Os milagres dos fungos: micélios podem “salvar o mundo” em seis pontos
Atuar como biopesticida, aliviar a fome mundial, prevenir doenças e tratar a gripe são algumas das possíveis funções do micélio segundo o micologista Paul Stamets
O micélio é nome que se dá ao conjunto de hifas de fungos multicelulares. Cada hifa é um filamento microscópico. O micélio auxilia vegetais na sustentação e absorção de nutrientes e se desenvolve no interior do substrato.
O micologista estadounidense Paul Stamets, que trabalha investigando fungos há mais de 40 anos, acredita que os micélios podem trazer soluções para, literalmente, salvar o mundo. Segundo o cientista, eles podem limpar solo poluído, atuar como biopesticidas, tratar varíola e até a gripe.

Imagem: Wikimedia commons
Stamets chama o micélio de “a internet da natureza” devido à rede que eles formam debaixo da terra – segundo o cientista, ela é capaz de auxiliar vegetais na busca por água.
O pesquisador acredita tanto no poder dos fungos que fundou a empresa Fungi Perfecti, que oferece diversos produtos feitos a partir dessa maravilha da natureza. Além disso, ele é detentor de diversas patentes relacionadas ao uso de fungos.
A menina dos olhos de Stamets é o micélio. Segundo o micologista, os fungos têm a capacidade de realizarem tarefas incríveis que a maioria das pessoas pode considerar impossível sem o auxílio da tecnologia. Em palestra feita no TED, o micologista cita seis motivos pelos quais o micélio poderia ajudar a salvar o mundo. Elas são:
Micoatraentes e micopesticidas (biopesticidas)
De acordo com o especialista, os fungos chamados de entomopatogênicos, em sua fase de pré-esporulação (preconidial), atraem os insetos. Os cogumelos têm o poder de controlar cerca de 200 mil espécies de insetos e pragas, protegendo permanentemente as plantações. O fungo pode ser cultivado em grãos, madeiras, resíduos agrícolas ou outros materiais celulósicos, atraindo insetos. Mais de um fungo e substrato podem ser usados em combinação. Aí os insetos os ingerem e são transformados também em fungos. Como diz Stamets em palestra feita ao TED, “E então, uma delicada dança entre jantar e morte, o micélio [fungo] é consumido pelas formigas, elas são mumificadas e… Um cogumelo brota de suas cabeças“. Os pesticidas tradicionais oferecem diversos riscos ao meio ambiente e à saúde humana (saiba mais sobre esses perigos aqui). Por isso, os biopesticidas são uma alternativa importante para evitar esses danos de maneira sustentável.
Esses micopesticidas são úteis não apenas para a agricultura, mas também para o controle de doenças. Esse ciclo protetor poderia, por exemplo, eliminar mosquitos vetores da dengue ou da malária.

Propriedades antivirais e antibacterianas
A partir de micélio do cogumelo medicinal, extratos e derivados, são produzidos compostos que têm propriedades antivirais e antibacterianas. As composições são derivadas de diversas variedades de cogumelos, como: Fomitopsis, Piptoporus, lucidum, Inonotus, Trametes, Pleurotus, entre outras. Esses compostos são úteis na prevenção e tratamento de vírus, incluindo os vírus poxyiridae e orthopox, vírus da gripe, incluindo a gripe das aves (H5N1), a síndrome respiratória aguda grave (SARS) e hepatite C (VHC), bem como infecções provocadas por Mycobacterium tuberculosis, Staphylococcus aureus e Escherichia coli.
Reabilitação e restauração ecológica
Stamets descobriu que os fungos têm propriedades que podem nos auxiliar em um grande problema atual: a poluição. Os fungos são úteis para preservar e melhorar os habitats; ajudam na biorremediação de resíduos tóxicos e locais poluídos; filtram produtos agrícolas, minas e escoamentos urbanos; melhoraram rendimentos agrícolas e controlam organismos biológicos. Em uma experiência em parceria com os Laboratórios Battele, Stamets pôde comprovar os efeitos do micélio em pilhas saturadas com diesel e com outros resíduos oriundos do petróleo. O micélio absorveu o óleo e produziu enzimas de peroxidases que quebram as ligações de carbono e hidrogênio. Assim, diversos cogumelos cresceram e as enzimas transformaram os hidrocarbonetos em carboidratos – açúcares fúngicos.
Econol
Cogumelos crescem extremamente rápido… Às vezes eles parecem brotar de um dia pro outro. A utilização dos fungos para produzir econol poderia substituir a maioria dos combustíveis à base de recursos não renováveis e poluentes, como o petróleo. Paul Stamets propõe a geração de celulose a partir de micélio. O micélio converte a celulose em açúcares fúngicos. Sua utilização seria uma alternativa para resolver a crise energética. O pesquisador aponta o econol como uma versão mais viável economicamente do etanol. Os cogumelos poderiam surgir de lixo orgânico. O micélio seria um intermediário na produção do econol.
Aliviar a fome mundial
O micologista explica como micélios oferecem formas para combater a fome mundial. Não apenas como fonte de alimento, mas também melhorando o cultivo de outras plantas. Quando plantas crescem em conjunto com micélios em suas raízes, elas crescem mais fortes mesmo sob condições adversas. Elesfornecem resistência ao calor, maior absorção de água e nutrientes. Assim, as plantas se tornam mais resistentes à seca. Com a utilização desses fungos, seria possível cultivar arroz, milho e outras gramíneas em climas áridos.
Soluções fúngicas para proteger as abelhas e superar a desordem do colapso da colônia (CCD)
Uma das invenções do micologista é o uso de extratos de micélios de espécies de fungos para proporcionar um arsenal de defesas para as abelhinhas. O extrato influenciaria em vários fatores de estresse, de modo a ajudar as abelhas a sobreviver e a enfrentar os sintomas da desordem do colapso da colônia (CCD). Os fungos funcionariam como uma espécie de escudo, oferecendo a melhoria das condições de saúde, resistência a doenças, tolerância aos pesticidas, aumento da capacidade de polinização e, consequentemente, melhoria da qualidade do mel produzido. Saiba mais sobre o desaparecimento das abelhas aqui.
Saiba mais na palestra que Paul Stamets fez para o TED (legendas em português):
