Poluição e crise hídrica ameaçam tartarugas no Distrito Federal
O projeto Tartaruga do Cerrado monitora tartarugas e realiza mutirões de limpeza em locais críticos.
O lixo e a água suja de córregos e a crise hídrica estão colocando em risco tartarugas que vivem no Distrito Federal. Preocupado com a situação dos animais, o estudante de engenharia florestal Estephânio Shairon de Souza passou a monitorar grupos de tartarugas.
O projeto, que recebeu o nome de Tartaruga do Cerrado, teve início em 2014. “A gente não conseguia tomar de conta de tudo. É tanto animal que precisa, mas resolvemos pegar as tartarugas como um segmento”, afirma. “Até hoje tem gente que estranha. Perguntam se existe tartaruga no DF, e associam logo às marinhas. A gente faz essa educação ambiental para mostrar que há tartaruga no Cerrado, de água doce”, completa.
A atuação do estudante é feita em conjunto com outros seis voluntários. Eles monitoram a parte sul do Lago Paranoá, onde há grande quantidade de córregos, e realizam mutirões de limpeza em locais críticos. “A gente faz medição de casco – altura e largura -, o sexo do animal, se é adulto ou filhote. Não fazemos a chipagem, porque é um custo alto e não temos esse recurso”, conta. O projeto já mapeou 68 tartarugas nos córregos Guará, Vicente Pires, Riacho Fundo, Açudinho e Gama.
“Animais migraram pela mudança do habitat, de três a cinco quilômetros. A qualidade da água, em alguns pontos, sofreu eutrofização (acúmulo de matéria orgânica), aí fica com coloração diferente. Há um animal com verrugas e doença de pele. A matéria orgânica vem do lixo, do esgoto jogado nos córregos”, afirma. “Com a questão da crise hídrica, com menos água nos leitos dos riachos, tem uma concentração ainda maior da matéria orgânica e menos alimento para as tartarugas. Algumas pessoas as capturam para tê-las de animal doméstico. Tiram da natureza, levam para casa e lá eles morrem”, acrescenta.
A atitude da população, que além de aprisionar tartarugas em cativeiro, impedindo-as de viver em liberdade no habitat, ainda poluem o meio ambiente, e o descaso do governo são criticados pelo estudante. “Esses animais são resistentes, se adaptam ao ambiente. Mas até quando? Eles indicam para a gente que há um problema e está na água. Eles não têm voz, então vão sofrer até morrerem?”, diz Estephânio, que afirma que faz alertas aos órgãos competentes, mas que não recebe respostas concretas.
O doutor em ecologia e professor do Departamento de Engenharia Florestal da UnB, Reuber Brandão, confirma o que é denunciado pelo estudante. “As tartarugas são predadores. Alimentam-se de peixes, girinos, e, se há mudança na oferta das presas, esses animais vão ter perda de qualidade nutricional e adoecer. Eles estão sumindo dos rios poluídos justamente por isso”, lamenta.
De acordo com o especialista, entre os fatores que têm afetado o ecossistema da espécie estão “o lixo e o esgoto não tratado que cai nas águas, desmatamento, secamento de nascentes e a introdução de espécies exóticas, como a tartaruga tigre d’água, que é comercializada e é portadora de bactéria que desenvolve uma síndrome respiratória”.
A respeito do impacto da crise hídrica na vida das tartarugas, Brandão afirma que “esses animais têm se deslocado de uma região para outra, desde que permaneçam em um local que tenha água. O fator central é que a tartaruga reflete o descaso da população e dos governantes com a conservação dos rios”. As informações são do portal Jornal de Brasília.
O especialista explica que várias atitudes devem ser tomadas para solucionar os problemas, dentre elas, “acabar com as emissões de esgoto não tratado nos córregos; não desmatar; mudar radicalmente a mentalidade sobre esses animais, porque não pode capturar as tartarugas nativas; e, jogar o lixo corretamente. A responsabilidade da população é até o descarte final, quando chega ao aterro sanitário”, diz.
O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) afirmou conhecer e apoiar o projeto Tartaruga do Cerrado. O órgão afirma que realiza ações de fiscalização na região do Córrego Riacho Fundo e que dará início a um levantamento das nascentes de toda a unidade hidrográfica “que, além do Riacho Fundo, envolve regiões que margeiam o ribeirão, como Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Guará e parte de Águas Claras”.
A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) afirmou que a poluição do córrego não tem relação com o esgoto tratado pela companhia.
