária a elas.
De acordo com a pesquisadora, há coisas que famílias também podem fazer para minimizar o impacto sobre os jovens, como reduzir o tempo em que os menores de idade ficam à frente de telefones celulares, TVs e computadores.
— O que os pais podem fazer, na medida do possível, é tentar restabelecer um pouco da rotina e criar um ambiente com mais previsibilidade para as crianças, com sono e alimentação regulado e tempo de tela controlado — explica a pesquisadora de Calgary.
Madigan diz que os responsáveis podem tentar compensar as atividades que os filhos perderam:
— Como as crianças ficaram em casa boa parte do ano, fizeram menos atividade extracurricular, menos atividade física e tiveram menos interações com colegas. Os pais podem tentar compensar um pouco isso — afirmou.
Mais ansiosos na pandemia
O único estudo brasileiro incluído na análise foi feito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP). Liderado pela enfermeira e sanitarista Marla Garcia de Avila, professora da Faculdade de Medicina, o trabalho usou um questionário para avaliar sintomas de ansiedade em crianças de 6 a 12 anos durante o auge da pandemia, em 2020.
A prevalência estimada de sintomas clínicos de transtornos de ansiedade nesse grupo foi de 19,4%, taxa similar à média mundial verificada pelo estudo de Sheri Madigan. Essa estimativa, no entanto, cresceu ao longo da pandemia do coronavírus, conforme Avila concluiu ao enviar o questionário para mais crianças:
— Tivemos 906 crianças que participaram com os pais ou responsáveis, e vimos que a parcela delas com os sintomas de ansiedade cresceu, para cerca de 25%.
Casas cheias pioram situação
A alta concentrações de pessoas em uma mesma residência também pode estar ligada a casos de ansiedade, segundo a enfermeira Marla Garcia de Avila:
— Ter muitas pessoas morando na mesma casa também foi um fator associado como causador de ansiedade nas crianças, e as crianças deficientes ou com comorbidade são as que mais sofreram.
Em adolescentes, Madigan afirma que muitos sofreram pela falta de interação afetiva e social. A ausência de rituais importantes de amadurecimento, como festas de formatura e competições esportivas, causaram muita frustração nessa faixa etária.
Resta saber, diz a pesquisadora canadense, se esses problemas vão persistir depois que as restrições impostas pela pandemia deixarem de existir.
