Salinidade da água garante produtividade e impulsiona produção de camarão na Paraíba
O Vale do Paraíba hoje é o principal polo produtor de camarão do Estado, inclusive com uma média de produtividade quatro vezes maior do que a média do Brasil. Este ano, a Paraíba deve produzir em torno de 3 mil toneladas de camarão. A informação é do presidente da Associação dos Criadores de Camarão da Paraíba, André Gustavo Jansen de Oliveira. Ele detalha que a produtividade no Vale do Paraíba, a 53 km de João Pessoa, é acima de 20 toneladas de camarão por hectare/ano, quando a média do Brasil é em torno de seis toneladas por hectare/ano.
O engenheiro de pesca André Jansen, que já atuou nas maiores empresas produtoras de camarão do país e que há 16 anos trabalha com cultivo de camarão, explica que o diferencial da região do Vale do Paraíba é a qualidade da água, que é propícia ao cultivo do camarão marinho Litopenaeus vannamei, oriundo do oceano Pacífico. “É uma água que embora não seja de boa qualidade para o consumo humano, porque a salinidade dela gira em torno de 2, ou seja (S2), uma água de meso a oligohalina em relação à presença de sal, ela contribui para a uma boa produção de camarão”, acrescenta.
Outro diferencial apontado pelo especialista, com relação ao camarão produzido no Vale do Paraíba, é o seu cultivo através de um sistema sustentável de recirculação de água e por não usar materiais industrializados para a alimentação dos camarões, como rações de crescimento, geralmente utilizadas para aumentar o tamanho do animal. Com isso o crustáceo ali produzido possui cerca de 65% menos gordura que o tradicional, sendo conhecido também como camarão light.
“O sistema sustentável de recirculação de água, com uso de pouquíssima água do rio Paraíba, possibilita uma água de descarte de até melhor qualidade do que a água que a gente capta, já que a gente pega uma água bruta e trata nos viveiros, com uso de probióticos, que são bactérias benéficas responsáveis pela limpeza dessa água onde a gente cultiva o camarão. Com isso, se devolve uma água com melhores índices de oxigênio, com um nível de amônia, nitritos e fósforo bem menor do que a água que a gente pega no rio”, ressalta.
André afirma que hoje no Vale do Paraíba se concentram micro e pequenos produtores com alta densidade de estocagem, em torno de 100 camarões por metro quadrado. “Os viveiros têm, no máximo, meio hectare de área e seus equipamentos incorporam o oxigênio atmosférico na água, desse jeito facilitando o cultivo”, informa o engenheiro de pesca.
Carcinicultura atrai produtores rurais e muda perfil econômico do Vale do Paraíba
Com lucro de aproximadamente R$ 40 mil por tanque, a produção de camarão da região do Vale do Paraíba é apontada como uma das principais potências na aquicultura do Estado, com resultados mais viáveis e atraentes que criações mais tradicionais, como a da tilápia, por exemplo. Segundo analisa o presidente da Associação dos Criadores de Camarão da Paraíba, André Jansen, a carcinicultura tem mudado o perfil da vocação econômica da região do Vale do Paraíba.
André Jansen sustenta que, embora numa região voltada para o setor primário, o que se vê no Vale do Paraíba são os micro e pequenos produtores rurais migrando das atividades agrárias tradicionais, como a engorda do gado e o plantio do milho e do feijão, que dependem muito da chuva, para uma cultura nobre como a do camarão, que apresenta uma lucratividade bem acima do que eles tinham em outras atividades, possibilitando uma melhora da qualidade de vida. “Atualmente, eles adquirem bens, a exemplo de automóveis e equipamentos para seus empreendimentos, e podem colocar seus filhos em escolas e universidades particulares, o que antes não acontecia. Estão numa situação de vida bem melhor do que quando estavam na atividade agrária tradicional”, assegura.
Ele reconhece que o Sebrae Paraíba tem dado um apoio inicial importante para os produtores de camarão e também destaca a contribuição do Governo do Estado para a atividade. “A legislação da Paraíba permite que fazendas para produção de camarão, com até cinco hectares de lâmina d’água tenham uma licença ambiental simplificada, ou melhor, uma dispensa de licença. Você faz um projeto solicitando a dispensa de licença e isso é um fato que tem contribuído muito com a atividade”, admite.
André revela que hoje a produção de camarão é basicamente para atender ao mercado interno, onde se observa um consumo de pescado, como um todo, ainda muito abaixo do que recomenda a Organização Mundial de Saúde. “Se as pessoas comessem, cada uma, ao menos um quilo de camarão por ano, a gente teria que produzir duzentas mil toneladas para atender a toda a população brasileira. No entanto, hoje, o que você produz, vende sem muito estresse ou dificuldade”, observa.
Atualmente, o preço médio do camarão de 10 gramas, para o produtor, está em torno de R$ 15,00. Com isso, ele consegue ter um lucro líquido na faixa de R$ 8,00 e R$ 8,50, porque como os micros e pequenos produtores não têm funcionários, já que eles mesmos, juntos com a família, cuidam do cultivo inteiro, a sua rentabilidade é maior. No caso das empresas consolidadas, o ganho é em torno de R$ 5,00 a R$ 6,00 por quilo produzido.
Quanto à Associação dos Criadores de Camarão da Paraíba, André Jansen explica que a entidade trabalha em defesa da atividade e que a mesma não é uma associação de compra, nem de venda de insumos. “A gente procura defender o interesse de todos os carcinicultores, do grande, médio e pequeno, tanto dos que desenvolvem suas atividades no estuário, quanto os que trabalham nas águas continentais”, informa.
Sebrae Paraíba mapeia produção de camarão
De acordo com informações do Sebrae, que está finalizando um levantamento sobre produção da carcinicultura no Vale do Paraíba a ser divulgado brevemente, já foram identificados nos primeiros estudos que há um grande potencial na criação do camarão na região, onde pelo menos 20 propriedades rurais já desenvolvem a atividade, especificamente nos municípios de Itabaiana Itatuba, Mogeiro, Pilar, Salgado de São Felix e São Miguel de Itaipu.
As 20 propriedades ocupam uma área territorial de 1.499,5 hectares, dos quais 104,40 hectares são de área produtiva utilizada na carcinicultura. As estruturas de produção de camarão distribuídas nas 20 propriedades são compostas por dois berçários de fibra, dois berçários de alvenaria, 164 viveiros convencionais e seis viveiros com geomembrana. Apenas 11 das 20 propriedades possuem acesso à informática e internet e só 16 possuem sinal de celular.
Para o analista técnico do Sebrae Paraíba, Jucieux Palmeira, o mapeamento sobre o cultivo de camarão tem como finalidades regularizar e dar ferramentas necessárias para que os negócios da região nesta atividade cresçam de forma saudável. “Fizemos análises na área de viabilidade econômica, no detalhamento da produção, analisamos as questões jurídicas, como os licenciamentos ambientais, entre outras questões burocráticas. Tudo isso é importante para consolidar esses empreendimentos”, disse.
O que se observa é que os produtores de camarão do Vale do Paraíba também buscam aprender boas práticas de manejo para se consolidarem no ramo. Pelo menos 12 unidades de produção de camarão do Vale do Paraíba já participaram de capacitações sobre biossegurança realizadas pela Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC) e com o apoio do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA).
Segundo dados de 2016 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil ocupa a 7ª colocação no ranking dos principais produtores de camarão do mundo, com uma produção de 64.669 toneladas. Segundo especialistas, o país tem potencial para se tornar um dos maiores produtores de pescados do mundo e até superar alguns países asiáticos, líderes na produção de pescados, devido principalmente à crescente produção de pescado em cativeiro, a exemplo do camarão. O consumo de pescados também vem aumentando e, de 1999 a 2011, o consumo per capita passou de 6,15 kg/hab/ano para 11,17 kg/hab/ano, um aumento per capita de 81%.



