Os Riscos de Financiamento dos Impactos Ambientais para Fundos de Pensão

Ao analisar um ativo, fundos de pensão já rejeitam ameaças ambientais e clientes potenciais de crédito são classificados de acordo com a situação de suas reservas legais de floresta ou o descarte de produtos tóxicos. O dano ao capital natural e social de um empreendimento se destaca cada vez mais na agenda de bancos e fundos de pensão do Brasil como componentes considerável da gestão de risco.

Os fundos de pensão e bancos brasileiros estão expostos a bilhões de dólares de custos ambientais devido aos impactos ambientais causados pelas atividades das empresas que esses atores financiam ou investem. A integração de fatores ambientais nas decisões de financiamento pode auxiliar as instituições financeiras a reduzirem esses riscos ambientais e simultaneamente promover fluxos de capital para processos e produtos respeitadores dos recursos e do ambiente.

Os resultados foram publicados no relatório de “Exposição do Setor Financeiro ao Risco do Capital Natural no Brasil”, elaborado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), em parceria com a GIZ (Agência Alemã para a Cooperação Internacional). A pesquisa foi orientada pela Trucost, em parceria com um grupo de instituições brasileiras.

Foi constatado pelo estudo que o custo do capital natural total de empresas financiadas por bancos e fundos de pensão brasileiros é de R$ 1,646 bilhões. Os setores com os maiores custos de capital natural incluem a criação de gado, cultivo de soja e extração de petróleo e gás. Para cada milhão de reais de receitas, o setor de pecuária, por exemplo, gera R$ 22 milhões de impactos ambientais, principalmente por meio de desmatamento e de emissões de gases de efeito estufa. Da mesma forma, no caso do cultivo de soja, para cada R$ 1 milhão de receita gerada pelo setor, totalizam impactos ambientais no valor de aproximadamente R$ 3 milhões.

Marina Grossi, presidente do CEBDS, afirmou: “Sabemos o quanto é desafiador colocar o tema de capital natural nas análises dos bancos e das empresas. É um assunto de vanguarda. Esse processo passa necessariamente por uma melhor gestão dos riscos ambientais e, para que a gestão destes riscos seja apropriada, é necessário trabalhar na identificação e mensuração destes riscos, antes de tudo. E estamos justamente nessa construção. Esta é uma nova fronteira para que os agentes financeiros se diferenciem na nova economia”. Frisou a necessidade de se ter uma visão sistêmica que incorpore o capital natural e o capital social aos negócios se os bancos quiserem ser indutores de novos comportamentos. Esta é uma nova fronteira para que os agentes financeiros se diferenciem na nova economia. Ela também salientou a importância do assunto nas negociações do acordo climático global, em dezembro, em Paris. “Na COP 21, finanças estão no centro do debate”, afirmou.

O relatório recomenda que as instituições financeiras devam quantificar os custos do capital natural relacionando com as suas carteiras de investimentos e carteiras de empréstimos; avaliar os riscos destes custos virem a ser internalizados ao longo do tempo como resultado de regulamentação ou relacionando a volatilidade do clima; e incorporar considerações de capital natural em suas análises, processos de tomada de decisão e estratégias de investimento.

Para conceder isso, é fundamental que os bancos e os fundos de pensão usem sua posição para exigir melhores dados sobre os impactos do capital natural das empresas. Eles também devem incentivar as empresas a reduzir seus impactos ambientais e a utilização de recursos através da adoção de métodos de produção ambientalmente sustentáveis, como reciclagem de resíduos, energia renovável e irrigação eficiente.

A Trucost, empresa de consultoria sediada no Reino Unido, analisou o impacto sobre o ambiente de 45 setores econômicos no Brasil e aplicou estas variáveis a financiamentos feitos a empresas por bancos e fundos de pensão brasileiros. O custo do capital natural destas atividades, em um ano, é superior a R$ 1,6 bilhão, estima o relatório.

O estudo coloca foco em um conceito novo, o capital natural. “Uma árvore absorve CO2 e estoca carbono e contribui para que a floresta produza água, duas coisas importantes para a economia, mas que não entram no valor da madeira”, disse Richard Mattison, CEO da Trucost. “Se isso for considerado, uma árvore vale 20 vezes seu valor em madeira”.

O executivo da Trucost, destacou: “A valorização do capital natural oferece aos bancos e fundos de pensão um novo quadro para compreender os riscos e as oportunidades dos seus investimentos e de suas atividades de financiamento. As instituições financeiras que integram as considerações do capital natural em sua avaliação patrimonial e nas decisões de concessão de empréstimos corporativos, podem se beneficiar através da redução dos riscos e identificação de oportunidades de negócios mais rentáveis”.

Segundo ele a escassez de recursos naturais traz cada vez mais impactos à economia. Cidades com crise hídrica significam, por exemplo, menor receita para fabricantes de detergentes porque os clientes não podem usar água como antes.

Recentemente analistas do fundo de pensão Real Grandeza que tem entre os patrocinadores Furnas e a Eletronuclear, e quase R$ 13 bilhões de patrimônio vetaram a debênture de uma empresa que tinha risco de imagem pelo envolvimento em um processo ambiental. “Não tem jeito, temos que levar em consideração aspectos de sustentabilidade para minimizar o risco dos investimentos e ter mais desempenho”, diz Márcia De Luca Micheli, analista de investimentos da Real Grandeza.

“Sustentabilidade não é mais tema de nicho. As reuniões internacionais de clima colocaram o tema na agenda dos negócios”, diz Luiz Fernando Amaral, gerente de responsabilidade socioambiental corporativa no Rabobank.

O Real Grandeza e o Rabobank têm metodologias de como avaliar o risco ao capital natural e adversidades de sustentabilidade dos clientes. Em cada uma das agências do Rabobank há um agrônomo especialista em questões socioambientais com as funções de informar os produtores das regras socioambientais e avaliar o que está observando nas fazendas em termos de cobertura florestal, segurança dos trabalhadores, práticas agrícolas dentre outros. “Monitoramos o portfólio”, diz Amaral.

Segundo ele, o principal benefício da sustentabilidade nos negócios, que começa como análise de risco, evolui para uma melhoria de gestão. Ele exemplifica com a queda de multas ambientais entre seus clientes e o aumento da prática de plantio direto.

A Real Grandeza possui um modelo objetivo para medir o grau de comprometimento dos clientes com práticas socioambientais. Há setores vedados como o de armas, fumo, bebidas alcoólicas e pornografia. Após o filtro da “vedação”, os analistas aplicam um questionário para classificar o grau de risco socioambiental do ativo. “Queremos investir em empresas que se preocupam com o descarte de resíduos na produção, mais eficiência no uso da água e da energia, que reciclam, que retém talentos porque se preocupam com o bem-estar do funcionário”, diz. “Têm gestão otimizada e dão mais retorno”, diz Márcia De Luca Micheli, analista de investimentos da Real Grandeza.

“Hoje a economia tradicional não incorpora as questões ambientais, quanto vale ou não o capital natural e quanto isso impacta as receitas das empresas”, afirma Mario Sergio Vasconcelos, diretor de relações institucionais da Febraban. Segundo ele, este tipo de abordagem ajuda a encaminhar outro ponto: como se faz com que produtos ambientalmente corretos sejam valorizados pelos consumidores e se desestimule a compra dos demais. A decisão racional no mercado é em cima do preço. Se conseguir incorporar externalidades ambientais positivas e negativas, talvez o mercado tenha uma direção diferente da que tem atualmente.

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