Pesquisadores fazem apelo no surto de febre amarela: não matem os macacos
“É claro que caçar macacos é errado, mas quando os macacos começaram a aparecer mortos de febre amarela a vacinação deveria ter começado”, disse Dalia de Oliveira, 30, uma manicure. Seu primo, Watila dos Santos, um operário da construção de 38 anos, morreu em março pelo vírus em Casimiro de Abreu, no interior do Estado do Rio.
“Ele foi ao hospital público e foi diagnosticado erradamente com sinusite”, disse Oliveira. “As autoridades poderiam ter sido mais atuantes na prevenção dessa tragédia, mas preferiram minimizar a situação.”
O ministro da Saúde do Brasil, Ricardo Barros, admitiu em uma entrevista que menos pessoas teriam morrido nos últimos meses se o governo tivesse reagido mais vigorosamente nas primeiras fases do surto.
“Pode ter havido uma falha na vacinação depois que os primeiros macacos apareceram mortos em Minas Gerais”, disse Barros, citando o Estado mais atingido pelo surto, com mais de 160 mortes.
Especialistas em doenças infecciosas estão tentando determinar por que a febre amarela surge com maior ferocidade neste ano no Brasil. A doutora Anna Durbin, pesquisadora na Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins, disse que uma combinação de fatores pode estar em ação, incluindo a mudança climática e o desflorestamento de áreas que servem como zonas tampão entre florestas tropicais e áreas urbanas.
“Uma grande preocupação é que o vírus salte o Canal do Panamá” para a América Central, disse Durbin.
O vírus também pode ter o potencial de se espalhar para Porto Rico e gerar casos relacionados a viagens nos EUA continentais, disseram recentemente no “The New England Journal of Medicine” os doutores Anthony S. Fauci e Catharine I. Paules, do Instituto Nacional de Alergias dos EUA. No final de abril, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA advertiram sobre a falta de vacinas contra febre amarela no país, por causa de recentes problemas de fabricação.
Enquanto os epidemiologistas monitoram o avanço da doença em partes do Brasil, os macacos continuam aparecendo mortos, seja pela mão do homem ou em consequência do vírus. Pesquisadores dizem que o vírus ameaça espécies já em risco de extinção, como o mico-leão dourado, que vive nas florestas do Rio de Janeiro.
Karen Strier, uma antropóloga da Universidade de Wisconsin que estuda macacos na mata Atlântica do Brasil desde os anos 1980, disse que nunca viu macacos morrerem por doença em números tão elevados. Ela descreveu uma “sensação de vazio” em uma reserva perto de Caratinga, em Minas Gerais, de onde desapareceram muitos bugios.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves



